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Dom Quixote · Primeira Parte

Marcela e a estalagem

Resumo da parte

Fora da estrada, o romance gasta oito capítulos em dois espaços. No campo dos cabreiros, um morto de amor e uma pastora que se defende põem em cena a liberdade que dom Quixote só sabia louvar no passado; na estalagem, a cama, a manta e o bálsamo mostram o que custa tomar uma venda por castelo. Os rebanhos do capítulo XVIII fecham a série com a explicação que o fidalgo já traz pronta: o sábio inimigo.

Capítulo XI: Os cabreiros e a Idade de Ouro

Resumo do capítulo

Os cabreiros recolhem Dom Quixote, com a orelha ainda ferida da luta com o biscainho, e Sancho Pança de muito bom ânimo. Sancho acomoda Rocinante e o jumento como pode e vai atrás do cheiro de uns pedaços de cabra que fervem num caldeirão; os seis cabreiros da malhada estendem peles de ovelha no chão, armam a mesa rústica às pressas e convidam os dois com o que têm, depois de rogar ao fidalgo, com cerimônias grosseiras, que se sente numa gamela virada do avesso. Sancho fica de pé para lhe servir a taça, que é um chifre. Vendo-o em pé, o amo o manda sentar ao seu lado, para que ele veja o bem que a cavalaria andante encerra: o escudeiro comerá no prato do amo e beberá por onde ele beber, porque da cavalaria andante se pode dizer o mesmo que do amor, que iguala todas as coisas. Sancho agradece e recusa pelo único argumento que tem:

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mucho mejor me sabe lo que como en mi rincón, sin melindres ni respetos, aunque sea pan y cebolla, que los gallipavos de otras mesas donde me sea forzoso mascar despacio, beber poco, limpiarme a menudo, no estornudar ni toser si me viene gana, ni hacer otras cosas que la soledad y la libertad traen consigo, muito melhor me sabe o que como no meu canto, sem melindres nem respeitos, ainda que seja pão e cebola, do que os perus de outras mesas, onde me seja forçoso mastigar devagar, beber pouco, limpar-me com frequência, não espirrar nem tossir se me der vontade, nem fazer outras coisas que a solidão e a liberdade trazem consigo.

Quixote quer o escudeiro sentado porque a igualdade à mesa é a prova de que a ordem a que serve vale mais do que o mundo julga. Sancho recusa pelo corpo: quer comer sossegado, sem a cerimônia que a honra traz. O amo o puxa pelo braço com o provérbio de que Deus exalta quem se humilha. Pode ser generosidade, e pode ser a necessidade de mostrar aos cabreiros o que os livros dizem que um cavaleiro faz.

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Capítulo XII: O que o cabreiro contou de Marcela

Resumo do capítulo

Chega do povoado outro moço dos que trazem o mantimento aos cabreiros, com a notícia do dia: morreu de manhã Grisóstomo, o pastor estudante, e dizem que de amores pela endiabrada Marcela, filha do rico Guilherme, que anda em hábito de pastora pelos ermos. O morto mandou no testamento que o enterrassem no campo, como se fosse mouro, ao pé do rochedo da fonte do sobreiro, onde a viu pela primeira vez, e pediu outras coisas que os abades do lugar julgam de gentios e não querem cumprir. O amigo Ambrósio, também estudante vestido de pastor, exige que se cumpra tudo, e o povo anda alvoroçado; a vontade de Ambrósio e dos pastores amigos deve vencer, e o enterro será no dia seguinte, com grande pompa. Os cabreiros resolvem ir todos, sorteando quem fica guardando as cabras, e Dom Quixote pede a Pedro, um dos cabreiros, que lhe conte quem era o morto e quem é a pastora.

