Clavis Libri

Tema em Crime e Castigo

Sofrimento

A dor física ou moral que se atravessa, e o que ela faz com quem sofre: miséria, provação, trauma, o sofrimento do justo.

O tema na obra

No romance o sofrimento tem três lugares que se cruzam sem se fundir. É a miséria que ninguém escolhe, a de Semion Zakhárovitch Marmieládov, de Catierina Ivánovna Marmieládova e dos filhos. É o preço que Rodion Românovitch Raskólnikov diz caber à consciência larga, quando discute a teoria. E é o caminho que Porfiri Pietróvitch, Sófia Semeónovna Marmieládova e Avdótia Românovna Raskólnikova propõem a ele, o de ir ao sofrimento como ao único jeito de recomeçar. O livro não prova que o sofrimento salva: Raskólnikov vai a ele sem acreditar nele, e a passagem do Epílogo avisa que a vida nova se paga caro.

No capítulo II da Primeira Parte, Marmieládov conta na taberna a miséria da família e a ida de Sônia à rua, e no meio do relato faz a Raskólnikov a pergunta que dá nome a essa miséria, a mesma que volta a ele no dia seguinte, quando ele mesmo se vê sem caminho:

Понимаете ли, понимаете ли вы, милостивый государь, что значит, когда уже некуда больше идти?, Entende o senhor, entende, prezado senhor, o que significa quando já não existe mais para onde ir?
Primeira Parte: O crime

No capítulo V da Terceira Parte, na casa de Porfiri, Dmitri Prokófitch Razumíkhin pergunta se os que têm o direito de matar não devem sofrer pelo sangue derramado, e Raskólnikov responde fora do tom da conversa:

Страдание и боль всегда обязательны для широкого сознания и глубокого сердца. Истинно великие люди, мне кажется, должны ощущать на свете великую грусть, A dor e o sofrimento são sempre de rigor para uma consciência larga e um coração profundo. Os homens realmente grandes, a meu ver, devem sentir no mundo uma grande tristeza.
Terceira Parte: A teoria

No capítulo IV da Quarta Parte, no quarto de Sônia, Raskólnikov se curva até o chão e beija o pé dela, e diz a razão antes que ela pergunte:

Я не тебе поклонился, я всему страданию человеческому поклонился, Não foi diante de você que me curvei, foi diante de todo o sofrimento humano que me curvei.
Quarta Parte: O cerco

No capítulo VI da Quarta Parte, o rapaz Nikolai irrompe no gabinete de Porfiri, pálido como quem vai ao patíbulo, e toma para si, diante de todos, um crime que não cometeu. O texto não diz o que o move, e Porfiri dirá depois, no capítulo II da Sexta Parte, que é um rapaz impressionável, fantasista, de origem sectária, que quer padecer.

Виноват! Мой грех! Я убивец!, A culpa é minha! O pecado é meu! Sou eu o assassino!
Quarta Parte: O cerco

No capítulo IV da Quinta Parte, Sônia dá a ele o único caminho que conhece, e quando ele pergunta se ela quer dizer a denúncia e os trabalhos forçados, ela responde que é aceitar o sofrimento e se redimir por ele:

Поди сейчас, сию же минуту, стань на перекрестке, поклонись, поцелуй сначала землю, которую ты осквернил, а потом поклонись всему свету, на все четыре стороны, и скажи всем, вслух: «Я убил!» Тогда бог опять тебе жизни пошлет, Vá agora, neste mesmo instante, pare num cruzamento, curve-se, beije primeiro a terra que você profanou, e depois curve-se diante do mundo inteiro, para os quatro cantos, e diga a todos, em voz alta: “Eu matei!” Então Deus voltará a lhe enviar vida.
Quinta Parte: A confissão

No capítulo V da Quinta Parte, Catierina Ivánovna cai na rua depois de correr atrás dos filhos assustados, e o sangue que cobre o chão vem do peito, da tísica. As últimas palavras dela voltam à imagem do sonho da égua (O sonho da égua):

