O tema na obra
O romance pergunta pela fé em voz alta, e quem pergunta é Parfen Semeónovitch Rogójin, diante da cópia de um Cristo morto que ele diz gostar de olhar (O quadro de Holbein). A resposta de Liev Nikoláievitch Míchkin não é um argumento: são quatro encontros de uma semana, um ateu culto que parecia falar o tempo todo de outra coisa, um camponês que se benze e degola o amigo por um relógio, um soldado que vende como prata uma cruz de estanho, e uma mãe que se benze porque o filho sorriu pela primeira vez. Dessa cena vem a ideia que o livro sustenta sem demonstrar: a essência do sentimento religioso não cabe em raciocínio, nem em crime, nem em ateísmo. Contra ela, a Terceira Parte põe a objeção mais séria, a de Hippolit Tieriêntiev diante do mesmo quadro, e a Quarta Parte põe o príncipe a falar da fé num salão, contra o catolicismo e a favor de um Cristo que a Rússia teria guardado, até cair num ataque. O livro não dá a vitória a nenhum dos lados; mostra a fé como coisa que se perde, que se procura à força, que se vende barato e que se reconhece num gesto de mãe.
No capítulo IV da Segunda Parte, diante do quadro, a frase do príncipe sai quase como brincadeira, e Rogójin a confirma.
на эту картину! Да от этой картины у иного еще вера может пропасть! — Пропадает и то, para esse quadro! Ora, esse quadro pode fazer alguém até perder a fé! E Rogójin: e perde mesmo.
Na escada, depois dos quatro encontros, o príncipe tira a conclusão.
сущность религиозного чувства ни под какие рассуждения, ни под какие проступки и преступления и ни под какие атеизмы не подходит; тут что-то не то, и вечно будет не то, a essência do sentimento religioso não cabe em nenhum raciocínio, em nenhuma falta nem crime, em nenhum ateísmo; ali há algo que não é isso, e eternamente não será isso.
E a resposta que ele dá vem da camponesa.
такая же точно бывает и у бога радость всякий раз, когда он с неба завидит, что грешник пред ним от всего своего сердца на молитву становится, a mesma alegria Deus tem toda vez que vê lá do céu um pecador se pôr a rezar diante dele de todo o coração.
No capítulo IV da Terceira Parte, na festa de aniversário do príncipe, Lukian Timofêievitch Liébediev, bêbado, prega contra o século das ferrovias e da estrela Absinto.
И осмельтесь сказать, наконец, что не ослабели, не помутились источники жизни под этою «звездой», под этою сетью, опутавшею людей [...] Богатства больше, но силы меньше; связующей мысли не стало; всё размягчилось, всё упрело и все упрели! Все, все, все мы упрели!, E ousem dizer, enfim, que as fontes da vida não se enfraqueceram, não se turvaram sob essa estrela, sob essa rede que enredou os homens. [...] Há mais riqueza, porém menos força; a ideia que unia acabou; tudo amoleceu, tudo apodreceu e todos apodreceram! Todos, todos, todos nós apodrecemos!
No capítulo VI da Terceira Parte, Hippolit faz ao quadro a pergunta dos discípulos.
каким образом могли они поверить, смотря на такой труп, что этот мученик воскреснет?, como puderam acreditar, olhando para um cadáver assim, que esse mártir ressuscitaria?
No capítulo VII da Terceira Parte, ele admite a vida eterna e até a providência, mas recusa a humildade que lhe pedem.
Неужто нельзя меня просто съесть, не требуя от меня похвал тому, что меня съело?, Será que não podem simplesmente me devorar, sem exigir de mim louvores àquilo que me devorou?
No capítulo X da Terceira Parte, Nastácia Filíppovna Barachkova escreve a Aglaia Ivánovna Iepántchina que chegou a achá-la perfeita não pela razão, mas por crer.
но вы для меня — совершенство! Я вас видела, я вижу вас каждый день. Ведь я не сужу вас; я не рассудком дошла до того, что вы совершенство; я просто уверовала, mas a senhora, para mim, é a perfeição! Eu a vi, eu a vejo todo dia. Pois eu não a julgo; não foi pela razão que cheguei a achar que a senhora é a perfeição; eu simplesmente passei a crer.
No capítulo VII da Quarta Parte, ao saber que Pavlischov se converteu ao catolicismo no fim da vida, o príncipe se exalta diante dos convidados.
Атеизм только проповедует нуль, а католицизм идет дальше: он искаженного Христа проповедует, им же оболганного и поруганного, Христа противоположного! Он антихриста проповедует, [...] По-моему, римский католицизм даже и не вера, а решительно продолжение Западной Римской империи, O ateísmo só prega o zero, e o catolicismo vai além: prega um Cristo deformado, caluniado e ultrajado por ele mesmo, um Cristo ao contrário! Prega o anticristo, [...] A meu ver, o catolicismo romano nem sequer é uma fé, mas decididamente uma continuação do Império Romano do Ocidente.
