Clavis Libri

Tema em O Vermelho e o Negro

Felicidade

O que é viver bem: felicidade, plenitude, contentamento, a vida boa e o que a impede.

O tema na obra

A felicidade, no romance, quase nunca chega onde Julien Sorel a procura. Ela aparece nos intervalos do cálculo: sob a tília, quando a Madame de Rênal se deixa viver e ele esquece de fingir (Livro I, cap. 9), e na gruta da montanha, onde, sozinho e livre da hipocrisia, ele se sente mais feliz do que jamais fora (cap. 12). Quando a conquista se cumpre, ao contrário, vem a decepção, e Julien se pergunta se ser feliz e ser amado é só aquilo (cap. 15). Na noite da escada, antes da partida para Paris, o narrador separa a felicidade divina do simples prazer obtido por artifício (cap. 30).

Mathilde de La Mole é a figura de quem tem tudo menos a felicidade. No baile ela conta o que a sorte lhe deu, ilustração, fortuna e juventude, e conclui que falta justamente o essencial (Livro II, cap. 8); quando decide amar, declara a si mesma a felicidade de amar como quem toma uma resolução (cap. 11).

A virada vem na prisão. No torreão, Julien já não pensa no que o ocupava quinze dias antes e descobre que era feliz sem saber (cap. 36); a ambição morre e a lembrança dos dias felizes de Verrières e de Vergy toma o lugar dela (cap. 39); fumando no terraço, ele estranha só ter aprendido a gozar a vida ao ver o fim se aproximar (cap. 40). O reencontro com a sra. de Rênal lhe arranca a frase que fecha o arco (cap. 43), e nas visitas dela ele diz que a ambição o levava para longe justamente quando poderia ter sido feliz nos bosques de Vergy (cap. 45).

Stendhal define a felicidade pelo avesso da ambição: ela está sempre no lugar de onde Julien saiu para subir, e só fica visível quando já não há para onde subir. A gruta, a tília e a cela têm em comum a ausência de público, e é essa a condição que o livro inteiro negou a ele. Não é uma moral de renúncia, porque ninguém no romance é feliz por virtude; é a constatação de que o cálculo e a felicidade não cabem no mesmo tempo.

Onde aparece

Passagens

A gruta, onde a felicidade vem da liberdade e não de uma conquista:

Com a cabeça apoiada nas mãos, Julien sentiu-se mais feliz na gruta do que jamais fora em toda a vida, agitado pelos devaneios e pelo gozo da liberdade.
Livro I, capítulo 12: Uma viagem

A conquista cumprida, que decepciona:

Meu Deus! Ser feliz, ser amado, é só isto?
Livro I, capítulo 15: O canto do galo

O narrador separa a felicidade do prazer obtido por cálculo:

O narrador pesa o preço da vitória: Se a volta aos sentimentos ternos e o eclipse dos remorsos da sra. de Rênal tivessem chegado um pouco antes, teriam sido uma felicidade divina; obtidos assim, mediante artifício, não passaram de um prazer.
Livro I, capítulo 30: Um ambicioso

No reencontro da prisão, a frase que fecha o arco:

Não poderíamos passar dois meses juntos de uma maneira deliciosa? Dois meses são muitos dias. Nunca terei sido tão feliz.
Livro II, capítulo 43

E a conta final, feita diante da sra. de Rênal:

quando poderia ter sido tão feliz em nossos passeios nos bosques de Vergy, uma impetuosa ambição transportava minha alma para regiões imaginárias. [...] Não, eu morreria sem conhecer a felicidade se você não tivesse vindo me ver nesta prisão.
Livro II, capítulo 45