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Dom Quixote · Segunda Parte

O governo da ilha

Resumo da parte

Os duques fazem do governo de Sancho a maior de suas burlas, e é nela que o escudeiro se mostra melhor do que o amo e os próprios burladores esperavam: julga com juízo, recusa o dinheiro, passa fome sob as ordens de um médico de comédia e renuncia ao cargo por conta própria. Dom Quixote, no castelo, dá a Sancho os conselhos mais sensatos do livro, ouve de dona Rodríguez um pedido de justiça de cavaleiro andante e leva uma surra no escuro.

Capítulo XLII: Os primeiros conselhos de dom Quixote

Resumo do capítulo

Os duques, contentes com o êxito da aventura da Dolorida, resolvem levar as burlas adiante, porque têm em Sancho Pança um sujeito tão acomodado que as faz passar por veras, e, dada a traça e as ordens que criados e vassalos hão de guardar no governo da ínsula prometida, mandam-no aprontar-se, no dia seguinte ao voo de Cravelenho, porque seus insulanos o esperam "como a água de maio". Sancho voltou do céu com a vontade esfriada: de lá viu a terra tão pequena que mandar num grão de mostarda, em meia dúzia de homens do tamanho de avelãs, lhe parece pouca grandeza, e aceitaria uma tantica de céu, ainda que meia légua, antes da maior ínsula do mundo. O duque lhe responde que o céu só Deus dá, que ele dá uma ínsula "feita e direita, redonda e bem proporcionada", e que quem souber se dar maña pode ganhar com as riquezas da terra as do céu. Sancho aceita, e diz que não é por cobiça de sair de suas casinhas, mas por desejo de provar a que sabe ser governador. O duque lhe garante que, provando, vai comer as próprias mãos atrás do governo, tão dulcíssima coisa é mandar e ser obedecido, e que dom Quixote, quando for imperador, o que será sem dúvida, não o largará de qualquer jeito. Sancho conclui que é bom mandar, "ainda que seja num rebanho de gado". O traje será meio de letrado, meio de capitão, pois na ínsula as armas valem tanto quanto as letras; Sancho confessa que de letras tem poucas, que nem o abecê sabe, mas lhe basta ter o Christus da cartilha na memória para ser bom governador, e das armas manejará as que lhe derem, "até cair, e Deus adiante".

Análise

Dom Quixote chega, sabe da pressa, pede licença ao duque, leva Sancho pela mão ao seu aposento, fecha a porta e o faz sentar-se quase à força. Dá graças ao céu de que a boa ventura tenha vindo ao escudeiro antes que a ele, que lhe tinha guardada a paga para a própria boa sorte, e adverte que Sancho, sem madrugar nem trasnoitar, só com o alento da cavalaria andante, se vê governador, e que não deve atribuir a mercê a seus merecimentos, mas dar graças ao céu e depois à grandeza da profissão. Será o seu Catão, para guiá-lo "a porto seguro" nesse mar proceloso. Primeiro, temer a Deus; depois, conhecer-se a si mesmo, para não se inchar como a rã que quis igualar-se ao boi, e lembrar que guardou porcos na terra. Sancho responde que foi quando rapaz, que já homenzinho eram gansos, e que isso não vem ao caso, que nem todos os que governam vêm de casta de reis. Dom Quixote concorda, e daí tira o que os de origem humilde devem ao cargo: uma branda suavidade que os livre da murmuração maliciosa, a gala da humildade da linhagem, e esta regra:

Mira, Sancho: si tomas por medio a la virtud, y te precias de hacer hechos virtuosos, no hay para qué tener envidia a los que los tienen de príncipes y señores, porque la sangre se hereda y la virtud se aquista, y la virtud vale por sí sola lo que la sangre no vale, olha, Sancho: se tomares a virtude por meio e te prezares de fazer feitos virtuosos, não há por que ter inveja dos que os têm de príncipes e senhores, porque o sangue se herda e a virtude se adquire, e a virtude vale por si só o que o sangue não vale.

