O que é
Uma cópia do Cristo morto de Hans Holbein pendurada sobre uma porta na casa sombria de Parfen Semeónovitch Rogójin, na rua Gorókhovaia, numa sala cheia de retratos de bispos. É um quadro de formato estranho, comprido e baixo, que mostra o Salvador recém-tirado da cruz. O pai de Rogójin o comprou por dois rublos num leilão, já ofereceram quinhentos por ele, e o filho o guardou para si. Liev Nikoláievitch Míchkin viu o original no estrangeiro e não consegue esquecê-lo. O livro mostra o quadro duas vezes: pelos olhos do príncipe, que diz sobre ele uma única frase, e pela descrição longa de Hippolit Tieriêntiev, que o põe no centro da sua Explicação. Ao lado dele o romance põe duas imagens que lhe respondem: a Madona do mesmo pintor, com que o príncipe lê um rosto vivo na Primeira Parte, e o Cristo sozinho com uma criança que Nastácia Filíppovna Barachkova diz que pintaria.
Onde aparece
No capítulo VI da Primeira Parte, ao cumprir a promessa de dizer o que vê no rosto das moças Iepántchin, o príncipe compara o de Alieksandra Ivánovna Iepántchina ao de uma Madona de Holbein que está em Dresden. É a primeira vez que o nome do pintor entra no livro, e entra pela beleza triste de um rosto vivo.
У вас, Александра Ивановна, лицо тоже прекрасное и очень милое, но, может быть, у вас есть какая-нибудь тайная грусть; душа у вас, без сомнения, добрейшая, но вы не веселы. У вас какой-то особенный оттенок в лице, похоже как у Гольбейновой Мадонны в Дрездене, a senhora, Alieksandra Ivánovna, também tem um rosto belo e muito gentil, mas talvez tenha alguma tristeza secreta; a sua alma é, sem dúvida, boníssima, mas a senhora não é alegre. Há no seu rosto um matiz especial, parecido com o da Madona de Holbein, em Dresden.
No capítulo IV da Segunda Parte, Rogójin conduz o príncipe de volta pelos cômodos escuros, e sobre uma porta está o quadro. O príncipe o reconhece como boa cópia; Rogójin larga o assunto, anda alguns passos, pergunta de repente se ele crê em Deus e diz que gosta de olhar para aquele quadro. A resposta do príncipe sai quase como brincadeira, e Rogójin a confirma a sério.
на эту картину! Да от этой картины у иного еще вера может пропасть! — Пропадает и то, para esse quadro! Ora, esse quadro pode fazer alguém até perder a fé! E Rogójin: e perde mesmo.
Ainda no capítulo IV da Segunda Parte, já na escada, o príncipe responde à pergunta sobre a fé com quatro encontros da semana anterior. O último, o de uma camponesa que se benze porque o filho sorriu pela primeira vez, é a resposta que ele dá ao quadro sem voltar a falar dele.
такая же точно бывает и у бога радость всякий раз, когда он с неба завидит, что грешник пред ним от всего своего сердца на молитву становится, a mesma alegria Deus tem toda vez que vê lá do céu um pecador se pôr a rezar diante dele de todo o coração.
No capítulo V da Segunda Parte, andando sem rumo por Petersburgo, o príncipe volta à cena da manhã: lembra que Rogójin disse sombriamente que a fé se perde, conclui que ele não gosta de olhar o quadro, precisa dele, que é um lutador que quer recuperar à força a fé que perdeu, e acha estranho, mais uma vez, aquele quadro de Holbein. Na mesma noite, os olhos de Rogójin o esperam no nicho da escada do hotel.
No capítulo VI da Terceira Parte, na Explicação, Hippolit conta que viu o quadro ao retribuir uma visita a Rogójin, numa casa que lhe pareceu um cemitério, e o descreve como cadáver, sem beleza nenhuma.
