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Personagem

Parfen Semeónovitch Rogójin

Quem é

Parfen Semeónovitch Rogójin é o filho de um comerciante que morreu há um mês deixando dois milhões e meio, moreno, de peliça, pálido e febril, e volta escondido a Petersburgo no mesmo trem e no mesmo vagão que Liev Nikoláievitch Míchkin, no capítulo I da Primeira Parte. Desde que viu Nastácia Filíppovna Barachkova sair de uma loja na Nevski vive para ela: desviou o dinheiro de duas apólices do pai para lhe levar uns brincos de brilhante, foi trancado pelo pai e ouviu um sermão de uma hora, fugiu, caiu de febre, e o pai morreu sem ele. A casa da família, na rua Gorókhovaia, grande, sombria e de um verde sujo, com o nome do cidadão honorário hereditário Rogójin na placa (capítulo III da Segunda Parte), é o lugar das três cenas que o definem: a troca de cruzes, o quadro do Cristo morto e a noite ao lado do corpo. É o rival do príncipe e o único homem a quem o príncipe chama de irmão; o romance o faz assassino de Nastácia Filíppovna e não o faz vilão.

Trajetória

No capítulo I da Primeira Parte ele conta a história dos brincos a um desconhecido, só a ele e nunca a Liébediev, que gruda nele ao ouvir falar da herança, e ao chegar à estação adota o príncipe:

Князь, не известно мне, за что я тебя полюбил. Может, оттого, что в эдакую минуту встретил [...] Приходи ко мне, князь. Мы эти штиблетишки-то с тебя поснимаем, одену тебя в кунью шубу в первейшую [...] поедем к Настасье Филипповне! Придешь, али нет?, príncipe, não sei por que fui gostar de você. Talvez por ter encontrado você num momento destes [...] Venha à minha casa, príncipe. Vamos tirar de você essas polainazinhas, vou vesti-lo com uma peliça de marta, da melhor [...] vamos ver Nastácia Filíppovna! Vem ou não vem?
Primeira Parte: A chegada

É ele quem dá ao príncipe, no mesmo vagão, o nome que o acompanha:

Ну, коли так [...] совсем ты, князь, выходишь юродивый, и таких как ты бог любит!, bom, se é assim [...] então você, príncipe, me sai um louco de Deus completo, e gente como você Deus ama!
Primeira Parte: A chegada

No capítulo III da Primeira Parte, diante do retrato, o príncipe faz sobre ele a previsão que o livro cumpre:

Да что же, жениться, я думаю, и завтра же можно; женился бы, а чрез неделю, пожалуй, и зарезал бы ее, ora, casar, acho que poderia até amanhã mesmo; casaria, e dali a uma semana, quem sabe, a mataria a faca.
Primeira Parte: A chegada

No capítulo X da Primeira Parte entra com o bando na casa dos Ívolguin, chamando Gánia de Judas, e ao ver Nastácia Filíppovna ali, depois de saber que ela não casará com Gánia, oferece o dinheiro a ela:

Настасья Филипповна! — вскричал он, глядя на нее, как полоумный, робея и вдруг ободряясь до дерзости: — вот восемнадцать тысяч! — и он шаркнул пред ней на столик пачку в белой бумаге, обернутую накрест шнурками. — вот! И… и еще будет!, Nastácia Filíppovna! (gritou ele, olhando para ela como um meio louco, intimidado e de repente se encorajando até a insolência) aqui estão dezoito mil! (e largou diante dela, na mesinha, um maço embrulhado em papel branco e amarrado em cruz com cordões) Aqui! E... e ainda vai haver mais!
Primeira Parte: A chegada

Sobe o lance para quarenta e depois para cem mil, até a noite. No capítulo XV da Primeira Parte passa a tarde com agiotas a qualquer juro, entra na festa quase sóbrio, põe na mesa um maço embrulhado na Gazeta da Bolsa e espera de mãos caídas, como quem espera a sentença; ela repete o preço em voz alta:

Во сто тысяч меня оценил! [...] Да неужто ты меня в свою семью ввести хотел? Меня-то, Рогожинскую!, me avaliou em cem mil! [...] Será que você queria mesmo me levar para a sua família? A mim, a mulher de Rogójin!
Primeira Parte: A chegada

No capítulo XVI da Primeira Parte, quando o príncipe a pede em casamento, Rogójin geme que ele desista, grita que ela é dele, rainha, e parte com ela em quatro troicas.