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Capítulo XLIII: Os conselhos segundos

Resumo do capítulo

O narrador pergunta quem, ouvindo o razoamento passado, não teria Dom Quixote por muito cordato e de melhor intenção, e lembra o que a história já disse: o fidalgo só dispara quando lhe tocam a cavalaria, e nos demais discursos mostra entendimento claro, tanto que a cada passo suas obras desacreditam seu juízo, e seu juízo suas obras. Nos segundos documentos, porém, "pôs sua discrição e sua loucura num ponto elevado". Sancho Pança o escuta atentíssimo, para sair bem do "parto" de seu governo.

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Capítulo XLIV: Sancho parte; Altisidora canta

Resumo do capítulo

O capítulo abre com uma queixa que se diz do próprio original: Cide Hamete Benengeli teria achado "seca e limitada" a história que tomou entre mãos, sempre a falar do fidalgo e de Sancho, e o intérprete não a traduziu como ele a escreveu. Na Primeira Parte, para fugir do aperto, o mouro usou o artifício de novelas, o Curioso Impertinente e o Capitão Cativo, que ficaram como separadas da história; temeu, porém, que a atenção pedida pelas façanhas de dom Quixote fizesse os leitores passar por elas com pressa ou com enfado, sem ver a gala que encerram. Por isso, nesta Segunda Parte, quis só episódios que parecessem novelas, nascidos dos próprios sucessos, e ainda assim limitados às palavras que bastam:

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Capítulo XLV: A posse da ínsula e as primeiras sentenças

Resumo do capítulo

O narrador invoca o sol, "olho do céu", para que lhe alumie a escuridão do engenho na narração do governo do grande Sancho Pança. Com todo o seu acompanhamento, Sancho chega a um lugar de uns mil vizinhos, dos melhores do duque, a que lhe dão a entender que se chama ínsula Barataria, ou porque o lugar se chamava Baratário, ou pelo "barato" (a pechincha) com que lhe deram o governo. O regimento sai a recebê-lo à porta da vila, tocam os sinos, levam-no à igreja maior para dar graças a Deus, entregam-lhe as chaves "com algumas ridículas cerimônias" e o admitem por perpétuo governador. O traje, as barbas, a gordura e a pequenez do novo governador espantam quem não sabe o busílis da burla, e até os que o sabem, que são muitos. Sentam-no na cadeira do tribunal, e o mordomo do duque lhe diz que é costume antigo que o novo governador responda a uma pergunta intrincada, pela qual o povo toma o pulso do seu engenho e se alegra ou se entristece com a sua vinda. Sancho olha umas grandes letras na parede fronteira, e, como não sabe ler, pergunta o que são. Dizem-lhe que é o dia da posse, em nome de "dom Sancho Panza", e ele responde:

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Capítulo XLVI: Os gatos e os cencerros

Resumo do capítulo

Dom Quixote não dorme: os pensamentos que a música de Altisidora lhe deixou o picam como pulgas, e junto deles os pontos que faltam às meias. De manhã se veste de camurça, calça as botas de caminho "para encobrir a desgraça de suas meias", põe o manto escarlate e a montera de veludo verde, pega o rosário e sai, com muita prosopopeia, à antessala onde esperam os duques. Numa galeria estão de emboscada Altisidora e a amiga, e Altisidora finge um desmaio ao vê-lo. Ele diz que sabe de que procedem esses acidentes, e à amiga, que lhe responde que a moça é a mais sã da casa e que ela não voltará a si enquanto ele estiver ali, pede que lhe ponham um alaúde no aposento: com ele consolará como puder a lastimada donzela, "que nos princípios amorosos os desenganos prestos costumam ser remédios qualificados". Altisidora, quando volta a si, diz à companheira que é preciso pôr o alaúde, que ele quer lhes dar música. Os duques, avisados, combinam uma burla "mais risonha que danosa", e a duquesa despacha nesse dia, de verdade, o pajem que fizera na selva a figura encantada de Dulcineia, a Teresa Pança, com a carta de Sancho e a trouxa de roupa, mandando que traga boa relação de tudo que lá passar.

