Quem é
O príncipe Liev Nikoláievitch Míchkin é, com a generala Iepántchina, o último da antiga e decaída linhagem principesca dos Míchkin (capítulo II da Primeira Parte), órfão desde pequeno, criado no campo pelo benfeitor Pavlischov por causa da saúde e mandado à Suíça para tratar uma doença nervosa, uma espécie de epilepsia, que nos ataques da infância o deixara quase idiota (capítulo III da Primeira Parte). Volta a Petersburgo depois de mais de quatro anos no sanatório do doutor Schneider, sem dinheiro, com uma trouxinha e uma capa imprópria para o inverno russo (capítulo I da Primeira Parte), e no fim do primeiro dia recebe a notícia de uma herança de um milhão e meio (capítulo XVI da Primeira Parte). O romance gira em torno dele: chega, entra em todas as casas, é chamado de idiota em todas, e no último capítulo volta ao sanatório de onde saiu (capítulo XII da Quarta Parte). O traço que o define desde a primeira cena é ler rostos e dizer o que lê, sem cálculo e sem medo do efeito.
Trajetória
No capítulo I da Primeira Parte, no vagão de terceira classe do trem de Varsóvia, o narrador o apresenta pelo olhar antes de dar nome à doença:
Глаза его были большие, голубые и пристальные; во взгляде их было что-то тихое, но тяжелое, что-то полное того странного выражения, по которому некоторые угадывают с первого взгляда в субъекте падучую болезнь, os olhos dele eram grandes, azuis e fixos; havia no olhar algo de quieto, mas pesado, algo cheio daquela expressão estranha pela qual alguns adivinham, à primeira vista, o mal caduco no sujeito.
O vizinho de banco, Parfen Semeónovitch Rogójin, conta-lhe a paixão por Nastácia Filíppovna, e o príncipe responde à história com uma franqueza que desarma:
Потому, я вам скажу откровенно, вы мне сами очень понравились и особенно, когда про подвески бриллиантовые рассказывали. Даже и прежде подвесок понравились, хотя у вас и сумрачное лицо, porque, vou lhe dizer com franqueza, o senhor mesmo me agradou muito, sobretudo quando contava dos brincos de brilhante. Já antes dos brincos me agradou, embora o senhor tenha um rosto sombrio.
Quando diz que, por causa da doença, nunca conheceu mulher, Rogójin o classifica com a palavra da piedade popular que acompanha o príncipe dali em diante:
Ну, коли так [...] совсем ты, князь, выходишь юродивый, и таких как ты бог любит!, bom, se é assim [...] então você, príncipe, me sai um louco de Deus completo, e gente como você Deus ama!
No capítulo II da Primeira Parte, na antessala do general Iepántchin, ele conversa com o criado sobre a guilhotina que viu em Lyon e desloca o horror da execução do corpo para a certeza:
А ведь главная, самая сильная боль, может, не в ранах, а вот, что вот знаешь наверно, что вот через час, потом через десять минут, потом через полминуты, потом теперь, вот сейчас — душа из тела вылетит, и что человеком уж больше не будешь, и что это уж наверно; главное то, что наверно., mas a dor principal, a mais forte, talvez não esteja nas feridas, e sim nisto: em saber com certeza que daqui a uma hora, depois daqui a dez minutos, depois daqui a meio minuto, depois agora, já, a alma vai voar do corpo, e que você não vai mais ser um homem, e que isso é certo; o principal é que é certo.
No capítulo III da Primeira Parte, diante do general, oferece a única coisa que possui, o tempo, e se nomeia sem vergonha:
Частые припадки его болезни сделали из него совсем почти идиота (князь так и сказал: идиота), os ataques frequentes da doença tinham feito dele quase um idiota completo (o príncipe disse assim mesmo: idiota).
No mesmo capítulo vê o retrato de Nastácia Filíppovna Barachkova e lê nele, de uma vez, o sofrimento, o orgulho e a dúvida sobre a bondade:
Удивительное лицо! [...] Лицо веселое, а она ведь ужасно страдала, а? [...] Это гордое лицо, ужасно гордое, и вот не знаю, добра ли она? Ах, кабы добра! Все было бы спасено!, um rosto surpreendente! [...] O rosto é alegre, e no entanto ela sofreu terrivelmente, não é? [...] É um rosto orgulhoso, terrivelmente orgulhoso, e eis que não sei se ela é boa. Ah, se fosse boa! Tudo estaria salvo!
Minutos depois, perguntado sobre Rogójin, faz a previsão que o livro cumpre no fim:
Да что же, жениться, я думаю, и завтра же можно; женился бы, а чрез неделю, пожалуй, и зарезал бы ее, ora, casar, acho que poderia até amanhã mesmo; casaria, e dali a uma semana, quem sabe, a mataria a faca.
No capítulo V da Primeira Parte conta às damas Iepántchin o homem perdoado diante do pelotão, e no capítulo VI da Primeira Parte a história de Marie, a moça da aldeia suíça que ele beijou por pena e que as crianças, convencidas por ele, passaram a amar; o resultado é o que ele conta a seguir:
Через них, уверяю вас, она умерла почти счастливая. Через них она забыла свою черную беду, как бы прощение от них приняла, потому что до самого конца считала себя великою преступницей, graças a elas, eu lhes asseguro, ela morreu quase feliz. Graças a elas esqueceu a sua desgraça negra, como se tivesse recebido delas o perdão, porque até o fim se considerou uma grande criminosa.