Nos seis meses do capítulo I da Segunda Parte, em Moscou, ele a acha e a perde duas vezes, e ela foge pela terceira vez quase do pé do altar. No capítulo III da Segunda Parte, na casa da Gorókhovaia, ele recebe o príncipe pálido como uma estátua, confessa que longe dele o odeia a ponto de querer envenená-lo e que perto dele a raiva passa, e mede o próprio amor pela palavra do rival:

Никакой такой во мне нет к ней жалости. Да и ненавидит она меня пуще всего, Em mim não existe pena nenhuma dela. E ela me odeia mais do que a tudo.
Segunda Parte: O quadro

Conta o que houve em Moscou (o espancamento, o dia e meio sem comer nem dormir pedindo perdão, a lista de livros que ela lhe deu para ler), e ouve o diagnóstico do príncipe:

твою любовь от злости не отличишь, o seu amor não se distingue da raiva.
Segunda Parte: O quadro

Completa a frase com a palavra que o príncipe evitava, a de que vai degolá-la, e revela o que sabe e o que mais o fere:

Другого она любит, — вот что пойми! Точно так, как я ее люблю теперь, точно так же она другого теперь любит. А другой этот знаешь ты кто? Это ты!, Ela ama outro, é isso que você tem de entender! Do mesmo jeito que eu a amo agora, do mesmo jeito ela ama outro agora. E sabe quem é esse outro? É você!
Segunda Parte: O quadro

Por duas vezes o príncipe pega da mesa, distraído, uma faca de jardim nova com cabo de chifre de veado, e por duas vezes Rogójin a arranca da mão dele e a enfia num livro. No capítulo IV da Segunda Parte, ao levar o príncipe para fora, para diante da cópia do Cristo morto que o pai comprou num leilão, pergunta de repente se ele crê em Deus e confirma a frase meio brincalhona do outro:

на эту картину! Да от этой картины у иного еще вера может пропасть! — Пропадает и то, para esse quadro! Ora, esse quadro pode fazer alguém até perder a fé! E Rogójin: e perde mesmo.
Segunda Parte: O quadro

Na escada, pede a cruz de estanho que o príncipe comprou de um soldado e lhe dá a sua, de ouro; leva-o à bênção da mãe; recusa o primeiro abraço com uma piada tirada da história que acabou de ouvir:

Небось! Я хоть и взял твой крест, а за часы не зарежу!, Não tenha medo! Peguei a sua cruz, mas não vou degolar você por um relógio!
Segunda Parte: O quadro

E, depois de mudar de rosto, cede:

Так бери же ее, коли судьба! Твоя! Уступаю!.. Помни Рогожина!, Então leve-a, se é o destino! É sua! Eu cedo!... Lembre-se de Rogójin!
Segunda Parte: O quadro

No capítulo V da Segunda Parte, o príncipe passa o dia sentindo os olhos dele e reconhece numa vitrine a faca da mesa; à noite, no nicho da escada do hotel, encontra Rogójin com a mão erguida:

Парфен, не верю!, Parfen, não acredito!
Segunda Parte: O quadro

O uivo do ataque epiléptico o paralisa, e ele foge do hotel. No capítulo VI da Segunda Parte vai todos os dias à datcha de Liébediev saber da saúde do príncipe, e no capítulo X da Segunda Parte, por insistência de Nastácia, compra a trinta as promissórias de Radomski. No capítulo II da Terceira Parte leva Nastácia do vauxhall, rindo na cara do oficial que ela chicoteou. No capítulo III da Terceira Parte senta-se ao lado do príncipe num banco do parque, à meia-noite, com um recado dela, e recebe dele o perdão que divide a culpa:

Мы тогда в одно слово почувствовали. Не подыми ты руку тогда на меня (которую бог отвел), чем бы я теперь пред тобой оказался? Ведь я ж тебя всё равно в этом подозревал, один наш грех, в одно слово!, Naquele dia nós sentimos a mesma coisa, numa só palavra. Se tu não tivesses levantado a mão contra mim (a mão que Deus desviou), o que eu seria agora diante de ti? Pois eu também te suspeitava disso, um pecado só, nosso, numa só palavra!
Terceira Parte: A explicação

Responde sem rancor e sem conciliação:

Каждому твоему слову верю и знаю, что ты меня не обманывал никогда и впредь не обманешь; а я тебя все-таки не люблю, Acredito em cada palavra tua e sei que nunca me enganaste e que não vais me enganar; e mesmo assim eu não gosto de ti.
Terceira Parte: A explicação

E conta o que ela lhe disse, tirando a conclusão que mais o fere:

так она еще не разлюбила тебя [...] Ты ведь знаешь, что она тебя с тою непременно повенчать хочет, слово такое дала, хе-хе! [...] Говорит: «Хочу его счастливым видеть», — значит, стало быть, любит, ela, então, ainda não deixou de te amar [...] Tu sabes que ela quer de todo jeito te casar com aquela, deu palavra, he-he! [...] Diz ela: quero vê-lo feliz; então quer dizer que ama.
Terceira Parte: A explicação

Ainda traz a cruz trocada, diz, e aceita entrar no aniversário do príncipe. No capítulo IV da Terceira Parte está no terraço sem beber, como quem espera alguma coisa; no capítulo V da Terceira Parte, Hippolit o acusa diante de todos de ter passado uma hora sentado em silêncio no quarto dele, à uma da madrugada, e ele nega. No capítulo VI da Terceira Parte, a Explicação de Hippolit põe a casa dele e o quadro sobre a porta no centro da decisão de morrer. No capítulo X da Terceira Parte leva Nastácia à carruagem depois de ela perguntar ao príncipe se ele é feliz, conta que leu todas as cartas dela a Aglaia, ri da navalha enrolada em seda que ela imagina na gaveta dele, e diz baixo que talvez ela não seja louca.

