Clavis Libri

Tema em Dom Casmurro

Linguagem e narração

A palavra e o contar: linguagem, retórica, narrativa, quem conta a história e com que interesse, o silêncio, o livro dentro do livro.

O tema na obra

Quase tudo o que o leitor sabe de Capitu chega pela linguagem de Bento Santiago, e o romance torna essa condição visível. Já no capítulo I, ele fixa o sentido em que quer ser lido: casmurro é o homem calado e metido consigo, não o rabugento dos dicionários. No capítulo XIV, avisa que corta uma cena que valia páginas; no capítulo LIX, declara-se um narrador omisso, não confuso, e entrega ao leitor a tarefa de preencher; no capítulo LXVIII, promete confessar o que importar à sua história; no capítulo XCVII, ao ver que o papel acaba, passa a contar em resumo e sacrifica a análise de uma idade inteira. Cada uma dessas declarações é honesta e cada uma é uma escolha.

A linguagem é também a fábrica das duas imagens dos olhos (ver os olhos de ressaca). No capítulo XXXII, o narrador procura a comparação exata e poética e chega à ressaca; no capítulo XXXVI, empresta a uma cena a fraseologia de José Dias; no capítulo CXLVIII, funde as duas. O título dos capítulos é outro instrumento: o capítulo LXII se chama Uma ponta de Iago, nome de peça, e é o velho quem o dá a uma cena que o rapaz viveu antes de ver Otelo, que só vê no capítulo CXXXV.

O narrador conversa com o leitor para dirigir a leitura. Pede, no capítulo XLV, que o leitor abane a cabeça e largue o livro, mas jura que Capitu falou assim mesmo do primeiro filho; prepara, no capítulo LVII, a leitora castíssima para um capítulo que será menos cru do que ela espera; e pede, no capítulo CXIX e no capítulo CXXIX, a uma leitora e a D. Sancha que não fechem ou não leiam o resto. No capítulo LXXII, Bentinho propõe que as peças comecem pelo fim, e o romance faz o que ele propõe: o leitor sabe desde cedo, pelos avisos, que haverá um desfecho e lê cada cena à luz dele. O capítulo CXXIX, ao tratar o que vem como indelével, dá de antemão como certo o que ainda vai contar.

Essa linguagem tem dupla função. Pode ser lida como a voz de um homem que conhece as suas limitações e as confessa, ou como a técnica de quem prepara o julgamento do leitor antes de apresentar o caso. O texto sustenta as duas: as confissões de omissão são verdadeiras, e é por serem verdadeiras que dão autoridade ao resto.

Onde aparece

  • Capítulo I: Bentinho velho conta que ganhou a alcunha de Dom Casmurro de um rapaz do trem e fixa o sentido em que quer ser lido: o de homem calado e metido consigo, não o dos dicionários.
  • Capítulo XIV: Ao transcrever os dois nomes fundidos no muro, o narrador avisa que a cena valia duas ou três páginas, mas que quer ser poupado, e entrega ao leitor só o gesto das mãos.
  • Capítulo XXXII: Para dizer o que foram os olhos de Capitu, o narrador procura uma comparação que não quebre a dignidade do estilo e chega à imagem da ressaca, que arrasta para dentro.
  • Capítulo XXXVI: Bentinho oferece duas maneiras de nomear o olhar de Capitu depois do beijo, a furto e a medo ou oblíqua e dissimulada, e empresta à cena a fraseologia de José Dias.
  • Capítulo XLV: O narrador pede ao leitor que abane a cabeça e largue o livro, mas jura que Capitu falou assim mesmo do primeiro filho, como se fosse a primeira boneca.
  • Capítulo LVII: Bento promete à leitora castíssima que o capítulo seguinte será menos cru do que ela espera e usa a pausa para amaciar a leitura de antemão.
  • Capítulo LIX: Bento declara preferir os livros omissos aos confusos, porque nos omissos se pode meter tudo, e entrega ao leitor a tarefa de preencher as lacunas do que ele conta.
  • Capítulo LXII: O narrador velho dá ao capítulo do primeiro ciúme o título Uma ponta de Iago e põe José Dias no papel de quem sopra a suspeita, embora a cena não mostre essa intenção.
  • Capítulo LXVIII: Citando Montaigne, Bentinho diz que só se escreve a própria essência contando-a toda, o bem e o mal, e promete confessar o que importar à sua história.
  • Capítulo LXXII: Bentinho propõe como reforma do teatro que as peças comecem pelo fim, com Otelo morrendo no primeiro ato, para que o espectador vá dormir com impressão de ternura e amor.
  • Capítulo XCVII: Ao perceber que o livro devia estar na metade e já vai perto do fim do papel, o narrador passa a contar em resumo e sacrifica a análise do que sentia aos dezessete anos.
  • Capítulo CXIX: Dirigindo-se à leitora que beira um abismo, o narrador pede que não feche o livro às pressas e promete mudar de rumo.
  • Capítulo CXXIX: O narrador pede a D. Sancha que não leia o resto do livro, melhor seria queimá-lo, e anuncia que o que agora a alcançar será indelével, tratando o que vem como fato.
  • Capítulo CXLVIII: O narrador funde numa só imagem a ressaca que ele próprio achou e a cigana oblíqua e dissimulada de José Dias, e então formula a pergunta que chama de resto do livro.

Passagens

O velho fixa o sentido em que quer ser lido.

Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo.
Capítulos I a XII: A denúncia, a ópera e a promessa

O narrador corta a cena do muro e avisa que corta.

Confissão de crianças, tu valias bem duas ou três páginas, mas quero ser poupado.
Capítulos XIII a XXII: Capitu, o muro e o plano

A imagem de ressaca, na cena em que nasce.

Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca.
Capítulos XXIII a XXXIV: Os olhos de cigana e os olhos de ressaca

O narrador empresta ao olhar de Capitu a fraseologia do agregado.

Não me olhou de rosto, mas a furto e a medo, ou, se preferes a fraseologia do agregado, oblíqua e dissimulada.
Capítulos XXXV a XLI: O protonotário e a audiência secreta

O narrador prepara a leitura antes da cena.

ao ler o que vais ler, é provável que o aches menos cru do que esperavas
Capítulos LIV a LXV: O seminário, Escobar e a ponta de Iago

A regra de leitura que Bento se dá.

Nada se emenda bem nos livros confusos, mas tudo se pode meter nos livros omissos.
Capítulos LIV a LXV: O seminário, Escobar e a ponta de Iago

Bento diz como pretende escrever a própria essência.

há só um modo de escrever a própria essência, é contá-la toda, o bem e o mal
Capítulos LXVI a LXXVII: A visita de Escobar e o cavaleiro

Bentinho propõe começar as peças pelo fim.

eu proporia, como ensaio, que as peças começassem pelo fim
Capítulos LXVI a LXXVII: A visita de Escobar e o cavaleiro

O narrador abre mão da análise para correr ao desfecho.

Agora não há mais que levá-la a grandes pernadas, capítulo sobre capítulo, pouca emenda, pouca reflexão, tudo em resumo.
Capítulos XCIII a C: O substituto e o bacharel

O aviso a D. Sancha trata o que vem como fato.

o que agora a alcançar, esse é indelével
Capítulos CXXV a CXXXV: A semelhança e Otelo

As duas imagens, juntas, na última página.

Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca, nem os de cigana oblíqua e dissimulada.
Capítulos CXXXVI a CXLVIII: A xícara, a separação e o resto