O tema na obra
Bento Santiago escreve para recuperar o menino que foi, e o livro mostra, desde o capítulo II, que o projeto falha. Ele mandou construir no Engenho Novo a cópia da casa de Matacavalos para atar as duas pontas da vida e restaurar na velhice a adolescência, e confessa no mesmo parágrafo que falta ele mesmo: uma certidão que lhe desse vinte anos enganaria os estranhos, não a ele (ver a casa de Matacavalos). O capítulo LXIV repete a confissão e a estende ao sonho: um dos ofícios do homem é continuar à noite velha o sonho truncado na noite moça, e não dá certo. O capítulo CXLIV fecha a série dizendo que a casa velha, visitada depois da morte da mãe, já não o conhecia.
A memória que o livro usa é seletiva, e o narrador o declara. Pede ao leitor, no capítulo LIX, que preencha as lacunas do que ele conta, já que ele prefere os livros omissos aos confusos, porque nos omissos se pode meter tudo; mente por cortesia no capítulo LIV, fingindo lembrar um panegírico; avisa, no capítulo LX, que as coisas só têm cor para quem as conheceu e padeceu no tempo; e marca, no capítulo LXXX, com presumo e suponho a troca de promessa que atribui à mãe. O capítulo III também reconstrói falas de décadas antes e admite não ter ouvido o que se disse depois do choro. O esquecimento tem ainda a sua cena de prova: no capítulo CX, Capitu diz não se lembrar do pregão das cocadas, e Bentinho responde com o papelzinho que guardou; no capítulo CXIV, conta que, na noite em que procurou a toada nos papéis velhos, já não a lembrava.
O uso mais pesado da memória aparece no capítulo CXL. Depois de decidir que foi traído, Bentinho relê o passado e recolhe como indício o que então lhe parecera nada, o dia das andorinhas, a palavra dela sonhando. O fato antigo é o mesmo; mudou quem lê. É a operação do capítulo CXLVIII, em que a menina de Matacavalos e a mulher da praia da Glória são uma só, como a fruta dentro da casca.
O livro mostra duas memórias: a que tenta restaurar e falha (as casas, os sonhos) e a que reinterpreta e consegue (o passado como prova). A primeira é confessada com leveza; a segunda, o narrador não a nomeia como método. Pode-se ler a diferença como honestidade parcial de quem sabe o que não alcança, ou como a assimetria que sustenta o romance: o passado que consolaria fica fora de alcance, e o que acusa vem sempre à mão.
Onde aparece
- Capítulo II: Bentinho velho explica que mandou construir no Engenho Novo uma cópia da casa de Matacavalos para atar as duas pontas da vida, e que o projeto falha porque falta ele mesmo.
- Capítulo III: Em novembro de 1857, atrás da porta da sala em Matacavalos, Bentinho ouve José Dias denunciar o namoro; o narrador reconstrói falas de décadas antes e admite não ter ouvido o que se disse depois.
- Capítulo LIV: Bento mente a um antigo colega, dizendo que conservou o Panegírico de Santa Mônica, recebe no dia seguinte um exemplar de vinte e seis anos e finge reconhecer trechos.
- Capítulo LIX: Bento se diz de memória fraca, como quem viveu em hospedarias sem guardar nomes, e prefere os livros omissos aos confusos, porque nos omissos o leitor pode preencher as lacunas.
- Capítulo LX: Bento lembra que o pregão das cocadas, que lhe traz saudade, nada diz ao músico que lê a partitura, e conclui que as coisas só têm cor para quem as conheceu e padeceu no tempo.
- Capítulo LXIV: Relendo o sonho do seminário, Bento admite que a casa do Engenho Novo não ligou as duas pontas da vida e diz que é ofício do homem continuar à noite velha o sonho da noite moça.
- Capítulo LXXVII: Bentinho velho confessa que as dores da quadra do amor adolescente se espiritualizaram a ponto de se diluírem no prazer, e que contá-las lhe lembra outros aborrecimentos que não quer lembrar.
- Capítulo LXXX: Para explicar a mãe, o narrador marca com presumo e suponho a troca de promessa que ela faria, e conta a esperança secreta dela como coisa que descobriu mais tarde.
- Capítulo CX: Capitu diz não se lembrar do pregão das cocadas de Matacavalos, e Bentinho responde com o papelzinho que guardou desde S. Paulo; ela teclou as dezesseis notas e passa a cantá-lo ao filho.
- Capítulo CXIV: Bentinho explica que mandou escrever a toada do pregão porque ele e Capitu tinham jurado não esquecê-la, e que, na noite em que a procurou nos papéis velhos, já não a lembrava.
- Capítulo CXL: Decidida a separação, Bentinho relê o passado e recolhe como indício a palavra de Capitu sonhando e o olhar na tarde das andorinhas, que então lhe pareceram nada.
- Capítulo CXLIV: Na visita de inspeção depois da morte da mãe, Bentinho vê que a casa de Matacavalos, com a aroeira, a pitangueira e o poço, já não o reconhece, e deixa que a demolam.
- Capítulo CXLVIII: Bentinho diz que o resto do livro é saber se a Capitu da praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos, e responde com a imagem da fruta dentro da casca.
Passagens
O velho diz o que queria fazer com a casa.
O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência.
E o que a cópia não engana.
Uma certidão que me desse vinte anos de idade poderia enganar os estranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim.
Bento confessa a derrota do projeto.
ligar as duas pontas da vida, o que aliás não alcancei
Bento justifica a mentira pequena que conta a um colega.
era cortesia, era quase caridade recordar alguma lauda
A regra de leitura que o narrador se dá.
Nada se emenda bem nos livros confusos, mas tudo se pode meter nos livros omissos.
O que a memória não transmite a quem não viveu.
é preciso que a gente os tenha conhecido e padecido no tempo, sem o que tudo é calado e incolor
Bentinho diz o que o tempo fez com a dor.
as dores daquela quadra, a tal ponto se espiritualizaram com o tempo, que chegam a diluir-se no prazer
Decidida a sentença, o passado vira indício.
Agora lembrava-me tudo o que então me pareceu nada.
A casa velha não o reconhece.
toda a casa me desconheceu
A imagem com que o livro fecha a pergunta.
uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca