Clavis Libri

Tema em Dom Casmurro

Aparência e realidade

O que parece e o que é: hipocrisia, fingimento, máscara social, ilusão, percepção enganada.

O tema na obra

O livro reúne cenas em que o que se vê admite pelo menos duas leituras, e quase nunca a cena decide. No capítulo XV, surpreendida por Pádua, Capitu apaga os nomes do muro, risca um perfil e responde por ambos que jogavam o siso; no capítulo XXXVIII, alega susto quando o pai entra, e Bentinho, que sabia de tudo, chama aquilo de mentira e sente inveja. No capítulo LXV, explica que se mostra alegre diante de Dona Glória para não confirmar a denúncia de José Dias, e no capítulo LXXVI, que olhar abertamente para o cavaleiro prova que nada há, porque haveria dissimulação. Cada gesto pode ser lido como defesa de um namoro ameaçado ou como hábito de esconder, e o texto só dá o que ela faz e o motivo que ela diz.

A aparência vale também para o próprio Bentinho. No capítulo LXXXIV, ele sai alegre da casa de Gurgel e entra na loja onde chora o pai de Manduca; no capítulo CXXIV, lê o discurso do cemitério temendo que lhe adivinhem a verdade; no capítulo CXLI, viaja para simular um casamento em ordem e enganar a opinião. O narrador conta essas simulações sem aplicar a elas a régua que aplica às de Capitu.

Os rostos também enganam, em direções diferentes. Os olhos de Capitu são lidos com suspeita desde o capítulo XXV; os de Escobar recebem, no capítulo LXXI, o adjetivo de dulcíssimos (ver os olhos de ressaca). A semelhança de Ezequiel é explicada primeiro por imitação, no capítulo CXVII, por Bentinho e por Escobar, a propósito da semelhança entre Ezequiel e a filha de Escobar, e depois a semelhança com o próprio Escobar é lida como prova; no capítulo CXXXIX, a confusão de Capitu diante da fotografia é, para ele, uma confissão pura, embora o texto diga que de boca ela não confessou nada. O capítulo CXLVI fecha a série com o epitáfio de Ezequiel, elogio puro cujo complemento na Vulgata leva Bentinho a perguntar qual teria sido o dia da criação do rapaz.

O romance coloca o leitor na posição de quem confere uma cópia sem ter o original, imagem que o próprio narrador usa no capítulo II. Duas leituras cabem para quase todas as cenas, e o texto não escolhe: o que fica de certo é o gesto, e o motivo vem de quem conta. A assimetria que sobra é a do narrador, que lê como sinal o que vê em Capitu e como circunstância o que ele próprio faz.

Onde aparece

  • Capítulo XV: Surpreendida por Pádua, Capitu apaga os nomes do muro, risca um perfil que diz ser o retrato do pai e responde por ambos que jogavam o siso, enquanto Bentinho, assustado, não consegue rir.
  • Capítulo XXV: José Dias descreve os olhos de Capitu como de cigana oblíqua e dissimulada no meio de uma lista de queixas contra Pádua, e o texto não confirma nem desmente o que ele diz.
  • Capítulo XXXVIII: Quando Pádua entra, Capitu está de costas sobre a costura e alega susto; Bentinho, que sabia tudo, vê que era mentira e sente inveja da competência dela.
  • Capítulo XLI: Bentinho chama a mãe para confessar o namoro e, antes de dizer qualquer coisa, diz que só gosta dela, querendo desviar as suspeitas de cima de Capitu que viera confirmar.
  • Capítulo LXV: Capitu explica a Bentinho que se mostra alegre diante de Dona Glória e de D. Justina para não confirmar a denúncia de José Dias, e ele a louva por isso.
  • Capítulo LXXVI: Capitu diz que olhar abertamente para o cavaleiro prova que nada há entre os dois, porque haveria dissimulação, e Bentinho aceita, mais pela notícia de que o rapaz vai casar.
  • Capítulo LXXXIV: Bentinho sai alegre da casa de Gurgel e encontra o pai de Manduca chorando o filho morto; sem alma para entrar nem fugir, deixa o corpo decidir e divide a culpa com a coincidência.
  • Capítulo CVI: Capitu responde com Sírio e Marte sem ter ouvido a lição, e só confessa que somava dez libras trocadas por Escobar quando Bentinho vai deixar a sala.
  • Capítulo CXVII: Sancha comenta que as crianças já se parecem, e Bentinho explica que Ezequiel imita os outros; Escobar concorda, e o narrador diz que opinou de cabeça, em matéria que não sabia bem nem mal.
  • Capítulo CXXIII: No velório, Capitu ampara a viúva, chora pouco e enxuga as lágrimas olhando a furto a gente da sala; a comparação com a vaga que quer tragar o nadador é escolha de Bentinho ao escrever.
  • Capítulo CXXIV: Ao ler o discurso no cemitério, Bentinho teme que lhe adivinhem a verdade e forceja por escondê-la, e o auditório vê emoção de amigo, com aprovação e apertos de mão.
  • Capítulo CXXXIX: Capitu e Bentinho olham ao mesmo tempo para a fotografia de Escobar, e ele lê na confusão dela uma confissão, embora ela não confesse nada com palavras.
  • Capítulo CXLI: Capitu e Ezequiel ficam na Suíça, e Bentinho viaja para simular um casamento em ordem e enganar a opinião, enquanto as cartas dela, submissas e saudosas, recebem respostas secas.
  • Capítulo CXLVI: A inscrição do túmulo de Ezequiel é elogio puro, mas o complemento que Bentinho acha na Vulgata o leva a perguntar calado qual teria sido o dia da criação do rapaz.

