Clavis Libri

Personagem

Ana

Quem é

Ana é a irmã e a confidente de Dido em Cartago. Aparece só no Livro IV da Eneida, mas ali em três momentos que decidem a tragédia: é a primeira a quem Dido confessa a paixão por Enéias, quem a convence a ceder ao amor e quem, sem saber, ajuda a erguer a pira em que a irmã morre. O que ela quer é o bem de Dido, a seu modo prático: ver a rainha amparada, a cidade segura e a dor da viuvez encerrada. O papel dela no poema é o de conselheira de boa-fé, cujos conselhos acertam o interesse da cidade e erram o custo para Dido, e que paga por isso com o engano e o luto.

Trajetória

No Livro IV, Dido não dorme depois de ouvir a narração de Enéias e, de manhã, confessa à irmã o que sente: ele é o primeiro a abalar o juramento de fidelidade a Siqueu, o marido morto, e ela reconhece nisso os vestígios da antiga chama. Dido jura, na mesma fala, que preferia ser engolida pela terra a violar o pudor.

Anna (fatebor enim), miseri post fata Sichaei / Conjugis, et sparsos fraterna caede Penates, / Solus hic inflexit sensus, animusque labantem / Impulit: agnosco veteris vestigia flammae, Ana (vou confessar), depois da sorte do infeliz Siqueu, meu marido, e dos Penates espalhados pelo crime do irmão, só este homem abalou os meus sentimentos e empurrou o meu ânimo que vacilava: reconheço os vestígios da antiga chama.
Livro IV: Dido

Ana desfaz o juramento com argumentos práticos, e é nesta fala que está a razão dela. Viúva sem filhos, Dido não consola as cinzas do marido com a solidão; os reis vizinhos que ela recusou, como Iarbas, e as tribos hostis da Líbia cercam Cartago; Pigmalião ameaça de Tiro. Ana lembra ainda que os deuses e a própria Juno parecem ter conduzido os troianos até ali, e que uma aliança com eles faria a cidade crescer em glória e em armas. Dido cede. Ana não decide pela irmã, mas dá ao amor que Dido já sentia um fundamento político que a deixa tranquila, e é por ele que o pudor se desfaz.

Quando Enéias decide partir e Dido o enfrenta sem sucesso, é a Ana que ela recorre. Pede-lhe que fale ao homem que só a ela confiava os pensamentos e que sabia o momento e os caminhos brandos de se aproximar dele, e lhe encomenda o recado mais humilde: não o casamento, só um tempo, um vento melhor, descanso para a dor. Ana leva o recado, chora, e volta sem resposta: um deus tapa os ouvidos de Enéias.

Miserae hoc tamen unum / Exsequere, Anna, mihi; solam nam perfidus ille / Te colere, arcanos etiam tibi credere sensus; / Sola viri molles aditus et tempora noras. / I, soror, atque hostem supplex affare superbum, este único favor, Ana, cumpre para mim, infeliz; pois o pérfido só a ti respeitava, só a ti confiava os seus pensamentos; só tu sabias os momentos e os caminhos brandos do homem. Vai, irmã, e fala suplicante ao inimigo orgulhoso.
Livro IV: Dido

O engano vem depois. Dido diz a Ana que uma sacerdotisa lhe ensinou um rito para trazer Enéias de volta ou livrá-la do amor, e manda erguer no pátio uma pira com as armas, as roupas e o leito dele. Ana, que pensa só em luto, e não em coisa pior do que a morte de Siqueu, obedece. Ela ergue com as próprias mãos, sem saber, a pira da irmã.

Quando ouve o grito, Ana corre e encontra Dido ferida sobre a pira. Rasga o rosto e a acusa: queria morrer junto, e com a mesma hora e o mesmo ferro; ergueu a pira e invocou os deuses da pátria só para ficar ausente na hora da morte. Segundo Ana, Dido matou a si mesma, a ela, ao povo, aos senadores sidônios e à cidade.

eadem me ad fata vocasses: / Idem ambas ferro dolor atque eadem hora tulisset. / His etiam struxi manibus, patriosque vocavi / Voce deos, sic te ut posita, crudelis, abessem? / Exstinxti te meque, soror, populumque, patresque / Sidonios, urbemque tuam, terias-me chamado ao mesmo destino: a mesma dor e a mesma hora nos teriam levado ambas pelo ferro. Com estas mãos ergui a pira e invoquei os deuses da pátria, para que, posta tu assim, cruel, eu estivesse ausente? Mataste a ti e a mim, irmã, e ao povo, aos senadores sidônios e à tua cidade.
Livro IV: Dido

Temas que encarna

Ana passa por três dos temas da obra. É a Paixão vista de fora, por quem ama a protagonista e não pode governá-la. É o Dever do lado prático: o dever de uma governante e de uma irmã para com a cidade, cuja segurança Ana invoca ao aconselhar o casamento. E é Destino e livre-arbítrio pelo lado do conselho humano: o que ela diz acerta o rumo que Juno armara, e o poema deixa em aberto se Ana foi instrumento do plano divino ou apenas uma pessoa que dá o conselho que o bom senso sugere.

O texto não diz se Ana pensa, no fim, que foi ela quem abriu a porta ao amor que matou Dido. A acusação que ela faz a Dido é só a de ter sido enganada e excluída, e o leitor lembra que foi ela quem, no começo do livro, desfez o juramento a Siqueu. O poema não registra remorso em Ana, e fica ao leitor decidir se ela o sente.

Relações

  • Dido: a irmã e a rainha, a quem aconselha o amor, serve de mensageira junto a Enéias e é enganada na hora da pira.
  • Enéias: o homem a quem ela leva o último pedido de Dido e que, segundo Dido, só a ela confiava os pensamentos.
  • Juno: a deusa em quem Ana vê o favor aos troianos e cujo plano, sem que ela saiba, o conselho dela serve.