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Personagem

Euríalo

Quem é

Euríalo é um jovem guerreiro troiano, o mais belo do exército, quase um menino, e o companheiro de Niso. Filho de um pai afeito às guerras, seguiu Enéias desde Troia, e a mãe dele foi, entre tantas mães, a única que ousou segui-lo, sem querer ficar na cidade de Acestes. Quer provar a coragem, e a prova que escolhe é a missão de Niso. O papel dele no poema é ser a vítima que o leitor lembra pela beleza: o rapaz cuja morte faz do cerco troiano uma cena de luto, e não só de guerra.

Trajetória

No Livro V Euríalo vence a corrida a pé por obra do amigo: Niso, que ia na frente, cai e atravessa-se no caminho de Sálio, e Euríalo dispara na areia e fica com o primeiro lugar. Sálio reclama de dolo, mas a plateia gosta do rapaz, e Enéias mantém a vitória.

Non tamen Euryali, non ille oblitus amorum; / Nam sese opposuit Salio per lubrica surgens. / Ille autem spissa jacuit revolutus arena. / Emicat Euryalus, et munere victor amici / Prima tenet, mas ele não esqueceu Euríalo, não esqueceu o seu amor; pois, levantando-se no chão escorregadio, pôs-se na frente de Sálio. Este rolou e jazeu na areia espessa. Euríalo dispara, vencedor pelo favor do amigo, e fica com o primeiro lugar.
Livro V: Os jogos

No Livro IX ele ouve o plano de Niso como dúvida sobre a sua coragem e responde que não aceita ficar: o pai o criou entre os terrores de Troia, e ele já provou a lealdade seguindo Enéias até o último lance do destino. A honra que aceita pagar com a vida é a mesma que Niso quer.

Mene igitur socium summis adjungere rebus, / Nise, fugis? solum te in tanta pericula mittam? / Non ita me genitor, bellis assuetus Opheltes, / Argolicum terrorem inter Trojaeque labores / Sublatum erudiit; nec tecum talia gessi, / Magnanimum Aenean et fata extrema secutus. / Est hic, est animus lucis contemptor, et istum / Qui vita bene credat emi, quo tendis, honorem., Então foges de me ter como companheiro nas grandes empresas, Niso? Hei de mandar-te sozinho a tamanhos perigos? Não foi assim que meu pai Ofeltes, afeito às guerras, me criou entre o terror dos argivos e os trabalhos de Troia; nem eu me portei assim contigo, quando segui o magnânimo Enéias até o último lance do destino. Há aqui um ânimo que despreza a luz do dia e que julga bem comprada com a vida essa honra a que te diriges.
Livro IX: O cerco

Diante dos chefes, põe acima dos presentes de Ascânio um único pedido: que cuidem da mãe, a quem ele deixa sem despedida, porque não suportaria as lágrimas dela.

Unum oro: genitrix Priami de gente vetusta / Est mihi, quam miseram tenuit non Ilia tellus / Mecum excedentem, non moenia regis Acestae; / Hanc ego nunc ignaram hujus quodcumque pericli est, / Inque salutatam linquo; nox et tua testis / Dextera, quod nequeam lacrymas perferre parentis. / At tu, oro, solare inopem, et succurre relictae; / Hanc sine me spem ferre tui, audentior ibo / In casus omnes, Só uma coisa peço: tenho uma mãe, de velha linhagem de Príamo, a quem nem a terra de Ílio nem as muralhas do rei Acestes retiveram, pobre, quando saiu comigo. Eu a deixo agora sem saber de qualquer perigo que este seja, e sem despedida; a noite e a tua destra são testemunhas de que não poderia suportar as lágrimas de minha mãe. Mas tu, peço, consola a desamparada e socorre a abandonada; deixa-me levar comigo essa esperança em ti, e irei mais ousado a todos os perigos.
Livro IX: O cerco

No acampamento rútulo, mata também, em fúria. Quando Niso manda parar, Euríalo apanha as faléras de Ramnetes e o elmo de Messapo, e o veste. O elmo brilha no escuro, e a cavalaria de Volscente o vê. Embaraçado pela mata e pela presa, é preso. O narrador o chama de esquecido do perigo, ocupado com o espólio. Niso volta para salvá-lo e chega tarde.

Cum procul hos laevo flectentes limite cernunt, / Et galea Euryalum sublustri noctis in umbra / Prodidit immemorem radiisque adversa refulsit., quando de longe os veem virar por uma trilha à esquerda, e o elmo, na sombra clara da noite, traiu Euríalo, que não se lembrava dele, e refulgiu contra os raios de luz.
Livro IX: O cerco

Volscente o mata, e o poema o compara a uma flor cortada pelo arado e a papoulas carregadas de chuva.

Volvitur Euryalus leto, pulchrosque per artus / It cruor, inque humeros cervix collapsa recumbit: / Purpureus veluti cum flos succisus aratro / Languescit moriens; lassove papavera collo / Demisere caput, pluvia cum forte gravantur., Euríalo rola na morte, o sangue corre pelos belos membros, a nuca tomba e pende sobre os ombros: como uma flor purpúrea, cortada pelo arado, que murcha ao morrer; ou como papoulas que baixaram a cabeça, de pescoço cansado, quando a chuva as carrega.
Livro IX: O cerco

As cabeças dos dois vão fincadas em lanças diante do arraial rútulo, e a mãe, avisada pela Fama, larga a roca e corre às muralhas para lamentá-lo diante dos dois exércitos, com um lamento que quebra o ânimo dos troianos.

Hunc ego te, Euryale, aspicio? tune ille senectae / Sera meae requies? potuisti linquere solam, / Crudelis? nec te, sub tanta pericula missum, / Affari extremum miserae data copia matri? / Heu! terra ignota, canibus date praeda Latinis / Alitibusque, jaces! nec te, tua funera, mater, Este eu te vejo, Euríalo? Tu, aquele repouso tardio da minha velhice? Pudeste deixar-me só, cruel? Nem foi dada à pobre mãe a chance de te falar uma última vez, quando eras enviado a tamanho perigo? Ai! Em terra ignota, entregue como presa aos cães latinos e às aves, jazes!
Livro IX: O cerco

Temas que encarna

Euríalo encarna Guerra, pelo custo humano que ela cobra dos mais novos, e Paixão, porque o desejo de louvor e o espólio que o derrubam são paixões de guerreiro, não erros de covardia. Ele também toca em Lar, exílio e retorno: a mãe que o seguiu desde Troia e fica sem túmulo para chorar é a face doméstica do exílio troiano.

A mesma passagem que o celebra pela beleza mostra o erro: o elmo tomado é o que o entrega. Virgílio não esconde nenhum dos dois lados, e o poema compensa o enterro negado com um monumento de versos, no lugar do sepulcro.

Relações

  • Niso: o amigo que o protege e o acompanha até a morte.
  • Ascânio: o jovem chefe que lhe promete cuidar da mãe.
  • Enéias: o chefe que ele segue desde Troia e que não está presente quando morre.
  • Turno: o chefe rútulo cujo acampamento ele ajuda a atravessar.