Clavis Libri

Tema em A Montanha Mágica

Razão

A razão como faculdade e como projeto: lógica, intelecto, racionalismo, a confiança no argumento.

O tema na obra

A razão entra no romance com Lodovico Settembrini, no capítulo III. Ao ouvir Hans Castorp invocar o diabo, o italiano recita o hino de Carducci a Satanás, força vingadora da Razão; chama os médicos de Minos e Radamanto e os pacientes de gente decaída; e, à noite, sugere que o visitante faça as malas e parta no trem seguinte. Quando Hans Castorp recusa por não querer parecer covarde, Settembrini se inclina diante da razão e da coragem.

No capítulo IV a ironia vira doutrina. Settembrini declara que a doença não é nobre e que uma alma sem corpo é tão desumana quanto um corpo sem alma; diz que a música é politicamente suspeita, porque nela suspeita o quietismo; e fecha a lição sobre o avô carbonário reunindo a literatura, a humanidade e a política numa única força, a civilização.

No capítulo VI a razão ganha adversário. Leo Naphta, que Settembrini revela ser jesuíta, opõe a ela o "creio para compreender" de Santo Agostinho, a Cidade de Deus de Gregório Magno e a necessidade do terror; Settembrini responde com a democracia, os direitos do homem e a liberdade, e mais tarde com o lema de Voltaire, "Écrasez l'infâme!". Depois de uma disputa num passeio de ida e volta a Davos-Platz, o narrador registra a grande confusão. Na Neve, Hans Castorp chama os dois de charlatães e conclui que só o amor, e não a razão, é mais forte que a morte. Junto ao corpo de Joachim Ziemssen, Naphta ainda diz que só onde falta o espírito existe decência.

No capítulo VII a disputa perde força diante de Pieter Peeperkorn, cuja presença deixa os dois sem corrente, e depois termina em sangue. Na Grande irritação, Naphta responde a Settembrini que só do ceticismo radical nasce o terror sagrado, e Settembrini aceita o duelo, embora o desaprove. Hans Castorp só consegue reduzir as condições. Settembrini promete não matar e atira para o ar; Naphta o chama de covarde e descarrega a pistola na própria cabeça.

O romance dá à razão o melhor advogado que ela podia ter, eloquente, generoso e corajoso, e mesmo assim não a deixa vencer. Settembrini sai das disputas mais simpático que Naphta, mas a razão dele não alcança o que Hans Castorp procura, e o livro põe a frase decisiva na boca de um rapaz semicongelado, que a deve a um sonho e não a um argumento. Não é uma condenação da razão, é a medida dela: virtude, diz a Neve, diante de uma morte que é liberdade e volúpia. O duelo confirma a medida: a razão de Settembrini não mata, e por isso também não vence.

Onde aparece

Passagens

Na primeira noite, Settembrini aprova a recusa de Hans Castorp em nome da razão.

Inclino-me diante da razão [...] Inclino-me também diante da coragem.
Capítulo III: O primeiro dia inteiro e a chegada de Settembrini

A lição sobre os dois avôs termina numa palavra.

Seu nome era: civilização!, Temor nascente. Dos dois avôs e do passeio de barca ao crepúsculo
Capítulo IV: O sentido do tempo, Hippe e o termômetro

Naphta responde à razão com o terror.

Já sabemos que o poder é mau. Mas, para que chegue o reino, é preciso suspender momentaneamente o dualismo entre bem e mal, aquém e além, espírito e arbítrio, e uni-lo em um princípio que reúna o ascetismo e o domínio. Eis aí o que chamo necessidade do terror.
Capítulo VI: Naphta, a Neve e a morte de Joachim

Na Neve, o amor toma o lugar que a razão não ocupa.

Não quero conceder à morte poder algum sobre meus pensamentos! Pois é nisso que consistem a bondade e a filantropia, e em nada mais. [...] O amor enfrenta a morte; só ele, e não a razão, é mais forte que ela.
Capítulo VI: Naphta, a Neve e a morte de Joachim

O duelo termina sem metáfora.

O desfecho do duelo é narrado sem metáfora: Settembrini atira para o ar, Naphta o chama de covarde e levantou a pistola de um modo que nada mais tinha a ver com um combate, e descarregou-a na própria cabeça.
Capítulo VII: Peeperkorn, o grande tédio e o trovão