Passagens

A primeira definição dos olhos de Capitu, dita por quem ganha com ela.

Capitu, apesar daqueles olhos que o diabo lhe deu... Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada.
Capítulos XXIII a XXXIV: Os olhos de cigana e os olhos de ressaca

Bentinho sabe que o susto era mentira e sente inveja.

Alegou susto, e deu à cara um ar meio enfiado; mas eu, que sabia tudo, vi que era mentira e fiquei com inveja.
Capítulos XXXV a XLI: O protonotário e a audiência secreta

Capitu explica por que se mostra alegre.

Com D. Glória e D. Justina mostro-me naturalmente alegre, para que não pareça que a denúncia de José Dias é verdadeira. Se parecesse, elas tratariam de separar-nos mais, e talvez acabassem não me recebendo... Para mim, basta o nosso juramento de que nos havemos de casar um com outro.
Capítulos LIV a LXV: O seminário, Escobar e a ponta de Iago

A palavra com que o capítulo fecha o plano.

Não é? disse ela com ingenuidade.
Capítulos LIV a LXV: O seminário, Escobar e a ponta de Iago

Bentinho divide a culpa entre dois afetos desiguais.

Não culpo ao homem; para ele, a coisa mais importante do momento era o filho. Mas também não me culpem a mim; para mim, a coisa mais importante era Capitu.
Capítulos LXXVIII a XCII: Segredo por segredo e a morte de Manduca

Capitu explica o segredo das libras.

eu não disse para que você não desconfiasse
Capítulos CI a CXII: O casamento, o mar e o filho

Bentinho escolhe a explicação mais cômoda para a semelhança.

Não; é porque Ezequiel imita os gestos dos outros
Capítulos CXIII a CXXIV: A mão de Sancha e o afogamento

O olhar de Capitu sobre o defunto, na palavra do narrador.

os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos; como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã
Capítulos CXIII a CXXIV: A mão de Sancha e o afogamento

O gesto de Capitu depois de enxugar as lágrimas.

Capitu enxugou-as depressa, olhando a furto para a gente que estava na sala
Capítulos CXIII a CXXIV: A mão de Sancha e o afogamento

Bentinho teme ser adivinhado.

temendo que me adivinhassem a verdade, forcejava por escondê-la bem
Capítulos CXIII a CXXIV: A mão de Sancha e o afogamento

A confusão de Capitu, lida por Bentinho.

Desta vez a confusão dela fez-se confissão pura.
Capítulos CXXXVI a CXLVIII: A xícara, a separação e o resto

As viagens, para enganar a opinião.

naturalmente as viagens eram feitas com o intuito de simular isto mesmo, e enganar a opinião
Capítulos CXXXVI a CXLVIII: A xícara, a separação e o resto