E explica a sede do russo que vira jesuíta ou ateu fanático.
От того, что он отечество нашел, которое здесь просмотрел, и обрадовался; берег, землю нашел и бросился ее целовать! [...] „Кто почвы под собой не имеет, тот и Бога не имеет“., É porque ele achou a pátria que aqui não tinha enxergado, e se alegrou; achou a margem, a terra, e se atirou a beijá-la! [...] "Quem não tem chão debaixo de si também não tem Deus".
Os que perdem a fé no livro são os que a procuram com mais força. Rogójin, segundo o próprio príncipe no capítulo V da Segunda Parte, quer recuperar à força a fé perdida; Hippolit, no capítulo VII da Terceira Parte, não nega Deus, recusa louvá-lo; o russo de que o príncipe fala no capítulo VII da Quarta Parte se atira a beijar a terra que achou. O que o príncipe oferece em troca é uma fé que não se demonstra, a da mãe camponesa do capítulo IV da Segunda Parte, e o livro a deixa sem defesa diante do quadro.
Quem o encarna
A camponesa do capítulo IV da Segunda Parte, que só existe no relato do príncipe, e o próprio príncipe, que a cita como quem dá um testemunho. Do outro lado, Rogójin, que na mesma tarde, segundo o príncipe no capítulo V da Segunda Parte, olha o quadro não porque goste, mas porque precisa dele. E Liébediev, que interpreta o Apocalipse há quinze anos e reza pela alma da condessa Du Barry; no capítulo X da Quarta Parte, já bebido, aplica ao príncipe uma palavra do Evangelho.
Утаил от премудрых и разумных и открыл младенцам, я это говорил еще и прежде про него, но теперь прибавляю, что и самого младенца бог сохранил, спас от бездны, он и все святые его!, Escondeu dos sábios e entendidos e revelou aos pequeninos, isso eu já dizia antes dele, mas agora acrescento que Deus também guardou o próprio pequenino, salvou-o do abismo, Ele e todos os seus santos!
Onde aparece
- Primeira Parte, capítulo I: Rogójin chama o príncipe de louco de Deus e diz que gente como ele Deus ama.
- Primeira Parte, capítulo V: O príncipe descreve o condenado que beija a cruz com avidez, sem consciência religiosa, e resume o quadro na cruz e na cabeça.
- Segunda Parte, capítulo II: Liébediev diz que reza pela condessa Du Barry e lê no Apocalipse um século de medida e contrato.
- Segunda Parte, capítulo IV: Rogójin pergunta se o príncipe crê em Deus, e o príncipe responde com quatro encontros e com a alegria de uma mãe.
- Segunda Parte, capítulo V: O príncipe pensa que Rogójin olha o quadro porque precisa dele e quer recuperar à força a fé perdida.
- Segunda Parte, capítulo XI: Keller conta ao príncipe que perdeu toda moralidade por falta de fé.
- Terceira Parte, capítulo IV: Liébediev diz que as fontes da vida se turvaram sob a estrela Absinto e que a ideia que unia os homens acabou.
- Terceira Parte, capítulo VI: Hippolit pergunta como os discípulos puderam acreditar na ressurreição olhando um cadáver como o do quadro.
- Terceira Parte, capítulo VII: Hippolit admite a vida eterna, mas recusa louvar aquilo que o devora.
- Terceira Parte, capítulo X: Nastácia Filíppovna descreve o Cristo que pintaria, sozinho com uma criança, e diz a Aglaia que passou a crer na perfeição dela.
- Quarta Parte, capítulo VII: O príncipe diz que o catolicismo prega um Cristo deformado e que quem não tem chão debaixo de si não tem Deus.
- Quarta Parte, capítulo X: Liébediev diz que Deus escondeu dos sábios e revelou aos pequeninos, e que salvou o príncipe do abismo.
- Quarta Parte, capítulo XII: Aglaia vai parar no confessionário de um padre famoso, que se apodera da mente dela.
Onde as leituras divergem
A pergunta de Hippolit diante do quadro na casa de Rogójin fica sem resposta no livro, e a resposta possível depende do que se põe ao lado dela. O Cristo morto do quadro e o Cristo vivo das cartas de Nastácia Filíppovna, no capítulo X da Terceira Parte, aparecem com poucas horas de distância.
Христос его слушал, но теперь задумался [...] мысль, великая, как весь мир, покоится в его взгляде; лицо грустное, Cristo o escutava, mas agora ficou pensativo [...] um pensamento, grande como o mundo inteiro, repousa no olhar dele; o rosto é triste.
O discurso do capítulo VII da Quarta Parte pode ser lido como a convicção do príncipe enfim dita, ou como a febre que anuncia o ataque, e o livro dá razões para as duas: as ideias voltam no Diário de um escritor, e a sala as ouve como as de um doente. O que a cena mostra com certeza é que a fé do príncipe, quando ele tenta dizê-la em público, quebra um vaso e o derruba.