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Dom Quixote · Primeira Parte

As armas e o cativo

Resumo da parte

O fidalgo que ainda há pouco decepava odres como a gigantes discursa sobre a guerra com um juízo que os ouvintes lamentam, e logo a palavra passa a um soldado verdadeiro, que promete contar uma vida e não uma invenção. A estalagem, que era palco de burlas, vira palco de reconhecimentos: um pai e três filhos que escolheram três caminhos, uma moura que escreve a um cativo que nunca viu, dois irmãos que se acham, uma moça que reconhece o cantor que a seguiu a pé. Dom Quixote assiste calado, toma tudo por quimera de cavalaria, e na mesma noite fica pendurado por uma burla.

Capítulo XXXVIII: O soldado mais pobre que o estudante

Resumo do capítulo

Dom Quixote continua à mesa o discurso que começara no capítulo anterior, com o fim da guerra e a pobreza do estudante. Agora quer saber se o soldado é mais rico, e a resposta que dá é que não há quem seja mais pobre. Fala com método, como quem põe em balança o trabalho e o prêmio de cada ofício para decidir qual merece mais, e começa pela paga do soldado:

Análise

no hay ninguno más pobre en la misma pobreza, porque está atenido a la miseria de su paga, que viene o tarde o nunca, o a lo que garbeare por sus manos, con notable peligro de su vida y de su conciencia, não há nenhum mais pobre na mesma pobreza, porque fica à mercê da miséria de sua paga, que vem tarde ou nunca, ou do que afanar com as próprias mãos, com notável perigo de sua vida e de sua consciência.

Dom Quixote pesa trabalho contra prêmio e concede ao adversário o seu argumento mais forte: é mais fácil pagar dois mil letrados com ofícios do que trinta mil soldados com a fazenda do senhor. Responde que essa impossibilidade reforça a sua razão e deixa o ponto, que chama de labirinto de saída difícil. Raciocina com ordem, e à mesa ninguém o contradiz.

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Capítulo XXXIX: O cativo, o pai e Lepanto

Resumo do capítulo

Com o silêncio que pediu, o cativo começa em primeira pessoa. Sua linhagem nasce nas Montanhas de Leão, mais favorecida pela natureza que pela fortuna, e o pai, tido por rico na estreiteza daqueles povoados, o seria de verdade se soubesse conservar a fazenda como sabia gastá-la. A prodigalidade lhe vinha de ter sido soldado na juventude, escola onde o mesquinho se faz franco e o franco pródigo. Tinha três filhos varões, todos em idade de escolher estado, e, como dizia não poder ir-se à mão contra a própria condição, quis privar-se do instrumento do gasto, a fazenda, sem a qual o próprio Alexandre pareceria estreito. Chama os três a sós e propõe: dividirá os bens em quatro partes, dará uma a cada filho e guardará a quarta para viver, e cada um seguirá um dos caminhos de um refrão da Espanha, que ele louva por serem os refrães sentenças breves tiradas da longa e discreta experiência:

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Capítulo XL: A janela da cana e a carta de Zoraida

Resumo do capítulo

O cavalheiro irmão de Aguilar recita os dois sonetos, o da Goleta e o do forte, que dão aos mortos a fama que o mundo concede e a glória que o céu dá. O cativo retoma o conto. Os turcos desmantelam a Goleta e a armada volta a Constantinopla; meses depois morre o amo, Uchalí, e seus cativos, uns três mil, se repartem por testamento entre o Grão-Senhor e os renegados. O cativo cabe a um renegado veneziano, Azán Agá, o mais cruel que jamais se viu, que chega a rei de Argel e o leva consigo. Ele vai algo contente, por estar mais perto da Espanha, e porque nunca o abandonou a esperança de liberdade: quando uma tentativa falhava, fingia e buscava outra, ainda que fraca. Fica preso no banho, a casa onde os turcos encerram os cativos cristãos, entre os que são de resgate: por mais que dissesse pouca fazenda, soube-se que era capitão, e puseram-lhe uma cadeia mais por sinal de resgate que para guardá-lo. A fome e a nudez fatigavam, mas nada tanto quanto ver e ouvir as crueldades do amo, que a cada dia enforcava um, empalava outro, cortava as orelhas de outro, por tão pouca ocasião, e tão sem ela, que os turcos viam que o fazia só por fazer, por ser natural condição sua ser homicida de todo o gênero humano. Só se deu bem com ele um soldado:

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Capítulo XLI: A fuga de Zoraida e a volta à Espanha

Resumo do capítulo

Em menos de quinze dias o renegado compra uma boa barca, para mais de trinta pessoas, e para dar cor ao negócio faz duas ou três viagens a Sargel com o sócio tagarino, dando fundo sempre numa enseada a dois tiros de besta do jardim de Zoraida, onde ensaia de brincadeira o que pensa fazer de verdade. Não consegue falar com ela, porque as mouras não se deixam ver por mouro nem turco, a menos que o marido ou o pai o mande, e só aos cativos cristãos se deixam tratar. O cativo, por sua parte, escolhe doze espanhóis valentes de remo e lhes diz só que na primeira sexta à tarde saiam um a um para o jardim de Agi Morato.

Faltava avisar Zoraida de como estavam as coisas, e ele vai ao jardim sob pretexto de colher ervas para salada. Encontra primeiro o pai, que lhe fala na língua que se acha por toda a Berbéria, mistura de todas as línguas, e a seguir sai a bela Zoraida, tão adornada que mais pérolas lhe pendiam do pescoço, das orelhas e dos cabelos que cabelos tinha na cabeça. Ela lhe pergunta se é cavaleiro e por que não se resgata, e responde que, se ele fosse do pai dela, o pai não o largaria nem pelo dobro, porque os cristãos sempre mentem e se fazem pobres para enganar os mouros. Ele lhe diz que parte no dia seguinte e que, não sendo casado, deu a palavra de casar-se ao chegar, e que a dama é tão formosa que, para dizer a verdade, parece-lhe muito; o pai, que serve de intérprete, ri de verdade.

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Capítulo XLII: O ouvidor que é o irmão

Resumo do capítulo

O cativo se cala, e dom Fernando diz que o modo de contar iguala a estranheza do caso, e que, ainda que o dia seguinte os achasse no mesmo conto, gostariam de que recomeçasse. Todos se oferecem a servi-lo, e dom Fernando propõe que o marquês, seu irmão, seja padrinho do batismo de Zoraida, e que ele o acomodará de modo que entre em sua terra com a autoridade e o conforto que sua pessoa merece. O cativo agradece com cortesia e não aceita nenhuma das ofertas. Ao cerrar da noite chega à estalagem um coche, com homens a cavalo; um deles pede pouso, a estalajadeira responde que não há um palmo livre, e o homem retruca que para o senhor ouvidor não há de faltar. A mulher se turba com o título e oferece o quarto dela e do marido. O ouvidor, que no traje mostra o ofício, com a roupa longa de mangas arrocadas, traz pela mão uma donzela de uns dezesseis anos, vestida de viagem, tão bizarra e formosa que todos se admiram. Dom Quixote, ao vê-los entrar, os recebe:

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Capítulo XLIII: O moço de mulas e a mão atada

Resumo do capítulo

A voz canta que é marinheiro de amor e navega sem esperança de chegar a porto, seguindo uma estrela que vê de longe e que as nuvens do recato e da honestidade lhe encobrem quando mais procura vê-la. Doroteia acha que dona Clara não deve perder a melhor voz que talvez tenha ouvido na vida e a acorda; Clara, mal escuta dois versos, é tomada por um tremor tão estranho como o de uma quartã, abraça-se a ela e pergunta para que a despertou, pois o maior bem que a fortuna lhe podia fazer era tê-la deixado de olhos e ouvidos fechados para não ver nem ouvir esse desditoso músico. Doroteia lhe diz que, segundo dizem, quem canta é um moço de mulas:

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