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Dom Quixote · Segunda Parte

O livro impresso

Resumo da parte

Dez anos depois do livro de 1605, e pouco mais de um mês depois da volta do fidalgo à aldeia, o livro já existe dentro do livro. No prólogo, Cervantes responde a um Quixote apócrifo sem nomear o rival, e nos capítulos seguintes Dom Quixote e Sancho Pança descobrem, pela boca do bacharel Sansão Carrasco, que a Primeira Parte circula impressa, com falhas que os leitores já anotaram: o jumento que reaparece sem explicação, a novela fora de lugar, os cem escudos esquecidos. O padre e o barbeiro põem à prova a cura do fidalgo e a veem desmentir-se em minutos; o bacharel, que combina com eles o plano de fazê-lo sair de novo, finge empurrá-lo para a estrada. Sancho já não é o escudeiro de uma promessa: discute salário com o amo e o futuro da filha com Teresa. A parte termina no Toboso, onde ele, sem saber onde mora Dulcineia del Toboso, faz de uma lavradora a dama e passa a fabricar a ilusão que antes só via de fora. A pergunta que o livro deixa é quem controla a ficção quando todos a leram.

Prólogo

Resumo do capítulo

Cervantes abre o volume de 1615 falando a um leitor, "ilustre ou plebeu", que espera dele vinganças e vitupérios contra o autor do segundo Dom Quixote, aquele que, diz, "se engendrou em Tordesilhas e nasceu em Tarragona". É o Quixote apócrifo de 1614, assinado por Avellaneda, que Cervantes nunca nomeia. Recusa ao leitor o gosto da briga e conta o que de fato o feriu: ser chamado de velho e maneta, de invejoso, e de autor de novelas mais satíricas que exemplares. Sobe de tom só ao recusar o tom do rival:

Análise

Quisieras tú que lo diera del asno, del mentecato y del atrevido, pero no me pasa por el pensamiento: castíguele su pecado, con su pan se lo coma y allá se lo haya, gostarias que eu o tratasse de asno, de mentecapto e de atrevido, mas isso nem me passa pelo pensamento: que o seu pecado o castigue, que coma o seu pão e se arranje.

Cervantes enumera o insulto que diz não ir usar e, ao enumerá-lo, usa. O leitor recebe a briga que esperava e a recusa dela na mesma frase, e o rival fica entregue ao próprio pecado. Duas leituras: serenidade de quem se julga acima do assunto, ou golpe mais fundo, porque não responder reduz o apócrifo a um autor que nem merece resposta.

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Capítulo I: O fidalgo visitado

Resumo do capítulo

Cide Hamete Benengeli, o historiador que Cervantes finge seguir, conta que o padre e o barbeiro ficaram quase um mês sem ver Dom Quixote, para não lhe reavivar as lembranças, mas visitaram a sobrinha e a criada, pedindo-lhes que o tratassem com comidas boas para o coração e o cérebro, de onde, a juízo dos dois, vinha toda a desgraça. As mulheres dizem que o fidalgo dá a cada hora sinais de juízo inteiro, e os visitantes se alegram, convencidos de que acertaram ao trazê-lo encantado no carro de bois, como se contou no último capítulo da Primeira Parte. Decidem experimentar a melhora e combinam de não tocar na cavalaria andante, para não descoser os pontos da ferida, tão tenros.

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Capítulo II: A porta e a pergunta sobre a fama

Resumo do capítulo

Os gritos que o padre, o barbeiro e dom Quixote ouviram vinham da porta: a sobrinha e a criada de dom Quixote barram a entrada de Sancho Pança, acusando-o de ser quem "destrai e sonsaca" o patrão e o leva por esses andurriais. Sancho devolve a acusação: foi o amo quem o tirou de casa com engodos, prometendo-lhe uma ínsula, que ele ainda espera. A sobrinha pergunta o que é uma ínsula, se por acaso é coisa de comer, e Sancho responde:

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Capítulo III: O bacharel e o livro impresso

Resumo do capítulo

Dom Quixote espera o bacharel pensativo. Não se persuade de que já haja história sua, "pois ainda não estava seco na lâmina da espada o sangue dos inimigos que matara", e imagina que algum sábio, amigo ou inimigo, a imprimiu por arte de encantamento: se amigo, para engrandecê-la; se inimigo, para rebaixá-la, ainda que nunca se tenha escrito façanha de escudeiros. O consolo que acha é que, sendo de cavaleiro andante, a história há de ser grandiloqua, alta, insigne, magnífica e verdadeira; o desconsolo é que o autor seja mouro, a julgar por Cide, e de mouros não se espera verdade alguma, porque todos são embelecadores, falsários e quimeristas. Teme que seus amores com Dulcineia del Toboso tenham sido tratados com alguma indecência, em prejuízo da honestidade dela, e deseja que a história declare a fidelidade e o decoro que sempre lhe guardou, desprezando rainhas, imperatrizes e donzelas.

