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Tema em Os Irmãos Karamázov

Razão

A razão como faculdade e como projeto: lógica, intelecto, racionalismo, a confiança no argumento.

O tema na obra

A razão, no romance, é menos um poder de conhecer do que um poder de montar: dá a quem a tem a capacidade de arrumar qualquer fato num sistema que se sustenta, e o livro olha com desconfiança essa capacidade. Ivan Fiódorovitch Karamázov é o caso central, de uma mente que se declara limitada, euclidiana, terrena, e dessa limitação extrai uma recusa à parte, a de aceitar Deus e devolver o mundo. Em volta dele a razão aparece em outras mãos: Smierdiakóv a usa como casuística, para provar que renegar Cristo não é pecado; o Grande Inquisidor, para calcular o quanto de liberdade o homem aguenta; o promotor e o advogado do julgamento, para ler os mesmos fatos em sentidos contrários. A ideia de que sem imortalidade tudo é permitido percorre o livro inteiro e muda de natureza em cada boca: hipótese de conversa, palavra de ordem, licença para matar, recitação de um diabo. A resposta de Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov não é outra razão: é uma ordem para amar antes de entender, e é essa ordem que o romance põe diante do argumento de Ivan.

No capítulo VI do Livro II, Miússov conta à cela a teoria de Ivan, que sem imortalidade nada é imoral, e Zossima lê aí uma ideia que ainda não se resolveu no coração de Ivan.

Идея эта еще не решена в вашем сердце и мучает его. Но и мученик любит иногда забавляться своим отчаянием, как бы тоже от отчаяния., Essa ideia ainda não está resolvida no seu coração, e o atormenta. Mas o atormentado também gosta, às vezes, de se divertir com o próprio desespero, como que também por desespero.
Livro II: Uma reunião intempestiva

No capítulo VII do Livro II, Rakítin reduz a teoria a uma fórmula, com a qual quer ferir Aliócha.

Нет бессмертия души, так нет и добродетели, значит, всё позволено, Se não há imortalidade da alma, então não há virtude, portanto tudo é permitido.
Livro II: Uma reunião intempestiva

No capítulo VII do Livro III, Smierdiakóv justifica o soldado que renegasse Cristo, e o argumento é formalmente perfeito.

рассуждая, что с одного вола двух шкур не дерут, raciocinando que de um mesmo boi não se tiram duas peles.
Livro III: Os sensuais

No capítulo III do Livro V, Ivan apresenta a Aliócha o limite da própria razão, que lhe serve de base para recusar o mundo, e Aliócha responde com a ordem contrária.

у меня ум эвклидовский, земной, tenho uma mente euclidiana, terrena.
Livro V: Pró e contra
Непременно так, полюбить прежде логики, как ты говоришь, непременно чтобы прежде логики, и тогда только я и смысл пойму., sem dúvida: amar antes da lógica, como você diz, sem dúvida antes da lógica, e só então entenderei também o sentido.
Livro V: Pró e contra

No capítulo IV do Livro V, depois da coleção de casos de crianças, Ivan põe na balança o conhecimento inteiro e o diz pesar menos que uma lágrima.

весь мир познания не стоит тогда этих слезок ребеночка к «боженьке», todo o mundo do conhecimento não vale então essas lagriminhas do bebê ao Deusinho.
Livro V: Pró e contra

No capítulo V do Livro V, o Inquisidor reduz a consciência a uma conta de três forças.

Есть три силы, единственные три силы на земле, могущие навеки победить и пленить совесть этих слабосильных бунтовщиков, для их счастия, — эти силы: чудо, тайна и авторитет., há três forças, as únicas três forças na terra capazes de vencer e cativar para sempre a consciência desses fracos rebeldes, para a felicidade deles: essas forças são o milagre, o mistério e a autoridade.
Livro V: Pró e contra

No capítulo VIII do Livro XI, Smierdiakóv confessa a Ivan o assassinato e devolve a ele a lição de que a conclusão lhe pertence.

Это вы вправду меня учили-с, ибо много вы мне тогда этого говорили: ибо коли бога бесконечного нет, то и нет никакой добродетели, да и не надобно ее тогда вовсе., isso o senhor me ensinou de verdade; muitas vezes me disse então que, se não existe um Deus infinito, não há virtude nenhuma, e nem é preciso tê-la.
Livro XI: Ivan Fiódorovitch

No capítulo IX do Livro XI, a explicação clínica que Ivan dá ao visitante, a de que ele é uma parte sua, é a razão defendendo-se do que vê.