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Capítulo XIII: Vivaldo, a cavalaria defendida e o enterro

Resumo do capítulo

Ao romper do dia, cinco dos seis cabreiros vão acordar Dom Quixote para saber se ele ainda quer ver o enterro de Grisóstomo, e o fidalgo, que outra coisa não desejava, manda Sancho Pança selar e albardar no mesmo instante. Pouco adiante cruzam com seis pastores de pelicos negros, coroados de ciprestes e de loendros amargos, e com dois cavalheiros de viagem com três moços a pé, que também vão ao enterro. Um deles é Vivaldo, e é ele quem, ao ver o fidalgo armado em terra tão pacífica, lhe pergunta por quê. Dom Quixote responde que a profissão não lhe permite andar de outro modo, que o bom passo, o regalo e o repouso foram inventados para os brandos cortesãos, e que o trabalho, a inquietude e as armas só se fizeram para os que o mundo chama cavaleiros andantes, dos quais ele é, ainda que indigno, o menor.

Todos o tomam por louco, e, para averiguar que gênero de loucura é a sua, Vivaldo lhe pergunta o que quer dizer "cavaleiros andantes". O fidalgo explica com a história do rei Artur, que não morreu mas virou corvo por encantamento e há de voltar a reinar, e dos cavaleiros da Távola Redonda, de Lançarote e a rainha Ginebra, de dona Quintañona, e de Amadis de Gaula, Felixmarte de Hircânia, Tirante o Branco e Belianis da Grécia, para concluir que a ordem é essa e que ele fez profissão nela, de ofertar o braço à mais perigosa aventura que a sorte lhe der, em ajuda dos fracos e necessitados.

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Capítulo XIV: Os versos de Grisóstomo e a defesa de Marcela

Resumo do capítulo

Vivaldo lê a "Canção desesperada" de Grisóstomo: o poeta pede à cruel que sua dureza se publique de língua em língua, convoca o rugido do leão, o uivo do lobo e o canto agourento da gralha para acompanhar a dor, diz que o desdém mata, que a suspeita mata, que o ciúme mata com mais rigor, e que ele vive, milagre nunca visto, ciumento, ausente, desdenhado e certo das suspeitas que o têm morto. Chama os suplícios do inferno (Tântalo, Sísifo, Ticio, Egíon) para cantar exéquias ao corpo a quem se negue até a mortalha, e pede à própria canção que não se queixe de deixá-lo. Os ouvintes a acham boa, mas quem a leu repara que ela não combina com o que se contou do recato e da bondade de Marcela, porque nela Grisóstomo se queixa de ciúmes, suspeitas e ausência, em prejuízo do bom crédito dela. Ambrósio, que sabia os pensamentos mais escondidos do amigo, explica que ele a escreveu de propósito ausente, para ver se a ausência lhe traria o que a presença não trouxe, e que os ciúmes e suspeitas que o fatigavam eram imaginados; a fama da bondade de Marcela fica de pé, e ela, além de cruel, um pouco arrogante e muito desdenhosa, é tal que nem a inveja pode pôr-lhe falta.

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Capítulo XV: Os arrieiros galegos e a lei do duelo

Resumo do capítulo

Despedidos do enterro, Dom Quixote e Sancho Pança entram no bosque por onde se embrenhou Marcela e a procuram mais de duas horas sem achá-la, até pararem num prado de erva fresca junto de um arroio, que os convida a passar ali a sesta. Soltos o jumento e Rocinante para pastar, os dois dão cabo dos alforjes sem cerimônia. Sancho não amarrou o cavalo, seguro de que ele era tão manso e tão pouco rijo que nem todas as éguas de Córdoba o tentariam; mas a sorte quis que andasse por ali uma manada de cavalinhas galegas de uns arrieiros, que têm por costume sestear nesses lugares de erva e água. Rocinante, que sai do seu natural passo sem pedir licença ao dono, vai comunicar sua necessidade às senhoras, e elas, com mais vontade de pastar que de outra coisa, o recebem com as ferraduras e os dentes até lhe romperem as cilhas e deixá-lo sem sela. Pior ainda: vendo a violência que se fazia às suas éguas, os arrieiros acodem com estacas e o derrubam malparado no chão.