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Capítulo IV: As contas de Sancho e a terceira saída

Resumo do capítulo

Sancho volta à casa de Dom Quixote e responde às dúvidas do bacharel sobre o jumento. Conta que, na noite em que fugiam da Santa Irmandade rumo à Sierra Morena, depois dos galeotes e do morto de Segóvia, ele dormiu tão pesado que alguém lhe armou quatro estacas sob a albarda e lhe tirou o ruço de baixo sem que sentisse; acordou no chão, chorou e fez uma lamentação que, se o autor não pôs, "pode fazer conta de que não pôs coisa boa". Dom Quixote lembra de Sacripante, a quem o ladrão Brunelo fez o mesmo com o cavalo no cerco de Albraca. Dias depois, voltando com a princesa Micomicona, Sancho reconheceu o asno sob Ginés de Pasamonte, vestido de cigano. Sansão Carrasco aponta o que lhe interessa:

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Capítulo V: Sancho e Teresa

Resumo do capítulo

O capítulo abre com uma advertência do tradutor do manuscrito árabe: ele o julga apócrifo, porque nele Sancho fala com um estilo e diz coisas sutis demais para o seu curto engenho, mas não quis deixar de traduzi-lo, por cumprir o que o ofício lhe devia. Sancho Pança chega em casa tão alegre que Teresa Pança lhe vê a alegria a tiro de besta. Ele explica, a seu modo enrolado, que estaria melhor se Deus quisesse que não estivesse tão contente: decidiu voltar a servir ao amo, que quer sair pela terceira vez, porque a necessidade o empurra e a esperança de achar outros cem escudos o alegra, mas lhe pesa deixar a mulher e os filhos. Teresa nota que, desde que Sancho virou "membro de cavaleiro andante", fala de modo tão rodeado que ninguém o entende. Ele manda dobrar a ração do ruço, rever a albarda e as jarcias, porque vão rodar o mundo e lidar com gigantes, endríagos e vestiglos, e Teresa responde que escudeiros andantes não comem o pão de graça.

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Capítulo VI: A sobrinha, a criada e as linhagens

Resumo do capítulo

Enquanto Sancho e Teresa discutem o casamento de Mari Sancha, a sobrinha e a criada de Dom Quixote percebem por mil sinais que o tio quer sair pela terceira vez, e tentam por todos os meios afastá-lo da ideia, tudo em vão. A criada ameaça queixar-se a Deus e ao rei; dom Quixote responde que, se fosse rei, escusaria responder a tantos memoriais impertinentes que lhe dão, e que um dos maiores trabalhos dos reis é estar obrigado a escutar e responder a todos. A criada pergunta se não há cavaleiros na corte de Sua Majestade, e por que ele não seria um dos que servem a seu rei de pé quedo; ele separa as duas ordens: os cortesãos percorrem o mundo olhando um mapa, sem pagar um centavo nem sentir calor ou frio, enquanto os cavaleiros andantes verdadeiros medem a terra com os próprios pés, ao sol, ao frio e ao vento, conhecem os inimigos em seu ser e não pintados e não olham as minúcias das leis do desafio. O bom cavaleiro andante, diz, não se espanta com dez gigantes de cabeça nas nuvens, e deve acometê-los de coração intrépido. Conclui que não há príncipe que não devesse estimar mais essa espécie, que já foi a saúde de um reino, ou de muitos.

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Capítulo VII: O salário que não existe

Resumo do capítulo

A criada, ao ver Sancho trancar-se com o amo, dá-se conta do negócio e corre atrás do bacharel Sansão Carrasco, por ser bem-falante e amigo fresco do patrão, para que o dissuada. Encontra-o passeando no pátio, joga-se a seus pés e conta que o amo "sai", pela porta da loucura: é a terceira saída, e recorda que a primeira vez o devolveram atravessado num jumento, moído a pau, e a segunda num carro de bois, enjaulado, tão magro e amarelo que a mãe não o conheceria, e que ela gastou mais de seiscentos ovos para trazê-lo de volta a si. Carrasco a manda para casa preparar-lhe um almoço quente e rezar a oração de Santa Apolônia (que é para os dentes, e ela retruca que o mal do amo é dos cascos), e vai procurar o padre. O bacharel já tem um plano, que o narrador só revela no fim do capítulo: tudo foi combinado com o padre e o barbeiro para persuadir o fidalgo a sair de novo.

