Clavis Libri

Tema em Eneida

Lar, exílio e retorno

O lugar a que se pertence: lar, pátria, exílio, viagem, peregrinação, o retorno ao lar que os gregos chamavam de nóstos.

O tema na obra

Enéias é, antes de tudo, um homem sem casa. A Eneida o apresenta como "fugitivo pelo destino", e a história inteira é a procura de um lugar para os Penates, os deuses do lar que ele salvou de Troia. No Livro I, náufrago na costa da Líbia, ele inveja os que morreram diante dos pais sob as muralhas da pátria e, ao ver Cartago em obras, inveja quem já tem muralhas de pé.

A fuga do Livro II faz do lar um gesto: o pai nos ombros, o filho pela mão, os Penates nas mãos do pai e a mulher perdida no caminho. A sombra de Creúsa anuncia um longo exílio e a Hespéria, onde ele terá reino e esposa real. O Livro III mostra que o retorno não se lê com facilidade. O oráculo de Apolo manda buscar "a antiga mãe", a terra que primeiro gerou os troianos, e por isso Enéias funda uma cidade em Creta antes de os Penates corrigirem: a terra de origem é a Itália, de onde saiu Dárdano. Em Butroto, Heleno e Andrômaca criaram uma pequena Troia, e Enéias, ao se despedir, os chama de felizes, porque a sorte deles já se cumpriu e a dele o chama de destino em destino.

O cansaço da errância pesa mais no Livro V. As mulheres troianas, olhando o mar de uma praia da Sicília, choram o tanto de mar que ainda falta e, incitadas por Íris, mandada por Juno e disfarçada de Béroe, queimam as naus: querem ficar onde há terra à mão. Enéias acaba deixando em Acesta os cansados. A chegada vem no Livro VII, quando os troianos, sem comida bastante, mordem os bolos que serviam de mesa, Ascânio brinca que agora comem até as mesas e Enéias reconhece a profecia, saúda a terra e os Penates e diz: aqui está a casa, esta é a pátria.

O Livro VIII completa o ciclo: o deus do Tibre promete casa certa e Penates certos, e Evandro, também expulso da pátria, hospeda Enéias numa choça onde o futuro Capitólio ainda é mato. O lar aparece o tempo todo medido pela hospitalidade: Cartago acolhe, a Trácia viola o hóspede, Butroto lembra Troia, os Ciclopes devoram e Evandro oferece pobreza.

O retorno que o poema promete não é a volta a Troia, é a volta a uma origem anterior, e por isso Enéias chega à Itália como quem volta e como quem conquista. A casa que ele chama de pátria é também a de Latino e de Turno, e o poema não esquece isso: o lar do exilado nasce sobre o lar de outros. Os Penates, que passam das mãos de Anquises ao altar do Lácio, são o fio que liga Troia ao poema que vem depois dela.

Onde aparece

  • Livro I: Enéias, náufrago na costa da Líbia, inveja os que morreram diante dos pais sob as muralhas de Troia e depois inveja os cartagineses cujas muralhas já se levantam.
  • Livro II: Enéias sai de Troia em chamas com o pai nos ombros, o filho pela mão e os Penates, e perde Creúsa no caminho.
  • Livro III: Enéias parte de Troia sem saber para onde, abandona a Trácia e Creta por sinais divinos e encontra em Butroto uma pequena Troia criada por Heleno e Andrômaca.
  • Livro V: As troianas, cansadas do mar, queimam as naus na praia da Sicília, e Enéias deixa em Acesta os que não querem seguir.
  • Livro VII: Os troianos mordem os bolos que serviam de mesa, e Enéias saúda a terra e os Penates dizendo que ali está a casa e a pátria.
  • Livro VIII: O deus do Tibre promete a Enéias casa certa e Penates certos, e Evandro, também exilado, o acolhe numa choça pobre, depois de lhe mostrar o futuro Capitólio ainda coberto de mato.

Passagens

Enéias inveja nos cartagineses o que lhe falta.

O fortunati, quorum jam moenia surgunt!, felizes aqueles cujas muralhas já se levantam!
Livro I: A tempestade e Cartago

A sombra de Creúsa anuncia o exílio e a Hespéria.

Quid tantum insano juvat indulgere labori, / O dulcis conjux? non haec sine numine divum / Eveniunt; nec te comitem asportare Creusam / Fas, aut ille sinit superi regnator Olympi. / Longa tibi exilia, et vastum maris aequor arandum., por que te agrada tanto entregar-te a esta dor insana, doce esposo? Isto não acontece sem a vontade dos deuses; não te é lícito levar Creúsa por companheira, nem o permite o senhor do alto Olimpo. Longos exílios te esperam, e um vasto mar a arar.
Livro II: A queda de Troia

Apolo manda buscar a antiga mãe sem nomear a terra.

Dardanidae duri, quae vos a stirpe parentum / Prima tulit tellus, eadem vos ubere laeto / Accipiet reduces: antiquam exquirite matrem, duros dardânidas, a terra que primeiro vos gerou da estirpe dos pais, essa mesma vos receberá de volta em seu seio fértil: buscai a antiga mãe.
Livro III: A errância

Íris, disfarçada de Béroe, dá às troianas cansadas o que elas mais querem, uma cidade com nome de Troia.

Nullane jam Trojae dicentur moenia? nusquam / Hectoreos amnes, Xanthum et Simoenta, videbo? / Quin agite, et mecum infaustas exurite puppes. / Nam mihi Cassandrae per somnum vatis imago / Ardentes dare visa faces: Hic quaerite Trojam, / Hic domus est, inquit, vobis., nunca mais se dirá que há muralhas de Troia? Nunca mais verei os rios de Heitor, o Xanto e o Simoente? Vamos, queimai comigo as naus infaustas. Pois em sonho me pareceu que a imagem da profetisa Cassandra me dava tochas acesas: aqui buscai Troia, aqui é a vossa casa, disse ela.
Livro V: Os jogos

Enéias chama de casa e de pátria uma praia desconhecida.

Salve, fatis mihi debita tellus; / Vosque, ait, o fidi Trojae, salvete, Penates. / Hic domus, haec patria est, salve, terra devida a mim pelos fados; e vós, disse ele, ó fiéis Penates de Troia, salve! Aqui está a casa, esta é a pátria.
Livro VII: A chegada ao Lácio

O deus do Tibre dá a Enéias a promessa de um lugar certo.

Hic tibi certa domus, certi, ne absiste, Penates; / Neu belli terrere minis: tumor omnis et irae / Concessere deum, aqui tens casa certa e Penates certos, não desistas; não te assustes com as ameaças da guerra: todo o inchaço da ira dos deuses cedeu.
Livro VIII: O escudo