No capítulo VIII da Quarta Parte abre a porta da casa de Dária Alieksêievna para o encontro das duas mulheres, é expulso por Nastácia depois que Aglaia foge, pega o chapéu e sai sem uma palavra. No capítulo X da Quarta Parte anda por Pávlovsk durante a semana do casamento, e no dia, à porta da casa de Dária Alieksêievna, é ele que ela agarra:

Спаси меня! Увези меня! Куда хочешь, сейчас!, Me salva! Me leva embora! Para onde você quiser, agora!
Quarta Parte: O desfecho

Leva-a à estação e, na plataforma, compra por cinquenta rublos a mantilha de uma moça para cobrir o vestido de noiva. No capítulo XI da Quarta Parte se esconde do príncipe atrás da persiana, depois o busca na rua, leva-o à Gorókhovaia, mostra o corpo atrás da cortina e conta o golpe como quem conta um mistério:

совсем нож как бы на полтора… али даже на два вершка прошел… под самую левую грудь… а крови всего этак с пол-ложки столовой на рубашку вытекло; больше не было…, a faca entrou um vierchok e meio... ou até dois vierchoks... bem embaixo do seio esquerdo... e sangue só escorreu na camisola coisa de meia colher de sopa; mais não houve...
Quarta Parte: O desfecho

Propõe que passem a noite juntos ao lado dela, sem entregá-la a ninguém, delira ao amanhecer, e é assim que os encontram:

князь протягивал к нему тогда свою дрожащую руку и тихо дотрогивался до его головы, до его волос, гладил их и гладил его щеки… больше он ничего не мог сделать!, o príncipe estendia para ele, então, a mão trêmula e tocava de leve a cabeça dele, os cabelos, alisava-os e alisava as faces dele... nada mais podia fazer!
Quarta Parte: O desfecho

No capítulo XII da Quarta Parte passa dois meses com inflamação cerebral, depõe no julgamento com clareza sobre cada detalhe, não contradiz o advogado e é condenado a quinze anos de trabalhos forçados na Sibéria; a fortuna passa ao irmão.

Temas que encarna

Rogójin é a paixão que só sabe dizer-se como posse, e o romance lhe dá uma única língua para ela, o dinheiro: os brincos comprados com as apólices do pai (capítulo I da Primeira Parte), os dezoito, quarenta e cem mil (capítulo X da Primeira Parte, capítulo XV da Primeira Parte), as promissórias de Radomski compradas a pedido dela (capítulo X da Segunda Parte), a mantilha de cinquenta rublos na plataforma (capítulo X da Quarta Parte). Por isso ele é a figura mais clara do tema de Dinheiro e riqueza e, ao mesmo tempo, o que mais desmente o tema: o dinheiro não compra Nastácia nem uma vez, e ele sabe disso desde o primeiro capítulo, quando ficou mudo diante dela enquanto outro falava.

O que ele não suporta no príncipe não é a rivalidade, é a pena. Quando o príncipe diz amá-la com pena (capítulo III da Segunda Parte), Rogójin se define pelo contrário, sem pena nenhuma, e é aí que a pergunta sobre a fé entra na casa dele: diante do Cristo morto que guarda sobre a porta (capítulo IV da Segunda Parte), o símbolo de o quadro de Holbein, ele confirma que se pode perder a fé e diz gostar de olhar para ele, e logo depois pede a cruz do outro. A troca de cruzes não afasta a faca, e a faca não desfaz a troca: no banco do parque ele ainda traz a cruz no peito (capítulo III da Terceira Parte). O livro põe as duas coisas no mesmo homem e no mesmo dia, e é esse o centro de a troca de cruzes e de a faca.

O assassino é dos que dizem ao príncipe, sem rodeios, o que sentem. Ele diz que o odeia longe dele (capítulo III da Segunda Parte), que não gosta dele (capítulo III da Terceira Parte), que talvez nem tenha pensado na faca depois; e no julgamento confirma tudo e não se defende (capítulo XII da Quarta Parte). O que ele não diz em nenhum momento é por que matou, e o livro também não diz: deixa no lugar do motivo o pouco sangue, o oleado, os frascos abertos e a mosca (capítulo XI da Quarta Parte).

Relações