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Capítulo XVI: O castelo que era estalagem

Resumo do capítulo

O estalajadeiro, ao ver Dom Quixote atravessado no asno, pergunta a Sancho Pança que mal ele traz, e Sancho responde que não é nada, que o amo caiu de um penhasco e anda com as costelas pisadas. A estalajadeira não é do tipo que o ofício costuma dar: é caridosa e se condói das calamidades do próximo, e chama a filha, uma donzela de bom parecer, para ajudá-la a curar o hóspede. Serve também na estalagem uma moça asturiana, Maritornes, larga de cara, rasa de cogote, de nariz romo, torta de um olho e não muito sã do outro, cuja galhardia do corpo suplia as demais faltas. As três armam a Dom Quixote uma péssima cama num camarancho que fora palheiro, com quatro tábuas mal aplainadas sobre dois bancos desiguais, um colchão de grumos de lã tão duros que pareciam seixos, dois lençóis de couro de adarga e uma manta cujos fios se podiam contar. No mesmo cômodo dorme um arrieiro, cuja cama de albardas e mantas de seus machos é muito melhor que a do fidalgo.

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Capítulo XVII: O moro encantado, o bálsamo e a manta

Resumo do capítulo

Dom Quixote volta do seu desmaio e chama o escudeiro com o mesmo tom com que o chamara na véspera, estirado no vale das estacas: Sancho Pança não dorme, cheio de pesar e despeito, porque lhe parece que todos os diabos andaram com ele aquela noite. O amo concorda, porque aquele castelo é encantado, mas antes de contar faz Sancho jurar segredo até depois da sua morte, porque é inimigo de que se tire a honra a alguém, e Sancho jura com a ressalva de que lhe apraz poder descobrir amanhã, pois não gosta de guardar coisas e não quer que apodreçam de guardadas. Então o fidalgo conta: a filha do senhor do castelo veio a ele, formosíssima, e, quando estava com ela em dulcíssimos colóquios, sem que a visse nem soubesse por onde, veio uma mão pegada ao braço de um gigante descomunal e lhe deu um murro que lhe banhou as queixadas em sangue, e depois o moeu de modo pior que na véspera com os galegos.

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Capítulo XVIII: Os exércitos que eram rebanhos

Resumo do capítulo

Sancho Pança chega ao amo murcho e desmaiado, a ponto de não poder tocar o jumento. Dom Quixote diz que agora acaba de crer que a estalagem é encantada, pois quem mais senão fantasmas e gente do outro mundo se divertiria daquele modo com ele, e confirma pelo fato de, nas bardas do curral, não lhe ter sido possível subir nem apear de Rocinante: ele o vingaria, jura, ainda que fosse contra as leis da cavalaria, que não consentem a um cavaleiro pôr mão contra quem não o seja, a não ser em defesa da própria vida. Sancho responde que também se vingaria, armado cavaleiro ou não, mas não pôde; e que acha que os que o manteavam eram homens de carne e osso como eles, com nomes, que ele ouviu quando o jogavam: Pedro Martínez, Tenorio Hernández e, do estalajadeiro, Juan Palomeque, o Canhoto. Não poder saltar as bardas nem apear foi outra coisa que encantamento. Tira daí a conta de que aventuras como aquelas acabarão por trazer tantas desventuras que não saberão qual é o seu pé direito, e que o melhor seria voltar à aldeia, agora que é tempo de ceifa e de cuidar da fazenda.

O fidalgo responde que ele sabe pouco de cavalaria e que virá o dia em que verá quão honrosa é: que maior contentamento há no mundo que vencer uma batalha e triunfar do inimigo? Sancho retruca que não sabe, que desde que são cavaleiros andantes, ou o amo o é, que ele não tem por que se contar em tão honroso número, nunca venceram batalha alguma, a não ser a do biscainho, e dela o amo saiu com meia orelha e meia celada a menos; depois disso foram só paus e socos, mais o manteamento dele, e por obra de gente encantada, de quem não pode se vingar. O amo concorda que é a mesma pena e promete ir atrás de uma espada de tal feitura que ninguém que a traga possa sofrer encantamentos, como a de Amadis quando se chamava Cavaleiro da Ardente Espada; Sancho prevê que ela só servirá aos cavaleiros armados, como o bálsamo, e que aos escudeiros, que se danem. O amo responde que não tema, que o céu fará melhor por ele.

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