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Dom Quixote · Segunda Parte

Os duques e o Cravelenho

Resumo da parte

Os duques leram a Primeira Parte, e é essa leitura que decide o que acontece no castelo: eles sabem o que esperar do fidalgo e de Sancho e armam, uma por uma, as aventuras que os livros lhes ensinaram a admirar. Neste trecho dom Quixote responde ao clérigo que o despreza, Sancho confessa à duquesa que inventou o encanto de Dulcineia e ouve dela que enganado foi ele, e a farsa dos duques (Merlin, a Aia Dolorida, o cavalo de pau) obriga o escudeiro a se açoitar por uma mentira que era sua. O bloco fecha com o voo que não saiu do jardim e o pacto de dois homens que se pedem, um ao outro, que creiam no que não viram.

Capítulo XXXII: A resposta ao eclesiástico

Resumo do capítulo

Dom Quixote se levanta da mesa do duque e da duques, trêmulo dos pés à cabeça "como azougado", e responde ao eclesiástico que o mandou para casa cuidar da mulher e dos filhos. Começa pelas regras do embate: o lugar, a presença dos duques e o respeito ao estado do clérigo lhe atam as mãos do justo enfado, e como as armas dos togados são as mesmas das mulheres, a língua, é com a língua que entra em igual batalha. Reclama que de quem devia esperar bons conselhos recebeu infames vitupérios, porque a reprensão pública e áspera passa dos limites da boa reprensão, que assenta melhor na brandura, e porque ninguém deve chamar mentecapto e tonto a um pecador sem conhecer o pecado. Pergunta que mentecaptice o condena, e com que direito quem se criou na estreiteza de algum pupilado, sem ver mais mundo que o de vinte ou trinta léguas de distrito, se mete de rondão a dar leis à cavalaria e a julgar os cavaleiros andantes. É nesse ponto que responde ao desprezo dos letrados:

Análise

Si me tuvieran por tonto los caballeros, los magníficos, los generosos, los altamente nacidos, tuviéralo por afrenta inreparable; pero de que me tengan por sandio los estudiantes, que nunca entraron ni pisaron las sendas de la caballería, no se me da un ardite: caballero soy y caballero he de morir si place al Altísimo, se me tivessem por tolo os cavaleiros, os magníficos, os generosos, os altamente nascidos, eu o teria por afronta irreparável; mas que me tenham por sandeu os estudantes, que nunca entraram nem pisaram as sendas da cavalaria, não ligo um ardite: cavaleiro sou e cavaleiro hei de morrer, se aprouver ao Altíssimo.

O argumento troca de terreno em relação ao que ele disse ao cônego na Primeira Parte: ali defendia a cavalaria pelo que ela fez dele, aqui nega ao juiz a competência para julgá-la, porque quem nunca pisou a senda não tem como medi-la. Duas leituras: a defesa certeira de quem vê o clérigo falar de coisa que não viveu; ou a saída de quem, acuado, desqualifica o acusador em vez de responder à acusação.

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Capítulo XXXIII: Sancho diante da duquesa

Resumo do capítulo

Sancho Pança não dorme a sesta e vai, por cumprir a palavra, ver a duques, que o faz sentar-se numa cadeira baixa junto a si. Ele, de puro bem-criado, não queria, mas ela manda que se sente como governador e fale como escudeiro, já que por ambas as coisas merece o mesmo banco do Cid Ruy Díaz Campeador. As donzelas e as aias a rodeiam em grande silêncio, e a duquesa, "agora que estamos sós", declara as dúvidas que a história impressa lhe deixou, a primeira das quais é como o bom Sancho, que nunca viu Dulcineia nem levou a carta, esquecida no livro de memória na Serra Morena, se atreveu a fingir a resposta e aquilo de a ter achado peneirando trigo, tudo burla e mentira, e em dano da boa opinião da sem par Dulcineia del Toboso, e tudo "que não vem bem com a qualidade e fidelidade dos bons escudeiros". Sancho se levanta sem responder, com passos quedos, o corpo agachado e o dedo nos lábios, e anda pela sala levantando os dosséis. Só depois, sentado outra vez, diz que agora, vistos os circunstantes, responderá sem temor:

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Capítulo XXXIV: A caçada e o Diabo mensageiro

Resumo do capítulo

O duque e a duques gostam tanto da conversa de Dom Quixote e de Sancho Pança que se confirmam na intenção de lhes pregar burlas que tenham jeito e aparência de aventuras, e tomam por motivo o que o fidalgo contou da gruta de Montesinos para armar uma que seja famosa. O que mais espanta a duquesa é a simplicidade de Sancho, que chegou a crer como verdade infalível que Dulcineia del Toboso está encantada, tendo sido ele mesmo o encantador e o embusteiro do negócio. Dada a ordem aos criados, seis dias depois levam o fidalgo a uma caçada de montaria, com tanto aparato de monteiros e caçadores como levaria um rei coroado. Dão a dom Quixote um traje de monte e a Sancho outro, verde, de finíssimo pano; o fidalgo recusa o seu, dizendo que outro dia há de voltar ao duro exercício das armas e não pode levar consigo guarda-roupas nem despensas, e Sancho aceita o dele com a intenção de vendê-lo na primeira ocasião. No dia, dom Quixote se arma, Sancho se veste e vai, montado em seu ruço, que não quis deixar nem por um cavalo. O fidalgo, de puro cortês e comedido, toma as rédeas do palafrém da duquesa, ainda que o duque não quisesse consentir, e chegam a um bosque entre duas montanhas altíssimas, onde se repartem os postos com grande estrondo, grita e vozearia.

