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Tema em Os Irmãos Karamázov

Sofrimento

A dor física ou moral que se atravessa, e o que ela faz com quem sofre: miséria, provação, trauma, o sofrimento do justo.

O tema na obra

O sofrimento em Os Irmãos Karamázov aparece em duas famílias que o livro não consegue juntar. A primeira é a do sofrimento escolhido: Stáriets Zossima manda Aliócha procurar a felicidade na dor, o visitante misterioso declara que quer sofrer para começar a viver, Dmitri Fiódorovitch Karamázov decide ir à Sibéria por um menino que sonhou. Essa família tem dono e tem sentido, e o romance a trata com respeito. A segunda é a do sofrimento imposto: as crianças que Ivan Fiódorovitch Karamázov recolhe em jornais e arquivos, a menina trancada no frio, o menino despedaçado pelos cães do general, e, dentro da própria trama, Iliúcha Snieguiriov, que adoece por um cão que acredita ter matado e por um pai humilhado na praça. Para essas, nenhum sentido oferecido satisfaz, e é por isso que Ivan devolve o bilhete. O inferno do romance não é fogo: é o sofrimento de não poder mais amar, e é o ponto em que este tema se toca com o do amor negado. As cenas mais fortes do livro nascem do ponto em que as duas famílias se tocam e uma não explica a outra.

No capítulo VII do Livro II, Zossima despede Aliócha com um testamento.

Горе узришь великое и в горе сем счастлив будешь. Вот тебе завет: в горе счастья ищи., Você verá grande dor e nessa dor será feliz. Este é o meu testamento: na dor, procure a felicidade.
Livro II: Uma reunião intempestiva

Mais adiante no mesmo capítulo, Aliócha explica a Rakítin o irmão Ivan com uma frase que é de Zossima.

Он мучения, может быть, ищет., Ele procura tormento, talvez.
Livro II: Uma reunião intempestiva

No capítulo VII do Livro IV, depois de pisotear as cédulas que salvariam a casa, o capitão Snieguiriov grita a Aliócha, entre lágrimas, o que ele diria ao filho.

А что ж бы я моему мальчику-то сказал, если б у вас деньги за позор наш взял?, e o que eu diria ao meu menino, se tivesse tomado de vocês o dinheiro pela nossa vergonha?
Livro IV: Os tumultos

No capítulo IV do Livro V, Ivan diz por que escolhe falar das crianças.

деточки ничего не съели и пока еще ни в чем не виновны, as criancinhas não comeram nada e ainda não são culpadas de coisa alguma.
Livro V: Pró e contra

Depois da menina do frio, diz o que pesa menos que a lágrima dela.

весь мир познания не стоит тогда этих слезок ребеночка к «боженьке», todo o mundo do conhecimento não vale então essas lagriminhas do bebê ao Deusinho.
Livro V: Pró e contra

Conta o caso do general e dos galgos, e a recusa da harmonia que o inclui.

Не хочу я, наконец, чтобы мать обнималась с мучителем, растерзавшим ее сына псами! Не смеет она прощать ему!, não quero, afinal, que a mãe se abrace com o carrasco que fez os cães despedaçarem o filho dela! Ela não tem o direito de perdoá-lo!
Livro V: Pró e contra

Fecha a argumentação devolvendo o bilhete.

свой билет на вход спешу возвратить обратно [...] Не бога я не принимаю, Алеша, я только билет ему почтительнейше возвращаю., apresso-me a devolver o meu bilhete de entrada [...] Não é Deus que não aceito, Aliócha; apenas lhe devolvo, com o maior respeito, o bilhete.
Livro V: Pró e contra

No capítulo II do Livro VI, o visitante que decidiu declarar o crime diz o que espera.

Знаю, что наступит рай для меня, тотчас же и наступит, как объявлю. Четырнадцать лет был во аде. Пострадать хочу. Приму страдание и жить начну., sei que o paraíso virá para mim, virá na hora em que eu declarar. Catorze anos estive no inferno. Quero sofrer. Aceitarei o sofrimento e começarei a viver.
Livro VI: Um monge russo

No capítulo III do Livro VI, Zossima define o inferno.

Страдание о том, что нельзя уже более любить, o sofrimento de não poder mais amar.
Livro VI: Um monge russo

No capítulo VIII do Livro IX, Mítia sonha com uma mãe magra e uma criança que chora numa aldeia queimada, e pergunta a si mesmo e ao cocheiro.

почему не кормят дитё?, por que não alimentam a criancinha?
Livro IX: O processo preparatório

No capítulo VII do Livro X, Iliúcha doente consola o pai em vez de ser consolado.

Папа, не плачь… а как я умру, то возьми ты хорошего мальчика, другого… сам выбери из них из всех, хорошего, назови его Илюшей и люби его вместо меня…, papai, não chore... e quando eu morrer, pegue um bom menino, outro... escolha você mesmo, entre todos eles, um bom, chame-o de Iliúcha e ame-o no meu lugar...
Livro X: Morte de Iliúcha

O capitão responde em sussurro, longe do filho.

