O que é
Duas cruzes de peito que mudam de dono na escada da casa de Parfen Semeónovitch Rogójin. Uma é de estanho, de oito pontas, que um soldado bêbado vendeu a Liev Nikoláievitch Míchkin por vinte copeques, jurando que era de prata; a outra é a cruz de ouro de Rogójin. Rogójin pede para ver a do soldado, pede que o príncipe a dê e oferece a sua; o príncipe aceita com alegria e propõe que se tornem irmãos, e Rogójin o leva pela mão à mãe para a bênção. A troca sela uma irmandade de cruz, que é o nome que o príncipe dará a Rogójin dali em diante, e acontece no mesmo dia em que Rogójin espera o príncipe na escada do hotel com a faca. Antes dela, o livro já mostrou outra cruz: a que o padre dá a beijar ao condenado, na descrição que o príncipe faz na Primeira Parte.
Onde aparece
No capítulo V da Primeira Parte, o príncipe propõe a Adelaida Ivánovna Iepántchina, como tema de quadro, o rosto de um condenado um minuto antes da guilhotina, e conta que o padre lhe dá a cruz a beijar a cada fraqueza e que ele a beija com avidez, sem consciência religiosa. A composição se resume a duas coisas.
Крест и голова, вот картина, a cruz e a cabeça, eis o quadro.
No capítulo IV da Segunda Parte, já na escada, o príncipe conta do soldado que lhe vendeu a cruz de estanho e diz que decidiu não condená-lo. Rogójin o chama de volta, quer a cruz e oferece a sua de ouro, leva o príncipe à mãe, uma velhinha já em plena infância que o abençoa três vezes antes que o filho lhe junte os dedos, e na volta recusa o abraço com uma piada.
Небось! Я хоть и взял твой крест, а за часы не зарежу!, Não tenha medo! Peguei a sua cruz, mas não vou degolar você por um relógio!
Ainda no capítulo IV da Segunda Parte, o abraço vem depois de uma mudança de rosto, e Rogójin bate a porta.
Так бери же ее, коли судьба! Твоя! Уступаю!.. Помни Рогожина!, Então leve-a, se é o destino! É sua! Eu cedo!... Lembre-se de Rogójin!
No capítulo V da Segunda Parte, na rua, quando admite enfim que os olhos que o seguem são os de Rogójin, o príncipe lembra de uma vez tudo o que houve de manhã: a pergunta sobre os olhos, a cruz de Rogójin que agora traz no peito, a bênção da mãe, o último abraço convulso. Horas depois, a mão de Rogójin se ergue na escada do hotel.
No capítulo III da Terceira Parte, no banco do parque, o príncipe diz a Rogójin que só se lembra do Rogójin com quem se irmanou pelas cruzes, diz que o pensamento talvez tenha se mexido ali, na troca, e pergunta se Rogójin o levou à velha mãe para segurar a própria mão. Ao chamá-lo para receber com ele o dia do aniversário, manda que devolva a cruz se não quiser ir, e quer saber se ainda a traz; Rogójin diz que sim.
Мы тогда в одно слово почувствовали. Не подыми ты руку тогда на меня (которую бог отвел), чем бы я теперь пред тобой оказался? Ведь я ж тебя всё равно в этом подозревал, один наш грех, в одно слово!, Naquele dia nós sentimos a mesma coisa, numa só palavra. Se tu não tivesses levantado a mão contra mim (a mão que Deus desviou), o que eu seria agora diante de ti? Pois eu também te suspeitava disso, um pecado só, nosso, numa só palavra!
O que significa
A troca é o gesto mais próximo de um pacto que o romance dá aos dois rivais: cada um passa a usar a cruz do outro, e a mãe de Rogójin abençoa o príncipe como a um filho. O livro, porém, não a deixa sozinha. A cruz de ouro muda de mão no mesmo capítulo da pergunta sobre a fé diante do quadro de Holbein, e a cruz trocada está no peito do príncipe quando a faca se ergue. No banco da Terceira Parte é a cruz que ele usa para perdoar: lembra o irmão de cruz e não o homem da faca, e quer saber se a cruz continua no peito do outro como prova de que a irmandade continua.
A cruz que Rogójin pede é a falsa, a de estanho vendida como prata por um soldado que precisava beber, e ele a pede logo depois de ouvir essa história e de ouvir o príncipe dizer que não condena o vendedor. Duas leituras. Numa, ele toma para si o objeto de uma fé barateada, como quem reconhece no soldado um parente; na outra, o que ele quer não é a cruz, é o que o príncipe fez com ela, recusar-se a condenar quem o enganou. O condenado do capítulo V da Primeira Parte, diz o príncipe, beija a cruz como quem agarra algo de reserva, e a cruz de estanho que Rogójin ainda traz no peito no capítulo III da Terceira Parte pode ser lida do mesmo modo.
Relações
- Temas-padrão: Fé, Compaixão e caridade.
- Temas da obra: Fé, Compaixão e caridade.
- Personagens: Parfen Semeónovitch Rogójin, Liev Nikoláievitch Míchkin, Adelaida Ivánovna Iepántchina.
- Símbolos vizinhos: o quadro de Holbein, diante do qual Rogójin pergunta pela fé minutos antes da troca, e a faca, que se ergue na mesma noite.