Довольно!.. Пора!.. Прощай, горемыка!.. Уездили клячу!.. Надорвала-а-ась!, Chega!.. Está na hora!.. Adeus, coitada!.. Esgotaram a velha égua!.. Rebentou-se!
Quinta Parte: A confissão

No capítulo II da Sexta Parte, Porfiri tira de si qualquer autoridade e, para convencer Raskólnikov a se entregar, volta ao rapaz que se confessou no lugar dele:

не смейтесь над этим, в страдании есть идея. Миколка-то прав., não ria disso, no sofrimento há uma ideia. Mikolka é que tem razão.
Sexta Parte: A entrega

No capítulo IV da Sexta Parte, Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov, contando a Raskólnikov como via Dúnia, faz do sofrimento não um destino dela, mas um desejo:

Сама она только того и жаждет, и требует, чтобы за кого-нибудь какую-нибудь муку поскорее принять, а не дай ей этой муки, так она, пожалуй, и в окно выскочит., Ela mesma só deseja e exige uma coisa: tomar o quanto antes algum tormento por alguém, e, se lhe negarem esse tormento, é capaz até de se atirar pela janela.
Sexta Parte: A entrega

No capítulo VII da Sexta Parte, Dúnia, que já sabe de tudo, ouve o irmão chamar a si mesmo de vil e devolve a palavra num sentido que ele não lhe dava; adiante, na mesma conversa, dirá que quem vai ao sofrimento já lava metade do crime:

Низкий человек, а на страданье готов идти! Ведь ты идешь же?, Um homem vil, e disposto a ir sofrer! Porque você vai, não vai?
Sexta Parte: A entrega

No capítulo VIII da Sexta Parte, Raskólnikov chega à casa de Sônia em tom de troça, e é nesse tom que fala da cruz e do próprio sofrimento:

Это, значит, символ того, что крест беру на себя, хе-хе! И точно, я до сих пор мало страдал!, Isto é, então, o símbolo de que tomo a cruz sobre mim, he-he! E é verdade, até agora sofri pouco!
Sexta Parte: A entrega

Ainda no capítulo VIII da Sexta Parte, o que Sônia faz com as duas cruzes (As cruzes) fecha o que ficara combinado na confissão do capítulo IV da Quinta Parte e traz Lisavieta Ivánovna de volta à cena:

Sônia põe no peito de Raskólnikov só a cruz de cipreste, a dos simples, e fica com a de cobre, que trocou com Lisavieta Ivánovna. Na Quinta Parte ele recusara a de cipreste, dizendo que seria melhor depois, e ela combinara dá-la quando ele fosse ao sofrimento, de modo que a cena cumpre o combinado; a cruz da vítima fica com a mulher que o acompanhará.
Sexta Parte: A entrega

No capítulo II do Epílogo, num dia claro à beira do rio, ele cai aos pés dela, e o narrador dá nome ao que acontece aos dois antes de fazer a conta do que ainda falta, sete anos de sofrimento insuportável e de felicidade sem fim:

Их воскресила любовь, сердце одного заключало бесконечные источники жизни для сердца другого, O amor os ressuscitou: o coração de um encerrava fontes infinitas de vida para o coração do outro.
Epílogo: A ressurreição

Ainda no capítulo II do Epílogo, o narrador avisa que ele não sabe que a vida nova não se ganha de graça, que é preciso pagá-la caro, com um grande feito futuro.

O sofrimento do livro não é uma coisa só e não tem uma tese só. O de Marmieládov e dos filhos no capítulo II da Primeira Parte é miséria, sem sentido que a redima. O que Raskólnikov atribui aos grandes no capítulo V da Terceira Parte é preço da teoria, pago por dentro. O que Sônia, Porfiri e Dúnia propõem a partir do capítulo IV da Quinta Parte é método de recomeço, e o livro o mostra sendo aceito sem fé e sem convicção, por vergonha e por cansaço. O Epílogo não faz do sofrimento uma prova: faz dele a moeda de uma vida nova que o narrador remete a outra história.

