O que é
Duas casas que o livro trata como uma só. A primeira é a de Matacavalos, onde Bentinho se criou com Dona Glória, tio Cosme e prima Justina, com uma chácara que dava para o quintal dos Pádua. A segunda é a que Bento Santiago velho mandou construir no Engenho Novo como cópia da primeira, com a mesma sala de medalhões de César, Augusto, Nero e Massinissa e a mesma chacarinha, para atar as duas pontas da vida. O livro nasce do fracasso dessa cópia.
Onde aparece
No capítulo II, o narrador velho conta que vive só, com um criado, na casa do Engenho Novo, e que os bustos pintados na sala lhe deram a ideia de contar o passado. Queria atar as duas pontas da vida e não consegue, porque falta ele mesmo.
O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência.
A imagem do documento falso serve à casa: a aparência de igualdade engana os estranhos, não quem a construiu.
Uma certidão que me desse vinte anos de idade poderia enganar os estranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim.
No capítulo III, a casa original é também o lugar da primeira cena do livro. Em novembro de 1857, Bentinho se esconde atrás da porta da sala de Matacavalos e ouve José Dias denunciar o namoro com Capitu. A casa que ele tenta recuperar guarda a tarde em que soube o que os outros pensavam dele.
No capítulo XIII, as pernas levam Bentinho da chácara ao quintal vizinho pela porta de comunicação que Dona Glória mandou abrir quando as crianças eram pequenas. A casa de Matacavalos nunca é só uma casa: é um par de casas com uma porta e um muro entre elas.
No capítulo LXIV, Bento relê o relato do sonho que tentou continuar no seminário e admite que a casa do Engenho Novo não ligou as duas pontas da vida, e que o mesmo vale para o sonho.
ligar as duas pontas da vida, o que aliás não alcancei
No capítulo CXVII, ao contar que ele e Escobar tinham uma só casa, Bentinho diz que isso o fazia pensar nas duas casas de Matacavalos, com o seu muro de permeio.
No capítulo CXLIV, ele responde com atraso por que deixou demolir a casa velha. Depois da morte da mãe, fez uma visita de inspeção, e o quintal, com a aroeira, a pitangueira, o poço e a casuarina de tronco torto, não sabia dele.
toda a casa me desconheceu
No capítulo CXLVIII, o livro acaba mandando passar à História dos Subúrbios, um dos assuntos que o capítulo II descartara ao decidir contar o passado.
Vamos à História dos Subúrbios.
O que significa
A casa é o projeto do livro em forma de edifício. Bentinho copia a planta, a pintura dos bustos e a disposição do quintal, e a falha está no morador, que ele mesmo declara no parágrafo em que anuncia o projeto. A cópia engana os estranhos como a certidão falsa e não engana quem a construiu. O texto escrito é por isso a segunda tentativa, depois da casa, a que sobra quando a casa não devolve o que se esperava dela.
O capítulo CXLIV faz o acerto de contas. A casa nova só lembra a velha por comparação e reflexão, não por sentimento, e a velha, visitada depois da morte da mãe, desconhecia o visitante. O original some e a cópia fica, de modo que a única casa que resta é a que ele fez para fingir a outra.
O símbolo mostra o limite da memória como restauração. O texto sustenta duas leituras: a confissão de limite de um homem que sabe que a lembrança não devolve o menino, ou uma ressalva prévia de narrador que quer ser lido com indulgência. No fim, o livro volta ao assunto que descartara no capítulo II, a História dos Subúrbios. Pode ser lido como cansaço de quem desiste de atar as pontas ou como fecho de quem, depois de contar, regressa ao ponto de partida sem ter fechado o círculo.
Relações
- Obra: Dom Casmurro.
- Temas-padrão: Memória e passado.
- Personagens: Bentinho, que a copia, Dona Glória, que manda abrir a porta para o quintal vizinho, e Capitu, cujo quintal fica do outro lado do muro.
- Ver também: a inscrição no muro e Memória e passado.