O tema na obra
O ciúme de Bentinho nasce de uma frase e não de um fato. No capítulo LXII, no seminário, José Dias diz que Capitu anda alegre e que é uma tontinha, enquanto não aparecer algum peralta da vizinhança que case com ela. Nada que Capitu tenha feito entra na cena: o rapaz conclui que a alegria é prova, inventa janelas e flores trocadas e chama o que sente de puro ciúme, um sentimento cruel e desconhecido. O narrador velho dá ao capítulo o título de Uma ponta de Iago, e é essa escolha dele, não a cena, que põe José Dias no papel de quem sopra a suspeita.
O segundo dente vem no capítulo LXXIII, de um cavaleiro que olha para trás ao passar sob a janela, enquanto Capitu olha para ele. Bentinho não pergunta nada: foge para a sala. No capítulo LXXVI, Capitu responde que olhar abertamente prova que nada há entre os dois e faz da confiança uma condição: à primeira suspeita, tudo estará dissolvido. Bentinho jura que era a primeira e a última.
Depois do casamento, o ciúme perde o objeto e ganha método. No capítulo CVII, Bentinho explica que a culpa tem graduação infinita, que uma distração de Capitu pode ser metade culpada, um terço, um décimo, e que a lembrança de uns olhos basta; no capítulo CXIII, confessa-se ciumento de tudo e de todos. Nesses capítulos a cena não mostra Capitu fazendo mais do que dançar, somar dinheiro ou ficar em casa com dor de cabeça. No capítulo CXVIII, o mesmo homem sente com Sancha um instante de vertigem e pecado e o reduz, em vinte minutos e diante do retrato do amigo, a nada. A régua que ele concede a si não é a que aplica a ela.
A prova que enfim julga ter vem de um rosto, não de um ato. A semelhança de Ezequiel cresce a partir do capítulo CXVI e do capítulo CXXXI, e no capítulo CXXXV o teatro lhe dá o nome do que sente: ele vê Otelo, repara que um lenço bastou e sai convencido de que Capitu devia morrer. No capítulo CXL, decidida a separação, relê o passado inteiro como indício. Ver também o símbolo a xícara de café.
O texto sustenta duas leituras do ciúme: a de um rapaz e depois marido que ama e teme ser esquecido, e a de um narrador que, escrevendo velho, reordena a história para que o ciúme pareça ter tido sempre razão. A favor da segunda, o próprio Bentinho conta, no capítulo LXXVII, que as dores daquela quadra se diluíram em prazer ao serem contadas e que o contar lembra outros aborrecimentos que ele não quer lembrar.
Onde aparece
- Capítulo LXII: Bentinho sente pela primeira vez ciúme ao ouvir de José Dias que Capitu anda alegre e que algum peralta da vizinhança pode casar com ela, e conclui sem fato algum que ela o esqueceu.
- Capítulo LXXII: Bentinho propõe que as peças comecem pelo fim e usa Otelo como exemplo, com três atos dados ao ciúme, a que chama de ação lenta e decrescente.
- Capítulo LXXIII: Um cavaleiro passa sob a janela de Capitu, volta a cabeça para ela e ela para ele, e Bentinho não diz nada a Capitu e chama o episódio de segundo dente de ciúme.
- Capítulo LXXVI: Capitu responde que olhar abertamente para o cavaleiro prova que nada há entre os dois e promete que, à primeira suspeita de Bentinho, tudo estará dissolvido entre eles.
- Capítulo CV: Bentinho se vexa ao ver homens roçarem as mangas pretas nos braços nus de Capitu num baile e deixa de ir ao terceiro, sem proibi-la de nada.
- Capítulo CVII: Bentinho explica que a culpa tem graduação infinita e que uma distração de Capitu pode ser meio culpada, um terço ou um décimo, bastando a lembrança de uns olhos.
- Capítulo CXIII: Bentinho confessa que continuou ciumento de tudo e de todos e, numa noite de ópera a que Capitu faltou, doente, encontra Escobar à porta com um negócio de embargos.
- Capítulo CXVIII: O aperto demorado da mão de Sancha dá a Bentinho um instante de vertigem e pecado, que ele reduz em vinte minutos a nada, diante do retrato de Escobar.
- Capítulo CXXVI: Ao voltar do cemitério, Bentinho conclui que a antiga paixão o ofuscava e que o desejo que supunha em Sancha era vaidade sua, mas volta atrás no caminho de casa.
- Capítulo CXXXII: A semelhança de Ezequiel cresce até Bentinho ver Escobar sentado à mesa, jurar matar mãe e filho e se desarmar ao ver o menino no alto da escada.
- Capítulo CXXXV: No teatro, Bentinho se espanta de que um lenço bastasse ao ciúme do mouro e sai do último ato convencido de que não ele, mas Capitu devia morrer.
- Capítulo CXL: Decidida a separação, Bentinho relê o passado e recolhe como indício cada episódio antigo, até o dia das andorinhas, em que Escobar e Capitu se olharam e desviaram os olhos.
Passagens
Bentinho nomeia o ciúme que o morde pela primeira vez.
Outra ideia, não, - um sentimento cruel e desconhecido, o puro ciúme, leitor das minhas entranhas.
O cavaleiro que olha para Capitu dá o segundo dente.
Tal foi o segundo dente de ciúme que me mordeu.
Capitu faz da confiança a condição do namoro.
à primeira suspeita da minha parte, tudo estaria dissolvido entre nós
No baile, o que Bentinho vê são os homens, não o que Capitu faz.
quando vi que os homens não se fartavam de olhar para eles, de os buscar, quase de os pedir, e que roçavam por eles as mangas pretas, fiquei vexado e aborrecido
A régua do ciúme, dita pelo próprio narrador.
A recordação de uns simples olhos basta para fixar outros que os recordem e se deleitem com a imaginação deles.
Basta um anônimo na esquina.
Um anônimo ou anônima que passe na esquina da rua faz com que metamos Sírio dentro de Marte
Bentinho descreve o estado de quem duvida sem causa dita.
Eu era então um poço delas; coaxavam dentro de mim, como verdadeiras rãs, a ponto de me tirarem o sono algumas vezes
O instante com Sancha, contado contra si.
Foi um instante de vertigem e de pecado.
No caminho de volta do cemitério, Bentinho conclui que a paixão o ofuscava.
Concluí de mim para mim que era a antiga paixão que me ofuscava ainda e me fazia desvairar como sempre
O lenço de Otelo, visto por Bentinho.
um lenço bastou a acender os ciúmes de Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo
Decidida a sentença, o passado vira indício.
Agora lembrava-me tudo o que então me pareceu nada.
O velho diz o que o tempo fez com a dor.
as dores daquela quadra, a tal ponto se espiritualizaram com o tempo, que chegam a diluir-se no prazer