Clavis Libri

Dom Quixote · Primeira Parte

Os galeotes e a serra

Resumo da parte

Seis capítulos em que o que o fidalgo vê deixa de coincidir com o que existe: um cortejo de clérigos, seis maços de pisão, uma bacia de barbeiro. No meio fica a única boa ação que ele faz por inteiro, a libertação dos galeotes, e a paga que ela recebe; a fuga os leva à Serra Morena, onde um segundo louco lhe pede que o ouça sem interromper.

Capítulo XIX: O cortejo fúnebre e a Triste Figura

Resumo do capítulo

Sancho abre o capítulo com uma teoria: as desventuras dos últimos dias, a manta e os coices, são pena do pecado de Dom Quixote contra a ordem de cavalaria, por não ter cumprido o juramento de não comer pão à toalha nem folgar com a rainha até tirar o elmo do tal Malandrino, "ou como se chame o mouro". O fidalgo concede que o esquecera, acha que a manta veio de Sancho não lhe ter lembrado a tempo e promete emenda, porque a cavalaria tem "modos de composição" para tudo. Sancho pergunta se jurou alguma coisa; o amo diz que não importa, basta ele entender que Sancho, como companheiro, não está seguro quanto à pena. Com isso a noite os alcança no meio do caminho, sem venta à vista e sem alforjes, com Sancho Pança morto de fome.

Análise

Então vêm luzes pela estrada, tantas que parecem estrelas em marcha: uns vinte encamisados a cavalo com tochas acesas e, atrás, uma liteira coberta de luto, seguida de seis cavaleiros enlutados até os pés das mulas. Sancho bate o queixo. O amo, ao contrário, vê ali, em sua imaginação, uma das aventuras dos livros:

Figurósele que la litera eran andas donde debía de ir algún mal ferido o muerto caballero, cuya venganza a él solo estaba reservada, figurou-se-lhe que a liteira era um andor onde devia ir algum cavaleiro malferido ou morto, cuja vingança só a ele estava reservada.

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Capítulo XX: Os pisões

Resumo do capítulo

Sancho Pança, com a sede pior que a fome, nota que as ervas do prado dão fé de uma fonte por perto, e os dois se põem a andar às apalpadelas, Dom Quixote na rédea de Rocinante e Sancho na do asno. Antes de duzentos passos ouvem um grande ruído de água que se despenha de rochedos, e logo a seguir um estrondo que lhes tira o gosto da água: golpes dados a compasso, com um rangido de ferros e correntes. A noite é escura, estão entre árvores altas cujas folhas, movidas por um vento brando, fazem um ruído manso e temeroso, e os golpes não cessam, o vento não dorme e a manhã não chega. O fidalgo sobe em Rocinante, embraça a rodela, enristra a lança e faz seu discurso:

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Capítulo XXI: O elmo de Mambrino

Resumo do capítulo

Começa a chover um pouco, e Sancho Pança quer abrigar-se no moinho dos pisões; mas Dom Quixote tomou tal aborrecimento àquele lugar pela burla que não entra de maneira nenhuma e torce o caminho para a direita. Pouco adiante vê um homem a cavalo que traz na cabeça uma coisa que reluz como se fosse de ouro, e se volta a Sancho com um provérbio: não há refrão que não seja verdadeiro, e "onde uma porta se fecha, outra se abre". Se a noite anterior lhes fechou uma aventura, enganando-os com os pisões, agora lhes abre de par em par outra, melhor e mais certa, e se ele errar a entrada a culpa será só sua, sem poder dá-la à pouca notícia de pisões nem à escuridão da noite. Quem vem é o que traz na cabeça o elmo de Mambrino, sobre o qual fez o juramento que Sancho sabe. O escudeiro pede que olhe bem o que diz e melhor o que faz, que não queria que fossem outros pisões a acabar de pisoteá-lo o juízo; o amo rebate com um "que vai de elmo a pisões?" e pergunta:

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Capítulo XXII: Os galeotes

Resumo do capítulo

Conta Cide Hamete Benengeli, autor arábigo e manchego, que Dom Quixote viu vir pelo caminho uns doze homens a pé, ensartados como contas numa grande cadeia de ferro pelos pescoços e todos com algemas nas mãos; com eles, dois homens a cavalo, com escopetas de roda, e dois a pé, com dardos e espadas. Sancho Pança os reconhece logo: é cadeia de galeotes, gente forçada do rei que vai às galés. O fidalgo estranha que o rei faça força a alguém e conclui que a gente, "ainda que os levem, vai por força e não por vontade"; é aí que se encaixa a execução de seu ofício, desfazer forças e socorrer os miseráveis. Sancho adverte que a justiça, que é o mesmo rei, não faz força nem agravo a semelhante gente, castiga-os em pena dos delitos. O fidalgo pede aos guardas, com cortesia, que lhe digam a causa de cada um; a primeira guarda responde que são galeotes de Sua Majestade e que não há mais que dizer, a outra lhe dá licença de perguntar aos próprios, que dirão se quiserem, e querem, porque é gente que tem gosto em fazer e dizer velhacarias.

O primeiro vai por enamorado: amou tanto uma cesta de roupa branca, e tanto a abraçou, que só a justiça lha tirou à força; em flagrante, sem tormento, cem açoites e mais três de gurapas, que são galés. O segundo, triste e calado, vai "por canário", e explica a guarda: cantar na ânsia é confessar no tormento; era ladrão de bestas, confessou, e os outros ladrões o maltratam por não ter tido ânimo de dizer não, porque dizem que tantas letras tem um não como um sim. O terceiro vai por cinco anos por lhe faltarem dez ducados, e rejeita a oferta de vinte de dom Quixote como oferta de quem tem dinheiro no meio do golfo e se morre de fome sem onde comprar; se os tivesse a tempo, teria untado a pena do escrivão e avivado o engenho do procurador, e estaria na praça de Zocodover, e não ali, atrelado como galgo. O quarto é um velho de rosto venerável, de barba branca até o peito, que chora e não responde; o quinto o explica: quatro anos por alcoviteiro, e por ter pontas e colar de feiticeiro. Dom Quixote sai em defesa do ofício, que é de discretos e necessário à república bem ordenada, e que só gente bem nascida o devia exercer, com um examinador como há para os corretores de lonja; o que o aflige é o título de feiticeiro, mas diz que feitiços não há que forcem a vontade, porque nosso alvedrio é livre. O velho diz que de feiticeiro não teve culpa, de alcoviteiro não pôde negar, e nunca pensou fazer mal: a intenção era que todo o mundo se folgasse e vivesse em paz. Sancho, compadecido, lhe dá um real de a quatro de esmola. O sexto, em hábito de estudante, conta com galhardia que se burlou demais de duas primas-irmãs e de duas irmãs que não eram suas, e a parentela cresceu de modo tão intricado que nenhum diabo a declara; provou-se tudo, faltou favor e dinheiro, sentenciaram-no a seis anos de galés, consentiu: é castigo de sua culpa, é moço, dure a vida.

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Capítulo XXIII: A maleta na serra

Resumo do capítulo

Malparado, Dom Quixote diz a Sancho Pança que sempre ouviu que fazer bem a vilões é deitar água no mar, e que, se tivesse acreditado no escudeiro, teria evitado o desgosto. Sancho responde que o amo escarmentará tanto quanto ele é turco, mas que lhe peça de novo o conselho, porque com a Santa Irmandade não se usa cavalaria, e já lhe parece que as setas dela lhe zunem aos ouvidos. O fidalgo o chama de naturalmente covarde e cede por essa vez, com uma condição: que Sancho jamais, em vida nem em morte, diga a ninguém que ele se retirou do perigo de medo, e não por acolher os rogos do escudeiro, porque nesse caso o desmente desde já e para sempre; só de pensar em retirar-se, diz, está pronto a ficar e esperar não só a Irmandade, mas todos os irmãos e irmandades do mundo, até as doze tribos de Israel e os sete Macabeus. Sancho lhe responde:

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Capítulo XXIV: O Esfarrapado e Cardênio

Resumo do capítulo

O Roto da Má Figura agradece a Dom Quixote a cortesia, sem ter com que pagar além de bons desejos. O fidalgo responde que os seus são de servi-lo, tanto que tinha decidido não sair daquelas serras até achá-lo e saber se a estranheza de sua vida tinha remédio, e que, se a desventura fosse das que fecham as portas a todo consolo, o ajudaria a chorá-la.

A oferta não depende de saber a causa: ainda é consolo, nas desgraças, achar quem se doa delas. Ele a sela com um juramento pela ordem de cavalaria e pede só que o outro diga quem é e por que vive entre soledades como bruto animal. A resposta é do corpo: o Roto o olha, olha de novo e pede de comer.

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