Resumo da parte
Quem prende dom Quixote o faz no estilo dos livros que ele leu: a voz de profeta, a jaula, o carro, os rostos encobertos, e ele aceita tudo como encantamento, porque é isso que a leitura lhe ensinou a esperar. No caminho, é um leitor desses mesmos livros, o cônego de Toledo, quem os discute com ele, e a discussão fica empatada: o cônego pede forma, verossimilhança e ensino, o fidalgo responde com licença real, genealogias e o cavaleiro do lago. Sancho, que reconhece os disfarçados, tenta provar ao amo que ele não está encantado e não consegue, porque o amo recolhe cada prova na doutrina dos encantadores. A estalagem se dissolve em acordos de dinheiro, de casamento e de pazes, e a Primeira Parte acaba prometendo uma terceira saída.
Capítulo XLIV: O moço fugido e a albarda reconhecida
Resumo do capítulo
Os gritos de Dom Quixote, pendurado pelo pulso, acordam a estalagem. Maritornes, que adivinha a causa, sobe ao palheiro e desata em silêncio o cabresto, e ele cai no chão diante do estalajadeiro e dos viajantes; sem responder a ninguém, solta o cordel do punho, monta Rocinante, embraça a adarga, empunha a lança e, a meio galope, desafia quem disser que foi encantado com justo título, se a princesa Micomicona lhe der licença para isso. Os quatro viajantes que chegaram de madrugada estranham, e o estalajadeiro lhes diz que é dom Quixote e está fora de juízo. Eles procuram um rapaz de uns quinze anos, vestido de moço de mulas, que é o amante de dona Clara, e o acham dormindo ao lado de um moço de mulas de verdade. São criados do pai dele, que os mandou atrás do filho, e o chamam de dom Luís, estranhando que o traje e a cama não digam com o regalo em que a mãe o criou. O rapaz, assustado, não consegue falar; depois diz que voltará se o céu o ordenar. O moço de mulas que dormia ao lado ouve tudo e vai contar a dom Fernando e a Cardênio, que já com a boa voz do rapaz tinham vontade de saber quem ele era e de ajudá-lo, se o quisessem forçar. Doroteia conta a Cardênio a história do músico e de Clara, e Clara, que ouve a notícia da vinda dos criados, quase cai de susto. Cercado, dom Luís diz que só um negócio em que lhe vai a vida, a honra e a alma o impede de voltar, e que o levarão morto, e de qualquer maneira sem vida. O ouvidor, que reconhece o rapaz como filho de seu vizinho, o abraça e lhe pergunta que meninices são essas. Enquanto os dois falam à parte, dois hóspedes tentam sair sem pagar e dão punhadas no estalajadeiro, que pede socorro, e a filha da estalajadeira corre a pedir ajuda a dom Quixote. Ele responde com muito vagar que está impedido de entrar em outra aventura enquanto não acabar a que a palavra lhe impôs; que o estalajadeiro se defenda como puder, enquanto ele pede licença à princesa. Ajoelhado diante de Doroteia, em linguagem andante, obtém a licença, vai à porta e se detém: não lhe é lícito pôr mão à espada contra gente de escudeiro, e manda chamar Sancho Pança, para quem a vingança é coisa de ofício. A estalajadeira, a filha e Maritornes se desesperam de ver o que tomam por cobardia, enquanto o estalajadeiro apanha. Dom Quixote, adiante, apazigua os hóspedes mais com boas razões que com ameaças, e eles pagam o que o homem pediu.
Análise
À parte, com o ouvidor, dom Luís o toma pelas mãos e, chorando, confessa o que o trouxe:
desde el punto que quiso el cielo y facilitó nuestra vecindad que yo viese a mi señora doña Clara, hija vuestra y señora mía, desde aquel instante la hice dueño de mi voluntad [...] Por ella dejé la casa de mi padre, y por ella me puse en este traje, para seguirla dondequiera que fuese, como la saeta al blanco, o como el marinero al norte
, desde o ponto em que o céu quis e facilitou nossa vizinhança que eu visse minha senhora dona Clara, filha vossa e senhora minha, desde aquele instante a fiz dona de minha vontade [...] por ela deixei a casa de meu pai, e por ela me pus neste traje, para segui-la aonde quer que fosse, como a seta ao alvo, ou como o marinheiro ao norte.
Assinatura
A análise completa de cada parte de Dom Quixote está na assinatura, com a explicação de cada citação, o quiz, o guia em PDF e o caderno de estudos.