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Capítulo VIII: A caminho do Toboso, fama e santidade

Resumo do capítulo

Cide Hamete Benengeli abre o capítulo bendizendo três vezes a Alá, por ver os dois já em campanha, e pede aos leitores que esqueçam as cavalarias passadas do engenhoso fidalgo e ponham os olhos nas que estão por vir, que "começam no caminho do Toboso como as outras começaram nos campos de Montiel". Sozinhos desde que Carrasco se afastou, Rocinante relincha e o ruço suspira, e embora os suspiros e zurros do ruço sejam mais que os relinchos do rocim, Sancho tira que a sua ventura há de passar a do amo, por não se sabe que astrologia judiciária, que o narrador diz não ter declarado. Dom Quixote quer ir ao Toboso antes de qualquer outra aventura, para tomar a bênção e a licença de Dulcineia del Toboso, porque nada faz mais valentes os cavaleiros andantes do que se verem favorecidos por suas damas. Sancho Pança observa que será difícil falar com ela, a não ser desde as bardas do curral por onde a viu da primeira vez, quando lhe levou a carta; dom Quixote se escandaliza: não eram bardas de curral, eram galerias, corredores ou lonjas de ricos palácios reais. Sancho teima: bardas lhe pareceram, e o sol de Dulcineia não estava claro porque o pó do trigo que ela peneirava lhe fazia nuvem diante do rosto. O amo responde que não é possível que Dulcineia peneirasse trigo, ofício que não cabe às pessoas principais, e dá a explicação:

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Capítulo IX: A noite no Toboso

Resumo do capítulo

À meia-noite, entram no Toboso, que dorme num silêncio só quebrado por latidos, zurros, grunhidos e miados. A noite é entreclara, e Sancho queria que fosse de todo escura, para achar na escuridão desculpa de sua sandice. Dom Quixote manda que o guie ao palácio de Dulcineia del Toboso; Sancho Pança responde que a casa onde a viu era pequena, e o amo acomoda o fato à sua crença: devia estar retirada num apartamento de seu alcácer, solazando-se com as donzelas. Sancho objeta que não é hora de bater à porta, como fazem os amancebados, e o amo, que enxerga um grande vulto, guia: depois de uns duzentos passos, o vulto é uma torre, e o edifício não é alcácer, mas a igreja principal. "Com a igreja demos, Sancho." Sancho responde que não é bom sinal andar por cemitérios àquela hora e que ele havia dito que a casa da senhora fica em beco sem saída; dom Quixote o chama de mentecapto e pergunta onde achou palácios reais edificados em becos sem saída, e Sancho: "em cada terra, seu uso". Pede que o deixe procurar sozinho pelas ruas e travessas, e o amo lhe pede respeito com as coisas de sua dama. Aí Sancho solta o que mais incomoda: como pode o amo querer que ele, que viu a casa uma única vez, a ache à meia-noite, quando o amo, que a deve ter visto milhares de vezes, não a acha?

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Capítulo X: Sancho encanta Dulcineia

Resumo do capítulo

Cide Hamete avisa que preferiria passar este capítulo em silêncio, por medo de não ser acreditado, porque as loucuras de dom Quixote chegam aqui ao termo das maiores que se podem imaginar e passam dois tiros de besta além delas; mas escreveu tal como foram, sem acrescentar nem tirar um átomo, porque "a verdade adelgaça e não quebra, e anda sempre sobre a mentira como o azeite sobre a água". Dom Quixote, emboscado na floresta perto do Toboso, manda Sancho Pança à cidade com a incumbência de falar a Dulcineia del Toboso em seu nome e pedir-lhe que se deixe ver pelo cavaleiro cativo e lhe dê a bênção. Dá-lhe instruções de observador amoroso: reparar se ela muda de cor ao ouvir seu nome, se se inquieta, se repete a resposta duas ou três vezes, se leva a mão ao cabelo, porque os movimentos exteriores dos amantes são "certíssimos correios" do que se passa dentro. Sancho tranquiliza-o com provérbios e parte.

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Leitura da parte

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