O que é
O palácio de cristal é a utopia que o homem do subsolo atribui aos "senhores" a quem se dirige: um futuro em que os desejos do homem foram calculados, os atos registrados numa tabela e as relações econômicas fixadas com exatidão matemática, e em que nada de novo tem de ser decidido. Nos capítulos IX e X da Primeira Parte o texto passa a chamá-lo também de edifício de cristal, eternamente inabalável, e o contrapõe a um galinheiro. Fora do texto, Joseph Frank lembra que o romance O que fazer?, de Tchernichévski, culmina num sonho de utopia em forma de Palácio de Cristal de Londres, e que Dostoiévski já descrevera esse palácio, em Notas de inverno sobre impressões de verão, como santuário de um materialismo que se toma por ideal final.
Onde aparece
No capítulo VII da Primeira Parte o palácio aparece pela primeira vez, como o ponto de chegada da ciência: ela ensinará ao homem que ele não tem querer nem capricho, os atos serão calculados em tábua de logaritmos e as questões desaparecerão porque terão resposta. Então se erguerá o palácio de cristal. O narrador não garante que não será terrivelmente enfadonho, e do tédio, diz, se inventa de tudo.
No capítulo IX da Primeira Parte ele pergunta se o homem não ama o edifício só de longe, e só o erguer, e não morar nele.
может быть, он здание-то любит только издали, а отнюдь не вблизи; может быть, он только любит созидать его, а не жить в нем, предоставляя его потом aux animaux domestiques, как-то муравьям, баранам и проч., и проч., talvez ele só ame o edifício de longe, e de modo nenhum de perto; talvez só goste de erguê-lo, e não de morar nele, deixando-o depois aux animaux domestiques, isto é, para as formigas, os carneiros etc., etc.
E faz do palácio o lugar onde o sofrimento não cabe.
Страдание, например, в водевилях не допускается, я это знаю. В хрустальном дворце оно и немыслимо: страдание есть сомнение, есть отрицание, а что за хрустальный дворец, в котором можно усумниться?, O sofrimento, por exemplo, não é admitido nos vaudevilles, eu sei. No palácio de cristal ele é impensável: o sofrimento é dúvida, é negação, e que palácio de cristal é esse em que se pode duvidar?
No capítulo X da Primeira Parte dá o motivo do medo: no edifício de cristal não se poderia nem pôr a língua para fora às escondidas.
Вы верите в хрустальное здание, навеки нерушимое, то есть в такое, которому нельзя будет ни языка украдкой выставить, ни кукиша в кармане показать., Vocês acreditam num edifício de cristal, eternamente inabalável, isto é, num que não se possa nem pôr a língua para fora às escondidas, nem fazer figa no bolso.
Entraria num galinheiro, se chovesse, mas não o tomaria por palácio por gratidão.
курятника не приму за дворец из благодарности, não aceitarei o galinheiro como palácio, por gratidão.
Pede, em troca, que lhe mostrem algo melhor, e promete seguir quem o fizer. Segundo Frank, a censura cortou neste capítulo a ponte entre esse falso palácio e um verdadeiro, cristão, e daí viria a mudança de sentido do palácio ao longo do texto, de encarnação das leis da natureza a objeto do desejo humano, que seria o rastro visível do corte.
Em Crime e Castigo, o nome volta como o de uma taberna de Petersburgo onde Raskólnikov lê jornais e encontra Zamiótov (capítulo VI da Segunda Parte).
O que significa
O que o narrador teme no palácio de cristal não é o conforto, é a impossibilidade de discordar: uma casa em que nada pode ser desafiado, nem em segredo. A imagem condensa o que a Primeira Parte combate no cálculo do interesse. Por isso o sofrimento, que para ele é dúvida e negação, não cabe lá. Duas leituras da recusa: horror da perfeição e defesa da liberdade de dizer não, ou vaidade de quem prefere a imagem do palácio ao abrigo que tem. O texto ainda deixa aberto que o palácio talvez nem exista, pelas leis da natureza, e que a objeção dele seja só contra a falta de um edifício em que não fosse preciso mostrar a língua.
Relações
- Temas da obra: Razão, Sofrimento, Orgulho.
- Personagem: o homem do subsolo.
- Símbolos vizinhos: o muro de pedra, de que o palácio é a versão habitável, e a tecla de piano, o homem que viveria nele.