Quem é
Niso é um guerreiro troiano, guarda de uma das portas do acampamento, e o amigo inseparável de Euríalo, o mais novo e mais belo dos troianos. É mais velho e mais cauteloso do que o companheiro, e é dele a ideia que leva os dois à morte: atravessar à noite o acampamento inimigo para chamar Enéias de volta. Quer a fama do feito, e quer, mais do que isso, que Euríalo viva. O papel dele no poema é ser a metade protetora de um par, o amor que se mede pelo que é capaz de oferecer em troca da vida do outro.
Trajetória
No Livro V, nos jogos em honra de Anquises, Niso corre na frente na corrida a pé, escorrega no sangue dos bois sacrificados e, caído, se levanta e põe-se no caminho de Sálio, que tropeça, para que Euríalo ganhe. O narrador diz o motivo: ele não esqueceu Euríalo nem o amor que lhe tem. Sálio protesta e chama de engano o que Niso fez, mas a plateia gosta do rapaz, e Enéias mantém o resultado e, rindo, dá a Niso um escudo, quando ele reclama o prêmio que perdeu.
Non tamen Euryali, non ille oblitus amorum; / Nam sese opposuit Salio per lubrica surgens. / Ille autem spissa jacuit revolutus arena. / Emicat Euryalus, et munere victor amici / Prima tenet, mas ele não esqueceu Euríalo, não esqueceu o seu amor; pois, levantando-se no chão escorregadio, pôs-se na frente de Sálio. Este rolou e jazeu na areia espessa. Euríalo dispara, vencedor pelo favor do amigo, e fica com o primeiro lugar.
Esse gesto antecipa o Livro IX: Niso sacrifica o próprio lugar pelo do amigo, e o poema já chama a isso amor.
No Livro IX, com o acampamento cercado por Turno e Enéias longe, Niso vê os rútulos dormirem de vinho e propõe a incursão. Duvida do próprio impulso, que ele não sabe se vem de um deus ou do desejo, e dá duas razões: todos querem Enéias de volta, e a ele basta a fama do feito.
Dine hunc ardorem mentibus addunt, / Euryale? an sua cuique deus fit dira cupido? / Aut pugnam, aut aliquid jamdudum invadere magnum, / Mens agitat mihi, nec placida contenta quiete est. [...] Aenean acciri omnes populusque patresque / Exposcunt, mittique viros qui certa reportent; / Si tibi quae posco promittunt (nam mihi facti / Fama sat est), tumulo videor reperire sub illo / Posse viam ad muros et moenia Pallantea., Os deuses põem esse ardor em nossas mentes, Euríalo, ou cada um faz de seu desejo violento um deus? Há tempo que a mente me incita a um combate ou a algum grande feito, e não se contenta com a quietude tranquila. [...] Todos pedem que Enéias seja chamado, o povo e os anciãos, e que sejam enviados homens com notícias seguras; se te prometem o que peço (pois a mim basta a fama do feito), parece-me que, junto àquele outeiro, posso achar caminho até os muros e a cidade de Palante.
Euríalo se recusa a ficar. Niso cede, mas pede que ele sobreviva, por causa da mãe, que o seguiu desde Troia. Os dois partem depois de Ascânio prometer ouro, armas e cuidado com a mãe de Euríalo.
Sed, si quis (quae multa vides discrimine tali), / Si quis in adversum rapiat casusve deusve, / Te superesse velim; tua vita dignior aetas. / Sit qui me raptum pugna, pretiove redemptum, / Mandet humo solita; aut, si qua id fortuna vetabit, / Absenti ferat inferias decoretque sepulcro. / Neu matri miserae tanti sim causa doloris, / Quae te sola, puer, multis e matribus ausa, / Prosequitur, magni nec moenia curat Acestae., Mas se alguém (e vês quantos há em tal perigo), se o acaso ou um deus me levar para o lado adverso, quero que tu sobrevivas; tua vida merece mais, pela idade. Haja quem me arrebate da luta ou me resgate por preço e me entregue à terra segundo o costume; ou, se a sorte o impedir, quem leve ao ausente as oferendas fúnebres e o honre com um sepulcro. E que eu não seja para tua mãe infeliz motivo de tanta dor, ela que, só entre tantas mães, ousou seguir-te, rapaz, sem se importar com as muralhas do grande Acestes.
No acampamento rútulo, Niso mata o augure Ramnetes e vários servos. É ele quem percebe que a matança passou da medida e manda parar, porque a luz se aproxima. Euríalo, porém, apanha o elmo de Messapo, e o brilho dele os denuncia à cavalaria de Volscente. Niso, que já escapara, volta, atira dois dardos às escondidas e, quando Volscente ergue a espada contra Euríalo, sai do escuro e grita que a culpa é só dele, para desviar o golpe.
Me, me, adsum qui feci; in me convertite ferrum, / O Rutuli; mea fraus omnis: nihil iste nec ausus, / Nec potuit, coelum hoc et conscia sidera testor; / Tantum infelicem nimium dilexit amicum., Eu, eu, aqui estou, eu o fiz; voltai contra mim o ferro, ó rútulos; toda a trama é minha; este nada ousou nem poderia, tomo por testemunhas este céu e os astros cientes; apenas amou demais o amigo infeliz.
Chega tarde: Euríalo morre. Niso mata Volscente e cai sobre o corpo do amigo. O narrador interrompe a cena e promete que nenhum dia os tirará da memória enquanto durar o império romano.
Fortunati ambo! si quid mea carmina possunt, / Nulla dies unquam memori vos eximet aevo, / Dum domus Aeneae Capitoli immobile saxum / Accolet, imperiumque pater Romanus habebit., Ambos felizes! Se meus versos têm algum poder, dia nenhum jamais vos tirará da memória do tempo, enquanto a casa de Enéias habitar a rocha imóvel do Capitólio e o pai romano tiver o império.
Temas que encarna
Niso carrega Guerra, porque a missão dele é de guerra e de socorro, e Dever, porque quer cumprir o que a causa de Enéias pede. Há também Paixão no sentido mais amplo, o de um impulso que o próprio personagem não sabe nomear: o desejo de fama e o amor pelo amigo se confundem nele, e o texto deixa as duas leituras de pé.
Niso é quem tenta frear a violência (manda parar a matança) e quem protege (pede que Euríalo viva), e mesmo assim a missão que ele inventou é a que mata o rapaz. A prudência do mais velho não basta contra a pressa do mais novo, e o poema não dá a culpa a nenhum dos dois.
Relações
- Euríalo: o amigo e companheiro, a quem Niso protege e por quem morre.
- Enéias: o chefe que os dois querem chamar de volta e cuja recompensa não chegam a receber.
- Ascânio: o filho de Enéias, que promete a eles os prêmios e cuidar da mãe de Euríalo.
- Turno: o chefe rútulo cuja tropa adormecida é o alvo da incursão.