Capítulo XLV: A votação do elmo e o mandado da Santa Irmandade
Resumo do capítulo
O padre e o barbeiro conhecem o humor de Dom Quixote, e o barbeiro da aldeia resolve esforçar o desatino e levar adiante a burla para que todos riam: diz ao outro barbeiro que também é do ofício, que tem carta de exame há mais de vinte anos e que foi soldado na mocidade, e afirma que a peça que o fidalgo tem nas mãos não é bacia, e que, ainda que seja elmo, não é elmo inteiro. Dom Quixote concorda, porque lhe falta a metade, a viseira. O padre, que entendeu a intenção do amigo, confirma, e o mesmo fazem Cardênio, dom Fernando e seus camaradas; só o ouvidor, pensativo com o negócio de dom Luís, não ajuda. O barbeiro lesado se espanta: se a bacia é elmo, a albarda deve ser jaez de cavalo, como o senhor disse. Dom Quixote responde que a ele a peça parece albarda, mas que não se atreve a dar sentença: nas duas vezes que se alojou naquele castelo as coisas que lhe sucederam foram tantas e tão estranhas que tudo ali lhe parece ir por via de encantamento, e pôr-se a julgar seria juízo temerário. Ele sugere que os outros, por não serem armados cavaleiros, talvez tenham o entendimento livre dos encantos do lugar e julguem as coisas como são, e não como a ele pareciam. Dom Fernando toma então os votos em segredo, de ouvido em ouvido, e os que conhecem o humor do fidalgo riem, enquanto os que o ignoram, entre eles os criados de dom Luís e três viajantes que acabam de chegar e são quadrilheiros, tomam aquilo pelo maior disparate do mundo. Terminada a coleta, dom Fernando anuncia o resultado:
Análise
Capítulo XLVI: Os quadrilheiros apaziguados e a jaula
Resumo do capítulo
Enquanto Dom Quixote falava, o padre persuadia os quadrilheiros de que o fidalgo era falto de juízo, como se via por suas obras e palavras, e de que, preso e levado, logo o largariam por louco. O do mandado respondeu que não lhe tocava julgar a loucura, mas cumprir o que o superior mandava, e que, uma vez preso, o soltassem trezentas vezes. O padre sabe tanto dizer e dom Quixote faz tantas loucuras que os quadrilheiros, que seriam mais loucos que ele se não lhe conhecessem a falta, desistem e se fazem mediadores entre o barbeiro e Sancho Pança. Como membros da justiça, arbitram: as albardas se trocam, e não as cilhas nem as cabeçadas; quanto ao elmo de Mambrino, o padre, às escondidas e sem que dom Quixote o perceba, dá oito reais pela bacia, e o barbeiro lhe faz uma cédula de recibo e de não se chamar a engano, nem por ora nem por sempre jamais amém. Os criados de dom Luís se contentam com o que o rapaz quer, e dona Clara fica de tal modo alegre que ninguém lhe olharia o rosto sem notar o regozijo da alma. Zoraida, que não entende bem o que viu, se entristece e se alegra a bulto, conforme os semblantes, e tem os olhos postos no seu espanhol. O estalajadeiro, que não deixou passar o presente do padre ao barbeiro, cobra a conta de dom Quixote, com o prejuízo dos odres e a falta de vinho, e jura que nem Rocinante nem o jumento de Sancho sairão sem pagamento; o padre o aplaca, dom Fernando paga, e o ouvidor, de boa vontade, também se oferecera. A estalagem, que dom Quixote chamara discórdia do campo de Agramante, fica como a paz e quietude do tempo de Otaviano, e a opinião comum atribui o mérito à boa intenção e à eloquência do padre e à liberalidade de dom Fernando.
