O tema na obra
Neste livro a razão é o instrumento com que o crime é construído e também aquilo que o livro mostra falhando. Rodion Românovitch Raskólnikov chega à primeira página com a teoria pronta e o crime ruminado na cabeça, e mesmo assim só age quando uma cadeia de acasos empurra o corpo. O romance pergunta o que decide um homem a agir e responde que não é a razão sozinha: ela aprova, a natureza recusa, e quem acaba por mover a cena é o corpo, o acaso e, no fim, a vida.
No capítulo V da Primeira Parte, depois do sonho da égua, Raskólnikov nomeia pela primeira vez o ato em imagens (o machado, a cabeça, o sangue) e treme. Conclui que, mesmo que os cálculos estejam certos como aritmética, ele não se decidirá: a razão aprova e a natureza recusa.
неужели ж, неужели ж я в самом деле возьму топор, стану бить по голове, размозжу ей череп [...] Господи, неужели?, será possível, será possível mesmo que eu vá pegar o machado, pôr-me a bater na cabeça, estraçalhar o crânio dela [...] Senhor, será possível?
No capítulo VI da Primeira Parte, na taberna que ele relembra, um estudante desconhecido dá a conta que Raskólnikov já tinha na cabeça, entre irritado e brincando, e lhe entrega linguagem e número:
Убей ее и возьми ее деньги, с тем чтобы с их помощию посвятить потом себя на служение всему человечеству и общему делу: [...] Одна смерть и сто жизней взамен — да ведь тут арифметика!, Mate-a e fique com o dinheiro dela, para depois, com a ajuda dele, dedicar-se ao serviço de toda a humanidade e da causa comum: [...] Uma morte e cem vidas em troca, ora, isso é aritmética!
Ainda no capítulo VI da Primeira Parte, o narrador descreve o estado em que ele prepara tudo sem decidir nada: o último dia o puxa como a roda de uma máquina que prendeu um pedaço da roupa.
Точно он попал клочком одежды в колесо машины, и его начало в нее втягивать., Era como se tivesse prendido um pedaço da roupa na roda de uma máquina, e ela começasse a puxá-lo para dentro.
No capítulo VII da Primeira Parte, o golpe vem quase sem esforço, quase mecanicamente, no instante para o qual o penhor falso foi preparado:
Он вынул топор совсем, взмахнул его обеими руками, едва себя чувствуя, и почти без усилия, почти машинально, опустил на голову обухом, Tirou o machado por inteiro, ergueu-o com as duas mãos, mal sentindo a si mesmo, e, quase sem esforço, quase mecanicamente, baixou-o sobre a cabeça, com o lado cego.
No capítulo II da Segunda Parte, a pergunta que Raskólnikov dirige a si mesmo mede o quanto o plano foi cálculo: se tudo foi feito conscientemente, por que ele nem olhou dentro da bolsa que levou?
Если действительно все это дело сделано было сознательно, а не по-дурацки, если у тебя действительно была определенная и твердая цель, то каким же образом ты до сих пор даже и не заглянул в кошелек и не знаешь, что тебе досталось, из-за чего все муки принял и на такое подлое, гадкое, низкое дело сознательно шел?, se tudo isso foi feito mesmo conscientemente, e não como uma estupidez, se você teve de fato um objetivo definido e firme, então como é que até agora nem chegou a olhar dentro da bolsa e não sabe o que lhe coube, por causa de que sofreu todos os tormentos e foi, conscientemente, a um ato tão vil, repugnante e baixo?
No capítulo IV da Segunda Parte, Dmitri Prokófitch Razumíkhin, irritado com a polícia, formula o método que Porfiri Pietróvitch praticará: o fato bruto não basta, é preciso saber lidar com ele, e os dados psicológicos mostram o rastro verdadeiro.
По одним психологическим только данным можно показать, как на истинный след попадать должно. «У нас есть, дескать, факты!» Да ведь факты не все; по крайней мере, половина дела в том, как с фактами обращаться умеешь!, só os dados psicológicos já bastam para mostrar como se deve chegar ao rastro verdadeiro. Nós temos fatos, dizem eles! Mas os fatos não são tudo; ao menos metade da questão está em saber lidar com os fatos!
No capítulo V da Segunda Parte, Piotr Pietróvitch Lújin expõe a doutrina do interesse pessoal como se fosse ciência, e Raskólnikov leva a consequência até onde ela vai:
А доведите до последствий, что вы давеча проповедовали, и выйдет, что людей можно резать…, pois leve às últimas consequências o que o senhor pregou há pouco, e vai resultar que se pode passar gente na faca...
No capítulo V da Terceira Parte, na casa de Porfiri, ele expõe o artigo: o direito do homem extraordinário não é oficial, é o de permitir à própria consciência transpor certos obstáculos, quando a execução da ideia o exigir.
