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Dom Quixote · Primeira Parte

O Curioso Impertinente

Resumo da parte

Na estalagem onde dom Quixote foi manteado, o padre lê em voz alta a novela intercalada de um marido que pede ao melhor amigo que lhe prove a virtude da mulher, e a história acaba em três mortes. Enquanto isso o fidalgo, no quarto ao lado, sonha uma batalha e fura odres de vinho, e logo chegam dom Fernando e Luscinda, e a farsa da princesa Micomicona se vê diante de verdades que não se deixam encenar. O capítulo XXXVII fecha com a chegada de um cativo e de uma moura que se diz cristã, e com o começo do discurso das armas.

Capítulo XXXII: Os livros do estalajadeiro

Resumo do capítulo

A comitiva chega à estalagem no dia seguinte, e Sancho Pança, para quem ela é espanto e assombro, não consegue evitá-la. Dom Quixote pede uma cama melhor que a da vez passada, a estalajadeira promete uma de príncipes se ele pagar melhor, e ele se deita no mesmo cubículo de antes, quebrantado e falto de juízo. Mal a porta se fecha, ela agarra o barbeiro pela barba e exige a cauda de boi que emprestou para o disfarce, porque o pente do marido, que ela pendurava nela, anda pelo chão. O padre e o barbeiro desistem da farsa: o padre manda devolver a cauda, que já não é precisa, e o barbeiro deve contar a dom Quixote que, depois que os ladrões galeotes o despojaram, fugiu para ali, e que a princesa o mandou adiante para avisar o seu reino de que traz consigo o libertador de todos. À mesa, com o estalajadeiro, a mulher, a filha, Maritornes e os viajantes, falam da estranha loucura do fidalgo, e o padre explica que os livros de cavalarias lhe viraram o juízo. O estalajadeiro não vê como: tem ali dois ou três desses livros, que lhe deram vida e a muitos outros, porque no tempo da sega os segadores se juntam, um deles lê, e mais de trinta o escutam com tanto gosto que lhes tira mil cãs. A mulher diz que só tem bom rato em casa quando ele escuta, tão embevecido que esquece de brigar; Maritornes gosta da dama debaixo da laranjeira, abraçada ao cavaleiro, com uma dona de companhia fazendo a guarda, morta de inveja; a filha, que não gosta das pancadas de que o pai gosta, chora de compaixão com as lamentações dos cavaleiros ausentes de suas damas, e acha que as damas cruéis, que deixam um homem honrado morrer ou enlouquecer, deviam casar com ele, que ele não quer outra coisa. A mãe a manda calar, que moças não falam tanto.

Análise

O padre pede os livros. O estalajadeiro tira de um quarto uma maleta velha trancada por uma correntinha, e acha três volumes grandes e uns papéis manuscritos: Dom Cirongílio da Trácia, Felixmarte de Hircânia e a História do Grande Capitão Gonzalo Hernández de Córdoba, com a vida de Diego García de Paredes. Ao ler os dois primeiros títulos, o padre diz que ali faltam a ama do amigo e a sobrinha, e o barbeiro responde que também sabe levá-los ao curral ou à lareira, onde o fogo está bom. O estalajadeiro reclama que seus livros não são heréticos nem flemáticos (o barbeiro corrige: cismáticos) e que, se é para queimar, se queime o do Grande Capitão e o de Diego García, porque antes deixará queimar um filho que qualquer outro. O padre responde que os dois primeiros são mentirosos e cheios de disparates, enquanto o do Grande Capitão é história verdadeira, e conta que Diego García detinha com um dedo uma roda de moinho na metade da fúria e, posto com um montante na entrada de uma ponte, deteve um exército inteiro. O estalajadeiro ri: deter uma roda de moinho! Que o padre leia o que fez Felixmarte, que de um revés partiu cinco gigantes pela cintura como se fossem de fava, e o que fez Dom Cirongílio, que se atirou sobre uma serpente de fogo saída do rio, a estrangulou até ela o levar ao fundo, a um palácio e um jardim onde a serpente virou um velho que lhe disse tanta coisa que não há mais o que ouvir. Doroteia diz baixinho a Cardênio que pouco falta ao hóspede para fazer a segunda parte de dom Quixote, e Cardênio concorda: ele tem por certo que tudo o que os livros contam passou ao pé da letra. O padre insiste que nunca existiram Felixmarte, Cirongílio nem cavaleiros semelhantes, que tudo é composição e ficção de engenhos ociosos para entreter o tempo, como entretém os segadores. O estalajadeiro não cede:

¡Como si yo no supiese cuántas son cinco y adónde me aprieta el zapato! [...] estando impreso con licencia de los señores del Consejo Real, como si ellos fueran gente que habían de dejar imprimir tanta mentira junta, como se eu não soubesse quantas são cinco e onde me aperta o sapato! [...] estando impresso com licença dos senhores do Conselho Real, como se eles fossem gente que havia de deixar imprimir tanta mentira junta.

