O que é
A tecla de piano, com o seu par, o pino do cilindro de um órgão mecânico, é a imagem de um homem reduzido a peça de mecanismo, cujos atos são tocados de fora pelas leis da natureza. O homem do subsolo a usa para dizer o que o homem seria se houvesse uma fórmula do seu querer: alguém sem desejos, sem vontade e sem quereres. A imagem nasce do cálculo, a tábua de logaritmos até 108.000 que a ciência faria dos atos humanos, e se resolve em ato, o de provar que não se é tecla.
Onde aparece
No capítulo VII da Primeira Parte a tecla aparece pela primeira vez, na boca da ciência futura: ela ensinará ao homem que ele não tem querer nem capricho, que é uma tecla de piano ou um pino de órgão e que as leis da natureza decidem por ele. Ali, contra isso, o narrador põe o querer independente.
No capítulo VIII da Primeira Parte ele leva a hipótese ao fim. Se um dia se achar a fórmula de todos os nossos quereres, o homem deixará de querer.
тотчас же обратится он из человека в органный штифтик или вроде того; потому, что же такое человек без желаний, без воли и без хотений, как не штифтик в органном вале?, no mesmo instante ele se transformará de homem em pino de órgão ou coisa parecida; pois o que é um homem sem desejos, sem vontade e sem quereres senão um pino no cilindro do órgão?
O interlocutor responde com a objeção razoável, a de que nossos quereres erram por ver mal as vantagens e que, calculado tudo, passaremos a raciocinar em vez de querer. O narrador reconhece a força do argumento e separa o que ela omite.
рассудок есть только рассудок и удовлетворяет только рассудочной способности человека, а хотенье есть проявление всей жизни, то есть всей человеческой жизни, и с рассудком, и со всеми почесываниями. И хоть жизнь наша в этом проявлении выходит зачастую дрянцо, но все-таки жизнь, а не одно только извлечение квадратного корня., a razão é só razão e satisfaz apenas a faculdade racional do homem, enquanto o querer é a manifestação de toda a vida, isto é, de toda a vida humana, com a razão e com todas as suas coceiras. E, embora a nossa vida, nessa manifestação, acabe muitas vezes numa porcariazinha, é vida, e não apenas a extração de uma raiz quadrada.
O homem, mesmo coberto de bens, faria alguma sujeira por ingratidão, para provar a si mesmo que é homem e não uma tecla. Se lhe demonstrarem que é tecla, fará o contrário, e se faltarem meios, inventará destruição e sofrimento.
убедится, что он человек, а не фортепьянная клавиша!, vai se convencer de que é um homem, e não uma tecla de piano!
No capítulo VIII da Segunda Parte o gesto volta em miniatura, sem a palavra. O narrador decide não pagar o salário de Apolón só para provar que pode e se prepara para dizer que não quer porque assim quer.
«не хочу, не хочу, просто не хочу выдать ему жалованье, не хочу, потому что так хочу», потому что на это «моя воля господская», não quero, não quero, simplesmente não quero lhe pagar o salário, não quero porque assim eu quero, porque para isso tenho a minha vontade de senhor.
O que significa
A tecla de piano é a forma que o medo do narrador toma na Primeira Parte, o de ser previsível. Ela explica por que ele defende, no capítulo VIII da Primeira Parte, o direito de querer o tolo, e por que o único argumento que lhe resta contra o cálculo é um ato que o cálculo não preveja: a maldição, o caos, o bolo de mel arriscado por ingratidão. A Segunda Parte põe esse argumento à prova. O que o narrador faz para provar que não é tecla, o encontrão, o jantar, o salário retido, é cada vez uma cena escrita de antemão ou dependente de que o outro responda, e o que não tem roteiro, o abraço de Liza, é o que ele só sabe ler como troca de papéis. Duas leituras: heroísmo da recusa, que prefere errar a ser tocado, ou irrisão de um homem que só se afirma quando perde, e cuja liberdade é a de contrariar e, por isso, também previsível. O texto não escolhe entre elas.
Relações
- Temas da obra: Destino e livre-arbítrio, Razão.
- Personagens: o homem do subsolo, Apolón.
- Símbolos vizinhos: o muro de pedra, o limite da mesma aritmética, e o palácio de cristal, onde viveria quem fosse tecla.