Análise
Capítulo XLVII: O carro de bois e o cônego de Toledo
Resumo do capítulo
Enjaulado em cima do carro, Dom Quixote estranha o que vê: em tantas histórias de cavaleiros andantes jamais leu que os encantados fossem levados assim, devagar, por animais preguiçosos e tardios, porque costumam ir pelos ares, numa nuvem parda, num carro de fogo ou num hipogrifo. Para se explicar, conclui que a cavalaria e os encantos de seu tempo devem seguir outro caminho que os antigos, e que, sendo ele cavaleiro novo e o primeiro a ressuscitar o exercício da cavalaria aventureira, também se terão inventado outros gêneros de encantamento e outros modos de levar os encantados. Sancho Pança diz que não sabe o que pensar, por não ser tão lido nas escrituras andantes, mas que se atreveria a jurar que essas visões não são de todo católicas. O amo responde que como podem sê-lo, se são demônios em corpos fantásticos, e manda tocá-los: verá que só têm corpo de ar. Sancho já os tocou e responde:
Análise
Capítulo XLVIII: O teatro, a tentação do cônego e a prova de Sancho
Resumo do capítulo
O padre concorda com o cônego e acrescenta que são mais dignos de censura os autores que compuseram tais livros sem atenção a nenhum bom discurso, nem à arte e às regras por onde poderiam guiar-se e ficar famosos em prosa, como os dois príncipes da poesia grega e latina o são em verso. O cônego confessa que teve certa tentação de fazer ele mesmo um livro de cavalarias:
Análise
Capítulo XLIX: Sancho interroga o amo e o cônego contesta a cavalaria
Resumo do capítulo
Sancho Pança, triunfante, diz que tem o amo na mão: pergunta se ele pode negar o que se diz por aí de quem está de má vontade, "não sei o que tem fulano, que nem come, nem bebe, nem dorme, nem responde a propósito, que não parece senão que está encantado", e deduz:
Análise
Capítulo L: O Cavaleiro do Lago e o cabreiro da cabra
Resumo do capítulo
Dom Quixote responde ao cônego que os livros impressos com licença dos reis, aprovados por quem se remeteram e lidos com gosto por grandes e pequenos, ricos e pobres, letrados e ignorantes, não podem ser mentira, e menos ainda levando tanta aparência de verdade:
Análise
Capítulo LI: O que contou o cabreiro
Resumo do capítulo
O cabreiro conta a história a todos os que levam Dom Quixote. A três léguas do vale há uma aldeia pequena, mas das mais ricas da região, onde vive um lavrador tão honrado que o era mais pela virtude do que pela riqueza, e o que mais o fazia feliz era ter uma filha, Leandra, de tão extremada formosura, rara discrição, donaire e virtude que a fama dela correu as aldeias vizinhas, as cidades distantes e entrou até nas salas dos reis, e de todas as partes vinham vê-la como coisa rara, ou como imagem de milagres. O pai a guardava, e ela se guardava, e o cabreiro diz o que lhe parece de toda guarda de donzela:
Análise
Capítulo LII: Os penitentes, a volta à aldeia e os epitáfios
Resumo do capítulo
O conto do cabreiro agrada a todos, em especial ao cônego, que nota quão longe da fala de rústico cabreiro e quão perto da de discreto cortesão ele o contou, e que diz que o padre e o barbeiro tinham razão quando o padre disse que os montes criam letrados. Todos se oferecem a Eugênio, mas quem mais se mostra liberal é Dom Quixote, que lhe diz que, se estivesse em condições de começar uma aventura, logo se poria a caminho para que ele a tivesse boa, tiraria Leandra do mosteiro, onde sem dúvida está contra a vontade, apesar da abadessa e de quantos quisessem impedi-lo, e a poria em suas mãos para que fizesse dela o que quisesse, guardando as leis da cavalaria, que mandam que a nenhuma donzela se faça agravo algum. Eugênio olha para o cavaleiro de mau pelo e catadura e pergunta ao barbeiro quem é aquele homem que tem tal talhe e fala daquela maneira. O barbeiro responde que é o famoso dom Quixote da Mancha, desfazedor de agravos, endireitador de tortos, amparo das donzelas, assombro dos gigantes e vencedor das batalhas. O cabreiro retruca que isso se parece com o que se lê nos livros de cavaleiros andantes, que faziam tudo isso, mas que, para ele, ou o barbeiro está zombando, ou aquele cavalheiro tem vazios os aposentos da cabeça. Dom Quixote o chama de grandíssimo velhaco e de vazio e minguado, e responde com uma injúria à mãe do cabreiro, e lhe atira um pão no rosto com tanta fúria que lhe amassa o nariz. O cabreiro, que não sabia de burlas, vendo que o maltratam de veras, salta sobre ele, sem respeito à alcatifa, nem às toalhas, nem aos que comiam, e o agarra pelo pescoço com as duas mãos, e o teria sufocado se Sancho Pança não o pegasse pelas costas e o jogasse sobre a mesa, quebrando pratos, rompendo taças e esparramando tudo. Livre, dom Quixote sobe sobre o cabreiro, que, com o rosto cheio de sangue e moído a coices de Sancho, procura a gatas uma faca na mesa para uma vingança sanguinolenta, e o cônego e o padre o impedem; mas o barbeiro faz de modo que o cabreiro prenda o cavaleiro debaixo de si, e sobre o fidalgo chove tanta punhada que o sangue de seu rosto corre como o do cabreiro. O cônego e o padre rebentam de riso, os quadrilheiros saltam de gosto e açulam os dois como se açulam cães, e só Sancho se desespera, por não poder soltar-se de um criado do cônego que o impede de ajudar o amo.
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Leitura da parte
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