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Capítulo XXXV: Merlin e os três mil açoites

Resumo do capítulo

Ao compasso da agradável música chega um carro dos que chamam triunfais, puxado por seis mulas pardas cobertas de linho branco, cada uma com um "disciplinante de luz" vestido de branco e uma grande tocha de cera acesa, e sobre o carro, doze outros disciplinantes alvos como a neve, todos com suas tochas. Num trono elevado vem sentada uma ninfa vestida de mil véus de tela de prata, com folhas de argentaria de ouro, que a faziam, se não rica, ao menos vistosamente vestida, o rosto coberto por um cendal transparente que deixa ver um formosíssimo rosto de donzela, de dezessete a vinte anos. Junto dela, uma figura de roupa longa e véu negro; quando o carro fica frente a frente com os duques e Dom Quixote, cessa a música, a figura se levanta, afasta a roupa e tira o véu, e descobre ser a própria figura da morte, descarnada e feia, de que o fidalgo recebe pesar, Sancho Pança medo, e os duques algum sobressalto. Essa morte viva, com voz algo dormida e língua pouco desperta, diz em versos ser Merlin, aquele que as histórias dizem ter tido por pai o diabo, "mentira autorizada dos tempos", príncipe da Mágica e arquivo da ciência zoroástrica, que tem grande carinho pelos andantes e, ao ouvir no fundo das cavernas de Dite a voz dolente da bela e sem par Dulcineia del Toboso, soube de seu encantamento e da transformação em rústica aldeã, condoeu-se e, depois de revolver cem mil livros de sua ciência, vem dar o remédio. Dirige-se a dom Quixote, "glória e honra dos que vestem as túnicas de aço e de diamante", e diz a sentença:

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Capítulo XXXVI: A carta de Sancho e a Dolorida

Resumo do capítulo

O duque tem um mordomo de engenho muito burlesco e desenfadado, e é ele quem fez a figura de Merlin, armou o aparato da aventura passada, compôs os versos e fez um pajem representar Dulcineia; agora, com a intervenção dos senhores, ordena outra, de artifício mais gracioso e estranho. No dia seguinte a duques pergunta a Sancho Pança se já começou a penitência pelo desencanto de Dulcineia del Toboso, e ele diz que sim, que à noite deu cinco açoites em si, com a mão. A duquesa responde que isso é dar palmadas, não açoites, e que o sábio Merlin não ficará contente com tanta brandura: será preciso uma disciplina de abrolhos, ou de canelões que se deixem sentir, porque "a letra com sangue entra", e a liberdade de tão grande senhora não se dá por tão baixo preço, e as obras de caridade feitas tíbia e frouxamente não têm mérito nem valem nada. Sancho pede uma disciplina conveniente, desde que não doa demais, porque, ainda que rústico, tem as carnes mais de algodão que de esparto e não é bem que se descrie pelo proveito alheio. Ela lhe promete uma que vá muito ao justo com a ternura de suas carnes, como se fossem suas irmãs próprias.

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Capítulo XXXVII: As aias e os escudeiros

Resumo do capítulo

O duque e a duques se alegram em extremo de ver quão bem Dom Quixote responde ao que tinham em mira, e é então que Sancho Pança diz que não queria que esta senhora aia pusesse algum tropeço à promessa do seu governo, porque ouviu de um boticário toledano que falava como um pintassilgo que, onde intervenham aias, não pode suceder coisa boa. Se todas as aias são enfadonhas e impertinentes, que serão as doloridas, como disseram que é a condessa "Três Saias, ou Três Caudas", que na terra dele saias e caudas, caudas e saias, tudo é um. O fidalgo o manda calar: se esta senhora vem de terras tão longínquas buscá-lo, não deve ser das do boticário, e como é condessa, só servirá de aia, se servir, a rainhas e imperatrizes, que em suas casas são senhorísimas servidas de outras aias. Dona Rodríguez, que estava presente, replica que a duquesa tem aias a seu serviço que poderiam ser condessas se a fortuna quisesse, mas "ali vão leis onde querem reis", e ninguém fale mal das aias, em especial das antigas e donzelas, que ela, ainda que não o seja, bem alcança a vantagem que faz uma aia donzela a uma aia viúva, e quem as tosquiou ficou com a tesoura na mão. Sancho responde que há tanto o que tosquiar nas aias, segundo seu barbeiro, que melhor é não mexer o arroz, ainda que pegue, e dona Rodríguez devolve a acusação à classe dele:

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Capítulo XXXVIII: A história da Aia Dolorida

