O que é
A xícara de café em que Bentinho dissolve o veneno, na manhã que se segue ao teatro. Destinada primeiro a ele, é estendida depois a Ezequiel, e é diante do menino que o pai recua. O símbolo reúne a xícara, o que a prepara (a droga comprada, a peça Otelo, o livro sobre Catão, a fotografia de Escobar) e o que sai dela: o "não sou teu pai" e a solução da separação.
Onde aparece
No capítulo CXI, quando Ezequiel nasceu, Bentinho conta que comprou veneno e preparou três bolas de carne para calar os cães que latiam de noite, e que um deles, ao vê-lo, veio devagar abanando a cauda e o fez guardar as bolas no bolso. A cena prepara a da xícara: um homem que prepara o veneno e é detido por uma criatura que o olha com confiança.
eu cuido que ele não me quis atribuir perfídia ao gesto, e entregou-se-me
No capítulo CXXXIII, certa ideia que negrejava nele abre as asas e entra a bater de um lado para outro.
Certa ideia, que negrejava em mim, abriu as asas e entrou a batê-las de um lado para outro, como fazem as ideias que querem sair
No capítulo CXXXIV, ele compra uma substância que não nomeia, e a morte no bolso lhe dá a alegria de uma sorte grande.
Quando me achei com a morte no bolso senti tamanha alegria como se acabasse de tirar a sorte grande
No capítulo CXXXV, à noite, vai ao teatro e vê Otelo, que nunca vira nem lera. Espanta-se de que um lenço bastasse, e do último ato sai com a conclusão de que não ele, mas Capitu devia morrer.
um lenço bastou a acender os ciúmes de Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo
O último ato mostrou-me que não eu, mas Capitu devia morrer
No capítulo CXXXVI, na manhã seguinte, espera o café lendo um tomo de Plutarco sobre Catão, despeja a droga na xícara com a mão trêmula e, ao mexer o café, tem a memória em Desdêmona inocente.
Ainda assim tive ânimo de despejar a substância na xícara
A fotografia de Escobar lhe devolve o ânimo.
Mas a fotografia de Escobar deu-me o ânimo que me ia faltando
No fim do capítulo CXXXVI, Ezequiel entra gritando "Papai, papai!", e Bentinho recua até a estante. No capítulo CXXXVII, pergunta se o menino já tomou café, insiste que beba mais meia xícara e lhe estende a sua, trêmulo. Algo o faz recuar.
o meu segundo impulso foi criminoso
Não, não, eu não sou teu pai!
No capítulo CXXXIX, Bentinho e Capitu olham ao mesmo tempo para a fotografia de Escobar, e ele lê na confusão dela uma confissão, que ela não faz com palavras.
Desta vez a confusão dela fez-se confissão pura.
No capítulo CXL, sozinho, ele resolve não beber o café: a morte era uma solução, e ele achou outra, que deixa aberta a reparação.
O que significa
A xícara concentra num objeto a passagem de Bentinho da morte própria à acusação. Foi preparada por um espetáculo (Otelo, cujo último ato lhe ensina que quem deve morrer é Capitu), por um livro (o tomo de Plutarco, para fabricar a coragem de Catão) e por uma fotografia (Escobar), de modo que o gesto trágico chega já vestido de leitura. A cena mostra um homem que decide, adia, recua. O que o narrador escreve por cima é o rótulo: ele mesmo chama de criminoso o segundo impulso antes de contá-lo, e não explica o recuo.
O texto deixa aberto se o que o deteve foi o amor pelo menino, a própria dúvida ou outra coisa que ele não nomeia. O "não sou teu pai" é dito no meio de um beijo que ele não consegue conter, e a cena não diz em que se apoia além da semelhança que o narrador vê. Capitu, no capítulo seguinte, pede várias vezes que ele diga tudo e ouve que há coisas que não se dizem.
A xícara é o ponto em que o ciúme deixa de ter só o próprio homem como destinatário. Duas leituras cabem: a de um homem que, no limite, recua porque ama o filho, e a de um narrador que se mostra capaz do pior para pedir ao leitor que entenda a sentença que vem a seguir, a separação, apresentada como solução menor e com reparação aberta. Em ambas, o livro não afirma a paternidade de ninguém.