Я просто-запросто намекнул, что «необыкновенный» человек имеет право… то есть не официальное право, а сам имеет право разрешить своей совести перешагнуть… через иные препятствия, и единственно в том только случае, если исполнение его идеи (иногда спасительной, может быть, для всего человечества) того потребует., Eu simplesmente insinuei que o homem extraordinário tem o direito... isto é, não o direito oficial, mas ele mesmo tem o direito de permitir à sua consciência transpor... certos obstáculos, e unicamente no caso em que a execução da sua ideia (às vezes salvadora, talvez, para toda a humanidade) o exija.
Ainda no capítulo V da Terceira Parte, Razumíkhin, sem saber do crime, responde com a alma viva que não se submete à mecânica, e a oposição se volta contra o amigo, porque a teoria de Raskólnikov também calcula:
Живая душа жизни потребует, живая душа не послушается механики, живая душа подозрительна, живая душа ретроградна!, A alma viva vai pedir vida, a alma viva não vai se submeter à mecânica, a alma viva é desconfiada, a alma viva é retrógrada!
No capítulo VI da Terceira Parte, horas depois, sozinho e em febre, Raskólnikov desmonta a própria doutrina em duas frases: matou um princípio, não transpôs, e só soube matar.
я не человека убил, я принцип убил! Принцип-то я и убил, а переступить-то не переступил, на этой стороне остался... Только и сумел, что убить., não foi uma pessoa que eu matei, foi um princípio! O princípio, esse eu matei, mas transpor não transpus, fiquei deste lado... Só o que consegui foi matar.
No capítulo I da Quarta Parte, Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov inverte os lugares para se defender: a razão serve à paixão, e quem age por paixão é servo dela. Raskólnikov responde que isso é simplesmente repugnante.
Разум-то ведь страсти служит; я, пожалуй, себя еще больше губил, помилуйте!.., A razão, afinal, serve à paixão; talvez eu estivesse me arruinando ainda mais, ora essa!..
No capítulo V da Quarta Parte, Porfiri descreve o próprio método como teoria geral do ofício, a mariposa que gira em torno da vela, e no capítulo II da Sexta Parte reconhece o defeito dele, a psicologia que corta para os dois lados:
ведь в том-то и штука, что вся эта проклятая психология о двух концах!, pois aí está a questão: toda essa maldita psicologia corta para os dois lados!
No capítulo IV da Quinta Parte, ao confessar a Sófia Semeónovna Marmieládova, Raskólnikov reduz a teoria a uma pergunta sobre si mesmo, e Sônia completa por ele o verbo que a frase evita:
мне надо было узнать тогда, и поскорей узнать, вошь ли я, как все, или человек? Смогу ли я переступить или не смогу! Осмелюсь ли нагнуться и взять или нет? Тварь ли я дрожащая или право имею…, eu precisava saber então, e saber depressa: sou um piolho, como todos, ou um homem? Vou conseguir transpor ou não vou! Ouso me abaixar e pegar ou não? Sou uma criatura trêmula ou tenho o direito…
No capítulo I do Epílogo, o tribunal acolhe a teoria da moda da perturbação mental passageira, que lhe permite entender o crime sem tocar na ideia que o moveu. No capítulo II do Epílogo, o sonho da peste (O sonho da peste) devolve a lógica do crime em escala de povos:
всякий думал, что в нем в одном и заключается истина, cada qual achava que a verdade se encerrava nele, e só nele.
Ainda no capítulo II do Epílogo, a razão não é refutada, é deixada para trás: a dialética cede lugar à vida.
Вместо диалектики наступила жизнь, и в сознании должно было выработаться что-то совершенно другое, Em vez da dialética, chegou a vida, e na consciência algo completamente outro devia se formar.
A razão aparece em quatro posições que o livro nunca deixa fundir: a que calcula (a aritmética do capítulo VI da Primeira Parte), a que se coloca a serviço do desejo (Svidrigáilov, no capítulo I da Quarta Parte), a que se faz método de polícia (Razumíkhin no capítulo IV da Segunda Parte, Porfiri no capítulo V da Quarta Parte) e a que o tribunal usa para explicar o crime sem enfrentar a ideia (capítulo I do Epílogo). Nenhuma delas decide. O que decide é o que o narrador chama de roda de máquina no capítulo VI da Primeira Parte, e o que desfaz o sistema, no capítulo II do Epílogo, não é contra-argumento, é a troca da dialética pela vida.
Quem o encarna
Lújin e Liebeziátnikov são a razão utilitária em versão de salão. No capítulo I da Quinta Parte, provocado de propósito por Lújin, Liebeziátnikov defende que tudo o que serve à humanidade é nobre, e o texto deixa em aberto se a convicção dele é sincera, o que o tornaria testemunha sem desconfiança, ou postura de quem quer ser levado a sério.
Все, что полезно человечеству, то и благородно! Я понимаю только одно слово: полезное!, Tudo o que serve à humanidade é nobre! Só entendo uma palavra: o útil!