Resumo do capítulo

Atrás dos tristes músicos entram pelo jardim até doze aias, repartidas em duas fileiras, todas de monjis largos, ao que parece de anascote pisoado, com toucas brancas de fino cânhamo, tão longas que só o debrum do monjil se descobre. Vem depois a condessa Trifaldi, levada pela mão por Trifaldin da Barba Branca, vestida de finíssima baeta negra por frisar, e sua cauda ou saia tem três pontas, sustentadas por três pajens também de luto, o que faz uma "matemática figura" de três ângulos agudos. Todos concluem que por ela se devia chamar a condessa Trifaldi, e o narrador diz:

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Capítulo XXXIX: A sentença de Malambruno

Resumo do capítulo

Tudo o que Sancho Pança diz diverte tanto à duques quanto desespera Dom Quixote, que lhe manda calar, e a Dolorida prossegue: depois de muitas demandas e respostas, como a infanta se manteve sempre em seus treze, sem variar da primeira declaração, o vigário sentenciou a favor de dom Clavijo e lhe entregou Antonomásia por legítima esposa, com tanto enfado da rainha dona Maguncia, mãe da infanta, que dentro de três dias a enterraram. "Deve ter morrido, sem dúvida", diz Sancho, e Trifaldin retruca que em Candaia não se enterram pessoas vivas, mas mortas. Sancho, que já viu enterrar um desmaiado crendo-o morto, acha que a rainha devia ter-se desmaiado antes de morrer, porque com a vida muitas coisas se remedeiam, e que o disparate da infanta não foi tão grande, pois se tivesse casado com um pajem seu o dano seria sem remédio, mas casar com um cavaleiro tão galhardo e entendido, ainda que necedade, não foi tão grande como se pensa, porque, segundo as regras do seu senhor, que está presente e não o deixará mentir:

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Capítulo XL: O cavalo de pau

Resumo do capítulo

O capítulo abre com um agradecimento do narrador a Cide Hamete Benengeli, autor primeiro da história, por contar até as semínimas dela, pintar os pensamentos, descobrir as imaginações, responder às tácitas, aclarar as dúvidas e resolver os argumentos, e termina com um viva a dom Quixote, a Dulcineia, a Sancho Pança. Em seguida Sancho Pança, vendo a Dolorida desmaiada, jura que nunca ouviu nem viu, nem o amo contou, aventura como esta, e se pergunta por que o gigante não achou outro castigo que barbá-las: melhor seria cortar-lhes a metade do nariz, de meio para cima, ainda que falassem fanhoso. Aposta que elas não têm fazenda para pagar a quem as raspe. Uma das doze lhe responde que é verdade, que algumas tomaram o remédio econômico de aplicar emplastros pegajosos ao rosto e arrancá-los de golpe, ficando lisas como fundo de almofariz, e que em Candaia há mulheres que andam de casa em casa tirando pelos e polindo sobrancelhas, mas elas, as aias da senhora, nunca quiseram admiti-las, porque a maioria cheira a terceira, e se dom Quixote não as remediar, com barbas as levarão à sepultura. Dom Quixote diz que pelaria as suas em terra de mouros se não remediasse as delas. A Trifaldi, que ouviu no meio do desmaio o retintim da promessa, volta a si e pede que a promessa se converta em obra.

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Capítulo XLI: O voo do Cravelenho

Resumo do capítulo

Chega a noite, e com ela a hora marcada para o cavalo, cuja tardança fatiga Dom Quixote, que pensa já que Malambruno se detém em enviá-lo ou porque ele não é o cavaleiro a quem a aventura foi guardada, ou porque o gigante não ousa vir com ele a singular batalha. De repente entram pelo jardim quatro selvagens vestidos de hera verde, com um grande cavalo de pau sobre os ombros, e um deles diz que suba nessa máquina quem tiver ânimo, e que a ocupar as ancas seja o escudeiro, se o tem; é só torcer a cravelha que o cavalo traz no pescoço, e eles hão de se cobrir os olhos, para que a altura do caminho não cause vertigens, até que o cavalo relinche. Sancho Pança diz logo que ali não sobe, porque nem tem ânimo nem é cavaleiro. A Dolorida, ao ver o cavalo, quase em lágrimas, diz que as promessas de Malambruno foram certas e que cada uma delas, com cada pelo da barba, suplica ao fidalgo que as rape e tunda. Ele, sem tomar almofada nem calçar esporas, diz que irá de muito bom grado pela gana que tem de ver todas as aias lisas. Sancho, não: se o rapamento não se pode fazer sem que ele suba às ancas, que o amo procure outro escudeiro e as senhoras outro modo de alisar os rostos, porque ele não é bruxo para gostar de andar pelos ares. Que dirão os seus insulanos quando souberem que o governador passeia pelos ventos? Havendo três mil e tantas léguas até Candaia, se o cavalo se cansa ou o gigante se enfada, tardarão meia dúzia de anos em voltar, e já não haverá ínsula nem ínsulos no mundo que o conheçam, e como se diz que na tardança vai o perigo, perdoem-lhe as barbas dessas senhoras, que "bem se está São Pedro em Roma". O duques o interrompe:

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