Ты моя галлюцинация. Ты воплощение меня самого, только одной, впрочем, моей стороны… моих мыслей и чувств, только самых гадких и глупых., você é a minha alucinação. É a encarnação de mim mesmo, só de um lado meu, aliás... dos meus pensamentos e sentimentos, só dos mais nojentos e estúpidos.
Livro XI: Ivan Fiódorovitch

O visitante recita o artigo antigo de Ivan e termina na fórmula com que o livro vinha brincando.

Для бога не существует закона! Где станет бог — там уже место божие! Где стану я, там сейчас же будет первое место… «всё дозволено», и шабаш!, para Deus não existe lei! Onde Deus se puser, ali é o lugar de Deus! Onde eu me puser, ali de imediato será o primeiro lugar... "tudo é permitido", e pronto!
Livro XI: Ivan Fiódorovitch

No capítulo X do Livro XII, Fietiukóvitch diz do que se serve o promotor e do que se serve ele.

Но ведь психология, господа, хоть и глубокая вещь, а все-таки похожа на палку о двух концах, mas a psicologia, senhores, ainda que coisa profunda, se parece com uma vara de duas pontas.
Livro XII: Um erro judiciário

No capítulo XI do Livro XII, ele devolve ao promotor a palavra com que a acusação foi montada.

И такими-то романами мы готовы погубить жизнь человеческую!, e com romances assim estamos prontos a destruir uma vida humana!
Livro XII: Um erro judiciário

Quem o encarna

Ivan é a razão que se sabe limitada e não pode deixar de raciocinar; o diabo dele é a mesma razão sem corpo. Smierdiakóv é a razão que executa o que o mestre pensou e lhe devolve a conta. O Grande Inquisidor é a razão que calcula a felicidade dos fracos, e o promotor Hippolit Kiríllovitch e o advogado Fietiukóvitch, a razão a serviço de uma tese. Aliócha é o seu contraponto: não argumenta, e o que responde a Ivan é um beijo, uma oração e uma ordem de amar primeiro.

Onde aparece

  • Livro II, capítulo VI: Miússov conta a teoria de Ivan sobre imortalidade e virtude, e Zossima a chama de ideia não resolvida.
  • Livro II, capítulo VII: Rakítin resume a teoria de Ivan a Aliócha na fórmula de que, sem imortalidade da alma, não há virtude e tudo é permitido.
  • Livro III, capítulo VII: Smierdiakóv argumenta que renegar Cristo para salvar a vida não é pecado.
  • Livro V, capítulo III: Ivan declara a Aliócha que tem uma mente euclidiana e terrena, incapaz de decidir o que não é deste mundo, e recusa o mundo de Deus.
  • Livro V, capítulo IV: Ivan diz que todo o conhecimento não vale as lágrimas de uma criança.
  • Livro V, capítulo V: O Inquisidor reduz a consciência a três forças, o milagre, o mistério e a autoridade.
  • Livro XI, capítulo VIII: Smierdiakóv confessa e diz que aprendeu com Ivan que, sem Deus, não há virtude.
  • Livro XI, capítulo IX: O diabo de Ivan recita a teoria do homem-deus e acaba em tudo é permitido.
  • Livro XII, capítulo X: Fietiukóvitch elogia o promotor como psicólogo e lembra aos jurados que a psicologia é uma vara de duas pontas, que se pega por qualquer lado.
  • Livro XII, capítulo XI: O advogado acusa a promotoria de montar romances para destruir uma vida.

Onde as leituras divergem

O romance admite duas leituras da razão que mostra. Numa, ela é a vilã do livro: a que produz arranjos sofisticados e falsos, a que se encarna em Smierdiakóv e em um diabo. Na outra, a razão de Ivan é o que há de mais honesto na história, porque recusa a harmonia que custa uma criança, e o que o destrói é a falta de algo que a sustente.

A frase de que tudo é permitido muda de função de boca em boca, e a mudança é o argumento do livro. No capítulo VII do Livro II é um comentário de sala, dito com zombaria; no capítulo VIII do Livro XI é a razão de um crime, dada por quem a ouviu de Ivan; no capítulo IX do Livro XI é um texto antigo de Ivan recitado de cor por uma alucinação. Em nenhuma dessas passagens ela é refutada por outro argumento: o que a desmonta é ver o que produz. A razão, assim, não é culpada nem inocente, porque o livro a julga pelo uso que dela se faz, e Ivan, que mede tudo por razões, recebe a sentença em forma de ato alheio.