O que é
Os nomes de Bentinho e Capitu fundidos numa palavra só, que Capitu abre a prego no muro do quintal e que Bentinho lê antes de ela raspar. É o primeiro escrito de Capitu no livro, e o narrador o copia em maiúsculas, como quem copia um achado. O símbolo reúne o que o muro guarda e o que dele ecoa: a declaração que ela fez sozinha, a pressa com que a apaga, e as outras escritas dela, que mudam de matéria e de caminho.
Onde aparece
No capítulo XIII, Bentinho vai ao quintal vizinho e encontra Capitu riscando o muro com um prego. Ela se encosta nele ao vê-lo, como quem esconde algo, e, quando ele repara nos riscos, corre e apaga o escrito. O gesto só acende nele o desejo de ler.
No capítulo XIV, ele dá um pulo e lê, antes que ela raspe, os dois nomes abertos a prego, fundidos num só. Não falam: as mãos se estendem e se pegam, e o narrador diz que o muro falou por eles.
BENTOCAPITOLINA
Em seguida o velho corta a cena e avisa que corta.
Confissão de crianças, tu valias bem duas ou três páginas, mas quero ser poupado.
No capítulo XV, quando Pádua aparece à porta dos fundos, Capitu apaga os nomes, risca um perfil que diz ser o retrato do pai e responde por ambos que jogavam o siso.
Há coisas que só se aprendem tarde; é mister nascer com elas para fazê-las cedo.
No capítulo XXX, na procissão do Santíssimo, a imagem de Capitu o acompanha: Bentinho a imagina rindo, escrevendo no muro e dizendo o nome dele, e as tochas acesas lhe parecem um lustre nupcial.
No capítulo XXXIV, depois do beijo, o narrador conta entre os abalos da adolescência a vista dos nomes abertos por ela no muro e diz que nada valeu a sensação do beijo. Os nomes, como as mãos, podiam ser mentira ou ilusão, e, sendo verdade, eram só os ossos da verdade.
No capítulo XLIII, sentados na borda do poço, Capitu risca perfis no chão com uma taquara. Bentinho, lembrando os nomes abertos por ela no muro, quer fazer o mesmo no chão e pede a taquara, e ela não o atende.
No capítulo XLIV, o chão recebe uma palavra: Capitu escreve "mentiroso" depois de ouvir que ele viria do seminário, contra a ordem da mãe, se ela estivesse para morrer de saudades. Responde ao resto da conversa prometendo que ele batizará o primeiro filho dela.
prometo que há de batizar o meu primeiro filho
No capítulo XCVIII, a escrita passa pelas mãos de outros: Escobar serve de terceiro na troca de cartas entre Bentinho e Capitu, que preferia José Dias como portador, e ela entrega vexada a primeira carta.
Ele foi o terceiro na troca das cartas entre mim e Capitu.
No capítulo CXLI, de longe, Capitu escreve cartas submissas, sem ódio, às vezes afetuosas e no fim saudosas, e Bentinho as responde com brevidade e sequidão.
O que significa
A inscrição é o documento mais simples do livro: dois nomes juntos, escritos por quem os sentiu e mostrados sem palavra. Os dois nomes foram gravados antes de Bentinho chegar, de modo que são uma declaração que Capitu fez sozinha e começou a apagar ao ver o rapaz, e a cena deixa em aberto se foi por pudor, por medo da mãe ou porque o segredo escondido atrai quem o procura. O narrador velho trata o achado como cena que valia páginas e a poupa, e é ele quem dá ao leitor só o gesto das mãos.
O muro ecoa depois em duas direções. O rapaz o relê entre as descobertas da adolescência e o põe abaixo do beijo, que é a carne e o sangue da coisa (capítulo XXXIV). E a escrita de Capitu muda de matéria: do nome dos dois no muro passa à palavra "mentiroso" no chão, que não dura, e dali às cartas, que chegam por intermediário (capítulo XCVIII) ou de longe e sem calor na resposta (capítulo CXLI). O muro de permeio das casas de Matacavalos volta ainda na casa dividida com Escobar (capítulo CXVII).
Tudo o que Capitu escreve chega ao livro pela mão de Bentinho, e o que permanece é o texto dele. Pode ser lido como simples consequência de o romance ser narrado em primeira pessoa, ou como figura do tema: quem escreve guarda, e quem é escrito fica à mercê de como o outro o copia. Nas duas leituras, as únicas palavras escritas por ela que o livro reproduz são os nomes do muro, que o rapaz leu a tempo, e a palavra mentiroso, no chão.
Relações
- Obra: Dom Casmurro.
- Temas-padrão: Linguagem e narração e Memória e passado.
- Personagens: Capitu, que escreve, Bentinho, que lê e depois narra, e Escobar, terceiro na troca das cartas.
- Ver também: a casa de Matacavalos e Linguagem e narração.