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A neve molhada

O que é

A neve molhada é o tempo da Segunda Parte e o nome dela. Entre a neve e a água, amarela e turva, é a precipitação que o homem do subsolo vê cair no fim da Primeira Parte e que decide o que ele vai contar: uma lembrança antiga que o aperta e que ele resolve pôr no papel como narrativa a propósito dela. Dentro da lembrança, a neve acompanha cada passo do episódio de Liza e se mistura, na fala dele, à lama, ao enterro e à cova.

Onde aparece

No capítulo XI da Primeira Parte ela dá o gatilho e o título.

Нынче идет снег, почти мокрый, желтый, мутный. [...] Итак, пусть это будет повесть по поводу мокрого снега., Hoje cai neve, quase molhada, amarela, turva. [...] Pois então que seja uma narrativa a propósito da neve molhada.
Primeira Parte: O subsolo

No capítulo III da Segunda Parte, no dia do jantar, o narrador olha pela janela a bruma turva da neve que cai densa e pede que o dia passe depressa. No capítulo V da Segunda Parte ela cai sobre o cocheiro de aluguel e sobre a égua que tosse, morna e molhada; os lampiões desertos piscam na névoa como archotes num enterro, e a neve derrete sob a gravata do narrador, que não se cobre.

No capítulo VI da Segunda Parte ele a usa contra Liza. Descreve a ela um enterro com neve molhada, coveiros xingando, água na cova, e o texto acrescenta, entre parênteses, a confissão de que ele nunca viu aquilo e só ouviu contar:

Ни одного разу я не видал, да и на Волковом никогда не был, а только слышал, как рассказывали, Nem uma vez eu vira aquilo, e nunca estivera em Vólkovo, só ouvira contar.
Segunda Parte: A propósito da neve molhada

No capítulo VII da Segunda Parte o sermão volta ao enterro: a cova com lama e neve molhada, o caixão descido ao resmungo dos coveiros, a argila azul molhada e a frase que apaga o nome dela da face da terra.

имя твое исчезнет с лица земли — так, как бы совсем тебя никогда не бывало и не рождалось!, seu nome vai desaparecer da face da terra, como se você jamais tivesse existido nem nascido!
Segunda Parte: A propósito da neve molhada

Ao sair, apesar da neve molhada que continua a cair em flocos, volta a pé, exausto. No capítulo X da Segunda Parte, depois que Liza vai embora, a neve cai quase vertical, estende uma almofada na calçada e na rua deserta, e ele, na esquina, olha a névoa turva e se pergunta o que corre a fazer.

O que significa

A neve molhada não é uma coisa nem outra: não congela, não escorre, suja. Serve de clima a um episódio sem solução, em que nada chega a se firmar. O narrador a liga ao enterro duas vezes, na cena do trenó e na cova que descreve a Liza, de modo que o clima da rua entra no sermão: a cova com água que ele diz ter visto é feita do tempo em que ele está. Duas leituras: o pretexto é banal, uma neve que traz de volta a lembrança, e o título, só um começo de conversa; ou a neve é o estado do episódio inteiro, o degelo que não chega ao concreto.

Há ainda o contraste com a epígrafe de Nekrássov, que abre o capítulo I da Segunda Parte e volta no capítulo IX da Segunda Parte: o poema fala da palavra ardente que arranca uma mulher perdida do vício, e a narrativa que o homem do subsolo conta, a propósito da neve, é a de quem tenta a palavra ardente e acaba na neve molhada. A ironia está em o título pôr a banalidade do tempo no lugar do ardor do verso.

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