Um soldado que escreve depois dos cinquenta anos
Cervantes nasceu em 1547, foi soldado a serviço de Filipe II, esteve na batalha naval de Lepanto, em 1571, de onde saiu ferido, e foi escravo em Argel de 1575 a 1580. Voltou à Espanha para uma vida de aperto, de cobrança de impostos e de cadeia, e só conheceu o sucesso com a Primeira Parte do Quixote, em 1605. A vida dele, com as datas que cada fonte sustenta e as que divergem, está em Miguel de Cervantes. Carpeaux o lê como o último dos erasmianos espanhóis, um «miles christianus» fora de época numa Espanha que já tinha trocado o universalismo de Erasmo pelo maquiavelismo de Estado.
Cervantes (1547-1616) foi soldado a serviço de Filipe II, cativo dos mouros, e publicou o Dom Quixote em duas partes, 1605 e 1615; a leitura de Carpeaux o situa como o último dos erasmianos espanhóis, um "miles christianus" anacrônico numa Espanha que já tinha trocado o universalismo erasmiano pelo maquiavelismo de Estado.
Como o livro nasceu
No prólogo, Cervantes diz que o livro é como quem «se engendrou num cárcere», e é provável que se refira à prisão de Sevilha, em 1597 e 1598. A obra que ele tinha em mente era, ao que tudo indica, uma ficção breve, parecida com as Novelas Exemplares que sairiam em 1613: o narrador chama o texto de cuento, conto, no capítulo I e só mais uma vez, no capítulo IX, e daí em diante fala de libro e de historia. Entre uma coisa e outra a história se expande: ganha um escudeiro, no capítulo VII, um historiador árabe e um tradutor, no IX, e as novelas intercaladas. A Primeira Parte saiu em Madri entre o fim de dezembro de 1604 e o começo de 1605, numa impressão apressada, e foi um sucesso popular imediato.
Desocupado lector: sin juramento me podrás creer que quisiera que este libro, como hijo del entendimiento, fuera el más hermoso, el más gallardo y más discreto que pudiera imaginarse, desocupado leitor: sem juramento podes crer-me que eu desejaria que este livro, qual filho do entendimento, fosse o mais belo, o mais garboso e o mais discreto que se pudesse imaginar.
A cavalaria impressa e o seu fim
Os livros de cavalaria foram sucesso de leitura nos primeiros setenta anos do século XVI e criticados por moralistas por desviar os leitores da religião; no tempo de Cervantes já tinham sido superados pela literatura do Século de Ouro, e ninguém os via como ameaça. O gênero vinha do romance cortês: Auerbach lê a saída de Calogrenante, na corte do rei Artur, como o modelo de uma aventura sem tarefa política, feita só para a prova pessoal do cavaleiro, e a primeira saída de dom Quixote como paródia perfeita dela. O Amadis de Gaula, última fase da prosificação do romance cortês, é o livro predileto do herói e o primeiro que o padre perdoa na fogueira da biblioteca (capítulo VI da Primeira Parte).
A primeira saída de Dom Quixote [...] é uma paródia perfeita da saída de Calogrenante, justamente porque Dom Quixote não encontra o mundo preparado de propósito para a sua prova, mas um mundo qualquer.
não pode morrer de todo um livro que foi a leitura preferida de Don Quixote.
O apócrifo de Avellaneda
No outono de 1614, quando Cervantes ainda escrevia a Segunda Parte, saiu em Tarragona um Segundo volume do engenhoso fidalgo dom Quixote da Mancha, de um tal Alonso Fernández de Avellaneda, pseudônimo de um escritor nunca identificado, que contava a viagem a Saragoça que o fim da Primeira Parte tinha prometido. Cervantes responde de quatro modos, e o primeiro é o prólogo da Segunda Parte, em que fala ao leitor sem dar nome ao rival:
Quisieras tú que lo diera del asno, del mentecato y del atrevido, pero no me pasa por el pensamiento: castíguele su pecado, con su pan se lo coma y allá se lo haya, gostarias que eu o tratasse de asno, de mentecapto e de atrevido, mas isso nem me passa pelo pensamento: que o seu pecado o castigue, que coma o seu pão e se arranje.
Os outros três modos estão no corpo do livro: no capítulo LIX, o fidalgo ouve dois hóspedes lerem o livro falso e muda de rumo para não ir a Saragoça; no capítulo LXXII, dom Álvaro Tarfe, personagem do livro rival, declara diante de um alcaide que este é o verdadeiro dom Quixote; e no testamento do capítulo LXXIV.
Dez anos entre as duas Partes
A Primeira Parte acaba com o fidalgo de volta à aldeia, a promessa de uma terceira saída para as justas de Saragoça e uma citação de Ariosto que sugere a outro continuar a história (capítulo LII da Primeira Parte). Na Segunda, o sucesso do livro vira matéria: o fidalgo descobre que é herói impresso, e o bacharel aponta como erros o jumento que reaparece sem explicação e o Curioso Impertinente fora de lugar (capítulo III da Segunda Parte). O narrador explica no capítulo XLIV que, para fugir de escrever sempre de um só assunto, tinha usado na Primeira Parte novelas separadas, como a do Curioso Impertinente e a do cativo, e que na Segunda não quis novelas soltas, e sim episódios nascidos dos mesmos sucessos (capítulo XLIV da Segunda Parte). A Segunda Parte foi dedicada ao conde de Lemos, com a promessa de um romance novo, o Persiles.
O romance e as suas leituras
Carpeaux chama o Quixote de «romance dos romances», porque o contraste entre a aparência e a realidade é a substância do gênero, e divide as interpretações em duas linhagens: a que lê a derrota do fidalgo como a da fé num mundo sem fé (Turguêniev, depois Unamuno) e a que restabelece os direitos da realidade, aproximando o livro do romance picaresco (Menéndez y Pelayo, depois Américo Castro). Auerbach recusa as leituras trágica e simbólica; outra leitura vê o duelo entre o fidalgo e o bacharel como o de duas cosmovisões, a medieval, mística e ambígua, e a renascentista, racionalista.
o contraste entre as aparências e a realidade é a própria substância do gênero "romance". Nesse sentido é o Don Quijote "o romance dos romances".