No capítulo V da Quinta Parte, Liebeziátnikov expõe a tese de que a loucura se cura convencendo a pessoa pela lógica, e Raskólnikov responde que a vida seria fácil demais assim.
Zóssimov traz a razão do médico: no capítulo II da Terceira Parte, descreve o mecanismo pelo qual uma suspeita injusta empurra um homem doente e orgulhoso a um ato extremo, sem saber que no caso de Raskólnikov a suspeita tem fundamento.
Я один случай знаю, как один ипохондрик, сорокалетний, не в состоянии будучи переносить ежедневных насмешек за столом восьмилетнего мальчишки, зарезал его!, Conheço um caso: um hipocondríaco, homem de quarenta anos, que, não aguentando as troças diárias, à mesa, de um moleque de oito anos, o matou a facadas!
Onde aparece
- Primeira Parte, capítulo V: Depois do sonho da égua, Raskólnikov imagina o machado na cabeça da velha, treme e conclui que a razão aprova o plano, mas a natureza recusa.
- Primeira Parte, capítulo VI: Raskólnikov lembra a conta de uma morte por cem vidas ouvida de um estudante e prepara tudo sem decidir nada, como se uma roda de máquina o puxasse.
- Primeira Parte, capítulo VII: Raskólnikov golpeia a velha quase sem esforço, quase mecanicamente, quando ela se vira para a janela, e Lisavieta, que chega depois, também é morta.
- Segunda Parte, capítulo II: Ao esconder o roubo sob uma pedra, Raskólnikov se pergunta como, se agiu conscientemente, nem olhou o que havia na bolsa que levou.
- Segunda Parte, capítulo IV: Razumíkhin, irritado com a polícia, diz que os fatos não bastam e que é preciso saber lidar com eles, embora admita o peso do estojo achado na mão do pintor.
- Segunda Parte, capítulo V: Lújin expõe a doutrina do interesse pessoal, e Raskólnikov responde que, levada às últimas consequências, ela permite passar gente na faca.
- Terceira Parte, capítulo II: Zóssimov teme que uma suspeita injusta empurre o doente Raskólnikov a um ato extremo, sem saber que no caso dele a suspeita tem fundamento.
- Terceira Parte, capítulo V: Na casa de Porfiri, Raskólnikov expõe a teoria dos homens ordinários e extraordinários, e Razumíkhin opõe a ela a alma viva, que não se submete à mecânica.
- Terceira Parte, capítulo VI: Sozinho e em febre, Raskólnikov diz que matou um princípio e não uma pessoa, que não transpôs e só soube matar, e se declara um piolho.
- Quarta Parte, capítulo I: Svidrigáilov afirma que a razão serve à paixão, e Raskólnikov responde que o argumento é simplesmente repugnante.
- Quarta Parte, capítulo V: Porfiri expõe o método do ofício: deixar o suspeito à solta, vigiado, até que ele gire em torno do juiz como a mariposa em torno da vela.
- Quinta Parte, capítulo I: Liebeziátnikov defende que tudo o que serve à humanidade é nobre e que só entende a palavra útil, enquanto Lújin o provoca de propósito.
- Quinta Parte, capítulo IV: A Sônia, Raskólnikov reduz a teoria a uma pergunta sobre si mesmo: se é um piolho como todos ou um homem que ousa transpor e pegar.
- Quinta Parte, capítulo V: Liebeziátnikov sustenta que a loucura se cura convencendo a pessoa pela lógica, e Raskólnikov responde que a vida seria fácil demais assim.
- Sexta Parte, capítulo II: Porfiri reconhece diante de Raskólnikov que toda a sua psicologia corta para os dois lados e, por isso, lhe oferece a entrega voluntária.
- Epílogo, capítulo I: O tribunal acolhe a teoria da perturbação mental passageira para explicar o crime de Raskólnikov, que quase não se defende e não menciona a ideia dos homens extraordinários.
- Epílogo, capítulo II: No presídio, o sonho da peste mostra cada contaminado certo de ter sozinho a verdade, e a dialética de Raskólnikov cede lugar à vida.
Onde as leituras divergem
Quanto do crime é razão é questão disputada.
Joseph Frank vê na oscilação entre motivos não um sintoma de desequilíbrio, mas o assunto do livro, cada camada de motivo sendo uma fase da autodescoberta de um homem que não sabe por que matou.
Se Raskólnikov é louco, o Epílogo é cura e a teoria nunca precisou de resposta; se é lúcido e se descobre por etapas, o Epílogo é o único ponto em que o livro devia responder e não responde. Quem lê o crime como ato frio precisa explicar o capítulo V da Primeira Parte, em que ele recua diante do machado, e o capítulo VII da Primeira Parte, em que Lisavieta Ivánovna, que não estava no plano, morre no segundo golpe.