В картине же Рогожина о красоте и слова нет; это в полном виде труп человека, вынесшего бесконечные муки [...] На картине это лицо страшно разбито ударами, вспухшее, со страшными, вспухшими и окровавленными синяками, глаза открыты, зрачки скосились; большие, открытые белки глаз блещут каким-то мертвенным, стеклянным отблеском, Já no quadro de Rogójin não há nem palavra de beleza; é, por inteiro, o cadáver de um homem que suportou tormentos sem fim [...] No quadro, esse rosto está terrivelmente desfeito pelos golpes, inchado, com hematomas terríveis, inchados e ensanguentados, os olhos abertos, as pupilas enviesadas; os grandes brancos dos olhos, abertos, brilham com um reflexo morto, vítreo.
Da descrição ele passa à pergunta que o quadro lhe faz, posta em nome dos discípulos e das mulheres que estavam junto à cruz.
каким образом могли они поверить, смотря на такой труп, что этот мученик воскреснет?, como puderam acreditar, olhando para um cadáver assim, que esse mártir ressuscitaria?
E dá à natureza que moeu aquele corpo a forma de uma fera muda e de uma máquina moderna.
Природа мерещится при взгляде на эту картину в виде какого-то огромного, неумолимого и немого зверя [...] в виде какой-нибудь громадной машины новейшего устройства, которая бессмысленно захватила, раздробила и поглотила в себя [...] великое и бесценное существо — такое существо, которое одно стоило всей природы и всех законов ее, всей земли, Olhando esse quadro, a natureza assoma na forma de uma fera enorme, implacável e muda [...] na forma de uma máquina gigantesca, de fabricação moderníssima, que sem sentido agarrou, triturou e engoliu [...] um ser grande e inestimável, um ser que sozinho valia toda a natureza e todas as suas leis, a terra inteira.
Ainda no capítulo VI da Terceira Parte, naquela mesma noite, febril, Hippolit vê Rogójin entrar no quarto à uma da manhã e sentar-se calado sob a lamparina do ícone, e diz que foi essa visita, e não a lógica, que decidiu a sua morte.
No capítulo X da Terceira Parte, numa das cartas a Aglaia Ivánovna Iepántchina, Nastácia Filíppovna descreve o quadro que pintaria: Cristo sozinho com uma criança, ao pôr do sol, pensativo, de rosto triste. Poucas horas separam essa imagem do cadáver que Hippolit leu em voz alta.
Христос его слушал, но теперь задумался [...] мысль, великая, как весь мир, покоится в его взгляде; лицо грустное, Cristo o escutava, mas agora ficou pensativo [...] um pensamento, grande como o mundo inteiro, repousa no olhar dele; o rosto é triste.
O que significa
O quadro é a objeção mais forte que o romance faz à fé, posta numa imagem e não num argumento. Diante dele o príncipe diz que se pode perder a fé, Rogójin diz que se perde, e Hippolit tira daí a pergunta de como alguém pôde acreditar na ressurreição olhando um cadáver assim. Nenhum dos três o refuta. O príncipe responde com uma cena vista, a camponesa e o primeiro sorriso do filho, e a Terceira Parte responde com o Cristo vivo e pensativo que Nastácia Filíppovna imagina ao lado de uma criança.
O quadro mora na casa de Rogójin, e as duas vezes que o livro o mostra terminam na mesma figura. No capítulo V da Segunda Parte, horas depois da frase sobre a fé, Rogójin espera o príncipe na escada com a faca; no capítulo VI da Terceira Parte, na noite em que Hippolit viu o quadro, Rogójin aparece calado no quarto dele, e Hippolit diz que foi essa visita que o decidiu. O quadro não fica parado na parede: é a fé que se perde vista de perto por quem vai matar e por quem quer se matar. Duas leituras. Numa, Rogójin olha o quadro porque já perdeu a fé e gosta de confirmar a perda; na outra, que é a do próprio príncipe no capítulo V da Segunda Parte, ele o olha porque precisa dele e quer recuperar à força o que perdeu.
Relações
- Temas-padrão: Fé, Morte, Beleza.
- Temas da obra: Fé, Morte, Beleza.
- Personagens: Liev Nikoláievitch Míchkin, Parfen Semeónovitch Rogójin, Hippolit Tieriêntiev, Nastácia Filíppovna Barachkova, Alieksandra Ivánovna Iepántchina, Aglaia Ivánovna Iepántchina.
- Símbolos vizinhos: a troca de cruzes, que acontece na mesma visita, logo depois da frase sobre a fé, e a faca, que Rogójin ergue na mesma noite.