Не хочу хорошего мальчика! Не хочу другого мальчика!, não quero um bom menino! Não quero outro menino!
Livro X: Morte de Iliúcha

No capítulo IV do Livro XI, na cadeia, Mítia liga o menino do sonho à pena que aceita.

За «дитё» и пойду. Потому что все за всех виноваты. За всех «дитё», потому что есть малые дети и большие дети. Все — «дитё». За всех и пойду, потому что надобно же кому-нибудь и за всех пойти. Я не убил отца, но мне надо пойти. Принимаю!, pelo menino é que irei. Porque todos são culpados por todos. Por todos o menino, porque há crianças pequenas e crianças grandes. Todos são menino. Irei por todos, porque é preciso que alguém vá por todos. Não matei meu pai, mas preciso ir. Aceito!
Livro XI: Ivan Fiódorovitch

No capítulo III do Epílogo, em casa, depois do enterro, o capitão chama o filho diante das botinhas.

Батюшка, Илюшечка, милый батюшка, ножки-то твои где?, meu paizinho, Iliúchetchka, meu querido paizinho, onde estão os teus pezinhos?
Epílogo: O enterro de Iliúcha

Quem o encarna

Ivan é o sofrimento que se recusa a ser justificado, e escreve a recusa em forma de poema e de bilhete devolvido. Zossima e o visitante misterioso são o sofrimento que se aceita e se faz caminho. Mítia está entre os dois: sofre sem explicação, e decide dar-lhe uma. As crianças do poema de Ivan, Iliúcha e a criança do sonho de Mítia são o sofrimento que ninguém escolheu. O capitão Snieguiriov é o sofrimento dos humilhados: recusa o dinheiro por causa do filho que o viu humilhado.

Onde aparece

  • Livro II, capítulo VII: Zossima diz a Aliócha para procurar a felicidade na dor, e Aliócha diz de Ivan que ele procura tormento.
  • Livro IV, capítulo VII: O capitão Snieguiriov pisoteia as cédulas e grita o que diria ao filho se tivesse aceitado.
  • Livro V, capítulo IV: Ivan expõe casos de crianças torturadas, diz que nenhuma harmonia futura paga o sofrimento delas e devolve a Deus o bilhete de entrada.
  • Livro VI, capítulo II: O visitante misterioso confessa a Zinóvi o crime cometido catorze anos antes e diz que quer aceitar o sofrimento para começar a viver.
  • Livro VI, capítulo III: Zossima define o inferno como o sofrimento de não poder mais amar.
  • Livro IX, capítulo VIII: Mítia sonha com a mãe e a criança que choram numa aldeia queimada.
  • Livro X, capítulo VII: Iliúcha pede ao pai outro menino em seu lugar, e o capitão responde que não quer outro.
  • Livro XI, capítulo IV: Mítia diz a Aliócha que irá à Sibéria pelo menino do sonho, porque todos são culpados por todos, embora não tenha matado o pai.
  • Epílogo, capítulo III: O capitão beija as botinhas do filho e pergunta onde estão os pezinhos.

Onde as leituras divergem

Joseph Frank nota que o inferno de Zossima é um atributo da psique.

Frank fecha a pregação de Zossima num ponto que a comparação com Dante, Milton e Shakespeare, na abertura do capítulo, deixava só anunciado: o inferno do romance não tem ganchos nem ferros, é o sofrimento de não mais se poder amar, e diante do "fogo material" Zossima diz que não investiga o mistério, tem medo. Dostoiévski, escreve Frank, continua fiel à sua poética da subjetividade, transformando até mesmo o inferno num atributo da psique humana.
Joseph Frank

O romance admite duas leituras do que une as famílias do sofrimento. Numa, o sofrimento escolhido responde ao imposto: Aliócha, Zossima, Mítia mostram que se pode carregar o mal sem explicá-lo, e a resposta a Ivan é uma vida e não um argumento. Na outra, a resposta não chega, porque o que se escolhe não paga o que se impõe a outro: a menina do frio não escolheu nada.

O livro dá à criança do sonho de Mítia o lugar de ponte. No capítulo VIII do Livro IX o que o comove é uma criança que ninguém alimenta, e é por ela que, no capítulo IV do Livro XI, ele aceita o castigo por um crime que não cometeu. Escolhe-se, portanto, o sofrimento de quem não escolheu. Isso não responde a Ivan, porque Mítia não pode pagar a lágrima da menina do frio com a Sibéria dele. Mas muda a pergunta, de por que existe o sofrimento das crianças para o que fazer enquanto elas sofrem. O Epílogo, em que o pai de Iliúcha não se consola e os meninos prometem lembrar, é o único lugar em que o livro ensaia essa segunda pergunta.