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Símbolo

A faca

O que é

Uma faca de jardim nova, de cabo de chifre de veado, que está sobre a mesa de Parfen Semeónovitch Rogójin, ao lado de um livro, na casa da rua Gorókhovaia. Liev Nikoláievitch Míchkin a pega duas vezes sem perceber, Rogójin a arranca da mão dele, e na mesma noite algo brilha na mão erguida de Rogójin, na escada do hotel. É com a mesma faca que Rogójin mata Nastácia Filíppovna Barachkova na última noite do livro. Antes de existir como objeto, ela existe como palavra: o verbo de matar a faca aparece na boca do príncipe já no terceiro capítulo, e ao lado dela o romance põe a navalha enrolada em seda de um crime lido no jornal, que Nastácia Filíppovna cita duas vezes.

Onde aparece

No capítulo III da Primeira Parte, diante do retrato, Gavrila Ardaliónovitch Ívolguin pergunta ao príncipe se Rogójin se casaria com ela, e ele responde em voz baixa, como dedução da paixão que viu no trem.

Да что же, жениться, я думаю, и завтра же можно; женился бы, а чрез неделю, пожалуй, и зарезал бы ее, ora, casar, acho que poderia até amanhã mesmo; casaria, e dali a uma semana, quem sabe, a mataria a faca.
Primeira Parte: A chegada

No capítulo XV da Primeira Parte, na festa de aniversário, Nastácia Filíppovna diz a Gánia que um homem como ele mataria por dinheiro, enrolaria seda numa navalha e degolaria um amigo pelas costas, como ela leu num jornal.

No capítulo III da Segunda Parte, na casa de Rogójin, o príncipe diz que o amor dele não se distingue da raiva, e Rogójin completa a frase com a palavra que o príncipe evitava, a de que vai degolá-la. O príncipe procura uma razão para a escolha dela.

Кто сознательно в воду или под нож идет?, Quem vai conscientemente para a água ou para debaixo da faca?
Segunda Parte: O quadro

Ainda no capítulo III da Segunda Parte, em grande agitação, o príncipe pega duas vezes, distraído, a faca que está ao lado do livro; Rogójin a arranca da mão dele as duas vezes, enfia no livro e joga o livro na outra mesa, gritando que pode muito bem comprar uma faca nova.

No capítulo IV da Segunda Parte, depois da troca de cruzes, Rogójin recusa o abraço do príncipe com a história que acabara de ouvir, a do camponês que rezou e degolou o amigo por um relógio.

Небось! Я хоть и взял твой крест, а за часы не зарежу!, Não tenha medo! Peguei a sua cruz, mas não vou degolar você por um relógio!
Segunda Parte: O quadro

No capítulo V da Segunda Parte, o príncipe se surpreende procurando alguma coisa em volta, volta quinhentos passos até a vitrine de um cuteleiro e reencontra o objeto que avaliara em sessenta copeques, de cabo de chifre de veado. À noite, no nicho da escada de pedra do hotel, vê a mão direita de Rogójin erguida e algo que brilha nela.

Парфен, не верю!, Parfen, não acredito!
Segunda Parte: O quadro

No capítulo III da Terceira Parte, perto da meia-noite, no banco do parque, o príncipe diz a Rogójin que só se lembra daquele com quem trocou cruzes, não daquele que levantou a faca, e toma para si metade da culpa.

Мы тогда в одно слово почувствовали. Не подыми ты руку тогда на меня (которую бог отвел), чем бы я теперь пред тобой оказался? Ведь я ж тебя всё равно в этом подозревал, один наш грех, в одно слово!, Naquele dia nós sentimos a mesma coisa, numa só palavra. Se tu não tivesses levantado a mão contra mim (a mão que Deus desviou), o que eu seria agora diante de ti? Pois eu também te suspeitava disso, um pecado só, nosso, numa só palavra!
Terceira Parte: A explicação

No capítulo X da Terceira Parte, na última carta a Aglaia Ivánovna Iepántchina, Nastácia Filíppovna diz que conhece o segredo dos olhos que a vigiam.

но я знаю их тайну [...] Я уверена, что у него в ящике спрятана бритва, обмотанная шелком, как и у того московского убийцы [...] Я бы его убила со страху… Но он меня убьет прежде…, mas eu sei o segredo deles. [...] Tenho certeza de que ele tem na gaveta uma navalha escondida, enrolada em seda, como aquele assassino de Moscou [...] Eu o mataria de medo... Mas ele vai me matar antes...
Terceira Parte: A explicação

No capítulo X da Quarta Parte, cinco dias antes do casamento, Nastácia Filíppovna grita que Rogójin está escondido no jardim e vai degolá-la de noite; a capitã conta que ele estava em Petersburgo àquela hora. No mesmo capítulo, Hippolit Tieriêntiev assusta o príncipe dizendo que Rogójin, tirada a noiva, pode matar Aglaia por vingança.

No capítulo XI da Quarta Parte, na casa da Gorókhovaia, o príncipe pergunta se foi com a faca, se com a mesma, e Rogójin diz que foi com a mesma, que a tirou da gaveta naquela madrugada e que não sabe se queria matá-la já na porta da igreja. O que o espanta é o pouco sangue.

совсем нож как бы на полтора… али даже на два вершка прошел… под самую левую грудь… а крови всего этак с пол-ложки столовой на рубашку вытекло; больше не было…, a faca entrou um vierchok e meio... ou até dois vierchoks... bem embaixo do seio esquerdo... e sangue só escorreu na camisola coisa de meia colher de sopa; mais não houve...
Quarta Parte: O desfecho

O que significa

A faca é o que a paixão de Rogójin vira quando não acha outra saída, e o livro a deixa à vista do príncipe desde o começo: ele prevê a morte no primeiro dia, pega o objeto na mesa sem saber por quê, reconhece-o numa vitrine e o vê erguido na escada. Nastácia Filíppovna também sabe; escreve que ele guarda uma navalha na gaveta e marca o casamento com ele assim mesmo. O romance mostra uma morte que todos anunciam e ninguém impede.

A faca anda sempre junto da cruz. No capítulo III da Segunda Parte ela está na mesa do homem que, no capítulo IV da Segunda Parte, troca a cruz com o príncipe e o leva à bênção da mãe; na escada do capítulo V da Segunda Parte o príncipe a vê trazendo no peito a cruz de Rogójin; no banco do capítulo III da Terceira Parte ele perdoa a faca em nome da cruz e pergunta se Rogójin o levou à velha mãe para segurar a própria mão. Duas leituras. Numa, a troca de cruzes foi uma tentativa de Rogójin de conter o gesto, e a faca prova que não bastou; na outra, a irmandade e a faca são a mesma intimidade, e é por isso que, no capítulo XI da Quarta Parte, os dois passam a noite juntos ao lado do corpo.

Relações