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Capítulo XLVII: O médico Pedro Recio e o aviso do duque

Resumo do capítulo

Do tribunal, levam Sancho Pança a um suntuoso palácio, onde numa grande sala há uma mesa real e limpíssima, posta para um só. Soam charamelas, quatro pajens lhe dão água às mãos, e ele senta-se à cabeceira. Um personagem em pé a seu lado, com uma varinha de baleia, que se mostra ser o médico, toca com ela cada prato que o mestre-sala põe diante do governador, e um pajem o leva, com enorme celeridade. Sancho pergunta se aquilo se há de comer como jogo de passa-passa, e o médico responde que é uso das ínsulas onde há governadores, que ele é assalariado para velar mais pela saúde do governador que pela sua e que tira o que imagina que faça mal: a fruta, por demasiado úmida; o outro prato, por quente e cheio de especiarias, que acrescentam a sede. As perdizes assadas, que Sancho pede, não as comerá "enquanto eu tiver vida":

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Capítulo XLVIII: Dona Rodríguez de noite

Resumo do capítulo

Seis dias sem sair em público, Dom Quixote está mohíno e melancólico, de rosto vendado e "assinalado não pela mão de Deus, mas pelas unhas de um gato". Numa noite em que vela, ouve abrirem com chave a porta do aposento e imagina que Altisidora vem sobressaltar sua honestidade e pô-lo em condição de faltar à fé devida a Dulcineia. Responde-lhe em voz que pode ser ouvida: nem a maior formosura da terra o fará deixar de adorar a que tem gravada no meio do coração, esteja ela transformada em "cebolluda lavradora" ou em ninfa do Tejo, a tenha Merlin ou Montesinos onde queiram, "que, onde quer que estejas, és minha, e onde quer que eu esteja, fui e hei de ser teu". Está de pé sobre a cama, enrolado numa colcha de cetim amarelo, de galocha na cabeça e com o rosto e os bigodes vendados, o rosto pelos arranhões e os bigodes para que não desmaiassem, "a mais extraordinária fantasma que se pudesse pensar". Entra uma reverendíssima dueña, de toucas brancas e longas que a cobrem dos pés à cabeça, uma meia vela entre os dedos e grandes óculos, e o fidalgo, ao ver o traje e o silêncio, toma-a por bruxa e se persigna depressa. Ela, ao ver tão alta e amarela figura, grita, deixa cair a vela e, a escuras, tropeça nas saias e cai. Ele a conjura a dizer se é alma penada, e ela responde que é dona Rodríguez, dueña de honra da duquesa, que vem "com uma necessidade daquelas que vossa mercê costuma remediar". Ele pergunta se vem fazer alguma terceria, que não serve para ninguém, "mercê da sem par beleza de minha senhora Dulcineia", e ela sai a acender a vela.

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Capítulo XLIX: A ronda noturna do governador

Resumo do capítulo

Sancho Pança, enojado com o lavrador pintor, diz aos presentes que juízes e governadores devem de ser de bronze para não sentir a importunação dos que negociam a toda hora, e que, se o pobre do juiz não os escuta, logo lhes murmuram os ossos e "lhes deslindam as linhagens": os juízes são de carne e osso, e dão à natureza o que ela pede, "se não é eu, que não dou de comer à minha". Os que o conhecem se admiram de ouvi-lo falar com tanta elegância e atribuem ao cargo a virtude de adubar ou entorpecer os entendimentos. O doutor Recio promete lhe dar de cear nessa noite, ainda que exceda os aforismos de Hipócrates, e ceia o governador salpicão de vaca com cebola e umas mãos de vitela "algo entrada em dias", com mais gosto que se lhe dessem francolins de Milão ou faisões de Roma. Diz então ao doutor que não se preocupe com manjares regalados, que seu estômago está acostumado a cabra, vaca, toicinho, carne seca, nabos e cebolas, que o mordomo lhe traga as ollas podridas, e que governará a ínsula "sem perdoar direito nem levar suborno", porque "o diabo está em Cantillana". Quer limpá-la dos vadios e preguiçosos, que são na república o mesmo que os zangões nas colmeias, favorecer os lavradores, guardar as preeminências dos fidalgos, premiar os virtuosos e respeitar a religião. O mordomo, admirado de que um homem sem letras diga tantas sentenças e avisos, tão fora do que esperavam os que o mandaram:

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Capítulo L: Os verdugos e a carta de Teresa

Resumo do capítulo

O mouro declara quem eram os encantadores. Outra dueña, que dormia com dona Rodríguez, a sentira sair e, como todas as dueñas são amigas de saber, entender e cheirar, a seguiu em silêncio e foi contar à duquesa. Esta pediu licença ao duque, foi com Altisidora até a porta do aposento de Dom Quixote e, quando ouviu dona Rodríguez ter posto na rua "o Aranjuez" de suas fontes, não aguentou nem uma nem outra: cheias de cólera e desejosas de vingança entraram de golpe e fizeram o que se contou, porque, diz o narrador, "as afrontas que vão direitas contra a formosura e presunção das mulheres" despertam nelas a ira e o desejo de vingar-se. Os duques riem do caso, e a duquesa, "prosseguindo com sua intenção de burlar-se e receber passatempo com dom Quixote", despacha o pajem que fizera a figura de Dulcineia a Teresa Pança, com a carta do marido, outra sua e um grande colar de corais.

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Capítulo LI: A ponte, as cartas e as ordenanças

Resumo do capítulo

No dia seguinte à ronda, o mestre-sala passa a noite em claro, pensando na moça disfarçada, e o mordomo escreve aos duques o que Sancho Pança faz e diz, "tão admirado de seus feitos como de seus ditos", porque nele andam misturados os assomos discretos e os tontos. Por ordem do doutor Recio, Sancho desjejua com um pouco de conserva e quatro goles de água fria, que trocaria por um pedaço de pão e um cacho de uvas; o doutor lhe faz crer que os manjares poucos e delicados avivam o engenho, o que convém a quem manda, e com esse sofisma Sancho padece fome e, em segredo, maldiz o governo e quem lho deu. Com a fome e a conserva, vai julgar, e o primeiro caso é uma pergunta de um forasteiro, para a qual quer atenção, porque é de importância e "algo dificultoso". Um rio dividia dois termos de um mesmo senhorio, e sobre ele havia uma ponte e, ao cabo dela, uma forca e uma casa de audiência, com quatro juízes que julgavam a lei posta pelo dono do rio:

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Capítulo LII: A segunda dona Angustiada

Resumo do capítulo

Curado dos arranhões, Dom Quixote acha que a vida que leva no castelo é contra toda a ordem da cavalaria e decide pedir licença aos duques para ir a Saragoça, cujas festas se aproximam, onde pensa ganhar o arnês que nelas se conquista. À mesa com os duques, começa a pedir a licença quando entram duas mulheres cobertas de luto, e uma delas se deita a seus pés, de comprido a comprido, com a boca nos pés dele, em gemidos tão tristes que põem em confusão quem os ouve. Dom Quixote a levanta, faz descobrir o rosto e vê dona Rodríguez; a outra enlutada é a filha burlada. Os duques, que a tinham por boba e de boa massa, mas não a ponto de fazer loucuras, lhe dão licença de falar a sós com o cavaleiro. Ela lhe lembra a promessa e lhe pede, antes que escape por esses caminhos:

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Capítulo LIII: O fim do governo

Resumo do capítulo

O capítulo abre com uma reflexão de Cide Hamete, "filósofo maometano": pensar que as coisas desta vida durem sempre num estado é pensar em escusado, que as estações giram em roda, primavera, verão, estio, outono, inverno, e o tempo se repete:

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Leitura da parte

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