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Capítulo XXXIII: A aposta de Anselmo

Resumo do capítulo

O padre lê a novela em voz alta, e o capítulo é inteiro dela. Em Florença vivem Anselmo e Lotário, dois cavaleiros ricos e principais, solteiros, da mesma idade e dos mesmos costumes, tão amigos que todos os chamam "os dois amigos". Anselmo se inclina mais aos passatempos amorosos, Lotário aos da caça, mas cada um deixa o seu gosto pelo do outro, e as vontades andam tão juntas que nenhum relógio bem acertado andaria assim. Anselmo se apaixona por uma donzela principal da cidade, Camila, e pede a mão dela aos pais com o parecer de Lotário, sem o qual nada faz; é Lotário quem leva a embaixada e conclui o negócio ao gosto do amigo. Passadas as festas do casamento, Lotário começa a descuidar com cuidado das visitas: acha que, entre amigos casados, as casas não se visitam como quando eram solteiros, porque é tão delicada a honra do casado que se pode ofender até dos irmãos, quanto mais dos amigos. Anselmo nota a remissão e se queixa: se soubesse que casar o privaria da conversa de sempre, nunca o teria feito, e não deve Lotário deixar perder, por afetar circunspeção, o nome dos dois amigos. Lotário responde com tanta prudência que ficam de acordo em dois dias por semana e nas festas. Mesmo assim, ele os encurta, por zelo da honra do amigo, que estima mais que a sua, e para que o vulgo ocioso e os olhos maliciosos não vejam mal a entrada de um moço rico em casa de mulher tão formosa.

Análise

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Capítulo XXXIV: A queda de Camila e o embuste da adaga

Resumo do capítulo

O bilhete de Camila a Anselmo diz que parece mal o exército sem general, o castelo sem castelão e a mulher casada e moça sem o marido, e que, se ele não vier logo, irá se entreter na casa dos pais, ainda que deixe a dele sem guarda, porque a que ele deixou cuida mais do seu gosto que do dele. Anselmo entende que Lotário já começou e que Camila respondeu como ele desejava; alegre, manda dizer que ela não mude de casa, que ele volta logo. Camila, sem poder ficar nem ir, fica, para não dar o que dizer aos criados, e resolve resistir calando, para não pôr o marido em desavença. Lotário, que carrega a mão a cada dia, vê a firmeza dela vacilar e aperta o cerco com louvores à sua formosura, porque nada rende tão depressa as torres da vaidade das belas como a própria vaidade posta na língua da adulação. Chora, roga, oferece, adula, porfia e finge, e triunfa.

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Capítulo XXXV: Os odres de vinho e o fim da novela

Resumo do capítulo

Falta pouco para o fim da novela quando Sancho Pança sai do cubículo onde dorme o amo, alvoroçado, gritando por socorro:

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Capítulo XXXVI: Dom Fernando, Luscinda e Doroteia

Resumo do capítulo

O estalajadeiro, à porta, avisa que vem uma bela tropa de hóspedes: quatro homens a cavalo, à gineta, com lanças e adargas e máscaras negras, e uma mulher de branco numa cadeira de montar, também coberta, com dois lacaios a pé. Doroteia cobre o rosto e Cardênio se esconde no aposento de dom Quixote. Os quatro apeiam a mulher e a sentam numa cadeira na entrada desse aposento; ninguém tirou a máscara nem disse palavra, e ela só suspira, abatida como doente. O padre, curioso, pergunta a um lacaio quem são: não sabe, só que o que a tomou nos braços é principal, porque os outros lhe têm respeito e fazem o que ele manda; a senhora geme sem parar, e os lacaios supõem que vai forçada, talvez a um convento, pois seu hábito é de monja. Doroteia, movida de compaixão, oferece-se para servi-la, e quem responde é o cavaleiro embuçado: que não se canse, ela não agradece nada e mente por costume. A moça diz que jamais mentiu, e que por ser tão verdadeira é que está em tanta desventura, e que ele próprio pode dar testemunho, pois a sua pura verdade o faz falso e mentiroso. Cardênio, que está do outro lado da porta, reconhece a voz e grita. Ela se levanta sobressaltada para entrar no aposento, o cavaleiro a detém e lhe cai o tafetá que lhe cobria o rosto, e aparece uma formosura incomparável; ocupado em segurá-la, o cavaleiro também deixa cair o embuço, e Doroteia, que abraçava a senhora, vê que quem a tem presa é seu esposo dom Fernando, e cai desmaiada nos braços do barbeiro. O padre lhe tira o embuço para lhe lançar água ao rosto, e dom Fernando a conhece e fica como morto, sem soltar Luscinda, que conheceu Cardênio no suspiro. Cardênio, ouvindo o ai de Doroteia e crendo que era Luscinda, sai espavorido e dá com dom Fernando abraçado a ela. Todos se calam e se olham, Doroteia a dom Fernando, dom Fernando a Cardênio, Cardênio a Luscinda e Luscinda a Cardênio. Quem rompe o silêncio é Luscinda:

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Capítulo XXXVII: Micomicona mantida e a chegada do cativo

Resumo do capítulo

Sancho Pança escuta tudo com dor no ânimo: a esperança do título lhe vai em fumaça, a princesa Micomicona virou Doroteia, o gigante virou dom Fernando, e o amo dorme a sono solto, descuidado de tudo. Doroteia, Cardênio e Luscinda mal acreditam no bem que têm, dom Fernando agradece ao céu tê-lo tirado do labirinto em que quase perdeu o crédito e a alma, e a estalajadeira jubila com a promessa de Cardênio e do padre de lhe pagarem o dano. O escudeiro entra, de rosto melancólico, no quarto do amo, que acabou de despertar, e lhe diz que pode dormir quanto quiser, sem cuidado de matar gigante nem de restituir o reino à princesa, que já está tudo feito. O fidalgo responde que acredita, porque teve com o gigante a mais descomunal batalha de sua vida, e de um revés lhe derrubou a cabeça, e o sangue corria como água. Sancho o corrige: o gigante morto é um odre furado, e o sangue, seis arrobas de vinho tinto; e a princesa virou uma dama particular, chamada Doroteia. Dom Quixote não se espanta, pois já disse que tudo naquela estalagem é encantamento. Sancho responde:

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