Quem o encarna

Sônia é o sofrimento que ninguém discute. No capítulo IV da Quarta Parte, depois de descartar o canal, o hospício e a libertinagem como explicação do que a sustentou, Raskólnikov pergunta se ela reza muito, e a resposta dela vem em forma de outra pergunta:

Что ж бы я без бога-то была?, E o que eu seria sem Deus?
Quarta Parte: O cerco

Porfiri oferece o sofrimento de um lugar rebaixado. No capítulo II da Sexta Parte, quando Raskólnikov lhe pergunta com que direito fala como profeta, ele se põe fora da vida, e o conselho ganha peso justamente por vir de quem perdeu a própria chance:

Кто я? Я поконченный человек, больше ничего., Quem sou eu? Sou um homem acabado, e mais nada.
Sexta Parte: A entrega

Na prisão, no capítulo II do Epílogo, os presos dão a Sônia um nome que nunca dariam a ele, o odiado:

Матушка, Софья Семеновна, мать ты наша, нежная, болезная!, Mãezinha, Sófia Semeónovna, mãe nossa, tão delicada, coitadinha!
Epílogo: A ressurreição

Onde aparece

  • Primeira Parte, capítulo II: Marmieládov pergunta a Raskólnikov se ele entende o que significa já não ter para onde ir, ao contar a miséria da família e a ida de Sônia à rua.
  • Terceira Parte, capítulo V: Na casa de Porfiri, Raskólnikov responde a Razumíkhin que quem tem consciência larga e coração profundo sofre por obrigação, e que os grandes homens carregam uma grande tristeza.
  • Quarta Parte, capítulo IV: No quarto de Sônia, Raskólnikov beija o pé dela e diz que se curvou diante de todo o sofrimento humano, depois de lhe perguntar o que será das crianças.
  • Quarta Parte, capítulo VI: Nikolai irrompe pálido no gabinete de Porfiri e se confessa o assassino, enquanto Raskólnikov o olha e Porfiri diz que as palavras não são dele.
  • Quinta Parte, capítulo IV: Sônia manda Raskólnikov beijar a terra e confessar em voz alta, e responde que isso é aceitar o sofrimento e se redimir por ele.
  • Quinta Parte, capítulo V: Catierina Ivánovna cai tísica na rua depois de correr atrás dos filhos e morre dizendo que esgotaram a velha égua, com Raskólnikov e Sônia ao lado.
  • Sexta Parte, capítulo II: Porfiri diz a Raskólnikov que no sofrimento há uma ideia e que Mikolka tem razão, e se declara um homem acabado.
  • Sexta Parte, capítulo IV: Svidrigáilov descreve Dúnia como alguém que quer padecer por outra pessoa e, sem isso, seria capaz de se atirar pela janela.
  • Sexta Parte, capítulo VII: Dúnia diz ao irmão que quem vai ao sofrimento já lava metade do crime, e ele responde que não pensa em lavá-lo, mas vai se entregar.
  • Sexta Parte, capítulo VIII: Sônia põe no peito de Raskólnikov a cruz de cipreste, e ele diz que é o símbolo de tomar a cruz sobre si e que até agora sofreu pouco.
  • Epílogo, capítulo II: Raskólnikov cai aos pés de Sônia à beira do rio, e o narrador diz que faltam sete anos de sofrimento insuportável e felicidade sem fim.

Onde as leituras divergem

A fala de Porfiri sobre o sofrimento no capítulo II da Sexta Parte também se lê de dois modos, e o texto não escolhe: convicção de quem fala de fé, ou argumento de investigador que sabe que o culpado só se entrega se achar a entrega sua. Do lado de Raskólnikov, a recusa no capítulo IV da Quinta Parte de ir a juízes que também destroem milhões e chamam isso de virtude é, segundo o texto, orgulho e esperança ao mesmo tempo.

O Epílogo reúne as duas pontas sem desfazer a dúvida: o amor que o derruba no capítulo II do Epílogo chega depois de ele recusar o abatimento de Porfiri e de cumprir só pela metade o rito de Sônia, e a prova de que o sofrimento serviu fica fora do livro.