No mesmo capítulo confessa a mulheres que acabou de conhecer o pensamento com que se protege:
Меня тоже за идиота считают все почему-то, я действительно был так болен когда-то, что тогда и похож был на идиота; но какой же я идиот теперь, когда я сам понимаю, что меня считают за идиота? Я вхожу и думаю: «Вот меня считают за идиота, а я всё-таки умный, а они и не догадываются…», todos também me tomam por idiota, não sei por quê; de fato, já fui tão doente que naquela época parecia um idiota; mas que idiota sou eu agora, se eu mesmo entendo que me tomam por idiota? Entro e penso: eis que me tomam por idiota, e no entanto sou inteligente, e eles nem desconfiam...
No capítulo VII da Primeira Parte recusa julgar o rosto de Aglaia Ivánovna Iepántchina (a beleza, diz, é um enigma), volta sozinho ao retrato de Nastácia, beija-o olhando em volta e serve de mensageiro do bilhete de Gánia. No capítulo X da Primeira Parte, na casa dos Ívolguin, segura o braço de Gavrila Ardaliónovitch Ívolguin erguido contra a irmã, leva a bofetada no lugar dela e se vira para a parede:
О, как вы будете стыдиться своего поступка!, oh, como o senhor vai se envergonhar do que fez!
No capítulo XI da Primeira Parte, quando Gánia vem pedir perdão, o príncipe corrige o juízo da manhã e acrescenta o veredito mais honesto, o de homem comum, que Gánia ouve como a pior ofensa do dia. Na festa do capítulo XIV da Primeira Parte, Nastácia lhe entrega a decisão do próprio casamento com Gánia, e ele responde com esforço:
За… за кого? [...] Н-нет… не выходите!, com... com quem? [...] N-não... não se case!
No capítulo XV da Primeira Parte, quando Fierdischenko brinca que só o príncipe a levaria sem nada, ele a pede em casamento e funda a pureza dela no sofrimento:
Я ничто, а вы страдали и из такого ада чистая вышли, а это много., eu não sou nada, e a senhora sofreu e saiu pura de um inferno desses, e isso é muito.
Я вас… Настасья Филипповна… люблю. Я умру за вас, Настасья Филипповна. Я никому не позволю про вас слова сказать, Настасья Филипповна… Если мы будем бедны, я работать буду, Настасья Филипповна…, eu... Nastácia Filíppovna... eu a amo. Morrerei pela senhora, Nastácia Filíppovna. Não vou permitir que ninguém diga uma palavra contra a senhora, Nastácia Filíppovna... Se formos pobres, eu vou trabalhar, Nastácia Filíppovna...
No capítulo XVI da Primeira Parte chega a herança, ela recusa para não arruiná-lo e parte com Rogójin, e ele toma um coche atrás das troicas.
No capítulo I da Segunda Parte passa seis meses em Moscou, onde paga até os credores sem documento do comerciante morto, e escreve a Aglaia um bilhete assinado como irmão:
Вы мне нужны, очень нужны. Мне нечего писать вам о себе, нечего рассказывать. Я и не хотел того; мне ужасно бы желалось, чтобы вы были счастливы. Счастливы ли вы? Вот это только я и хотел вам сказать, Preciso de você, preciso muito. Não tenho nada a lhe escrever sobre mim, nada a contar. Nem era isso que eu queria; queria terrivelmente que você fosse feliz. Você é feliz? Era só isso que eu queria lhe dizer.
No capítulo III da Segunda Parte visita Rogójin na casa da Gorókhovaia e define o que sente por Nastácia com a palavra que o rival não suporta:
я ее «не любовью люблю, а жалостью», eu a amo não com amor, mas com pena.
No capítulo IV da Segunda Parte, diante da cópia do Cristo morto de Hans Holbein que Rogójin guarda sobre uma porta, diz quase brincando que o quadro pode fazer alguém perder a fé, e responde à pergunta de Rogójin sobre Deus não com argumento, mas com quatro encontros da semana, o último o de uma camponesa que se benze com o primeiro sorriso do filho:
сущность религиозного чувства ни под какие рассуждения, ни под какие проступки и преступления и ни под какие атеизмы не подходит; тут что-то не то, и вечно будет не то, a essência do sentimento religioso não cabe em nenhum raciocínio, em nenhuma falta nem crime, em nenhum ateísmo; ali há algo que não é isso, e eternamente não será isso.
No mesmo capítulo troca a cruz de estanho pela de ouro de Rogójin e é abençoado pela mãe dele. No capítulo V da Segunda Parte, depois de um dia vagando por Petersburgo com a faca da vitrine na cabeça, acusa-se de baixeza por suspeitar do irmão de cruz e chega à máxima que o livro inteiro põe à prova:
Сострадание есть главнейший и, может быть, единственный закон бытия всего человечества, A compaixão é a lei principal e, talvez, a única da existência de toda a humanidade.
Horas depois, na escada do hotel, encontra os olhos de Rogójin e a mão erguida:
Парфен, не верю!, Parfen, não acredito!
O ataque epiléptico que começa com esse grito é o que o salva. No capítulo VIII da Segunda Parte, diante do grupo de Burdovski, que exige como direito o dinheiro de Pavlischov, oferece dez mil rublos em público e se julga no mesmo instante:
Да, я идиот, истинный идиот!, Sim, sou um idiota, um verdadeiro idiota!
No capítulo XI da Segunda Parte reconhece em Keller, que confessa ter chorado para arrancar dinheiro, os próprios pensamentos duplos, e no capítulo XII da Segunda Parte explica a Lisavieta Prokófievna por que continua a confiar em Gánia, que o engana:
Я хорошо знаю, что он меня иногда обманывает, [...] и он знает, что я это знаю, Sei muito bem que ele às vezes me engana, [...] e ele sabe que eu sei.
No capítulo I da Terceira Parte, à mesa dos Iepántchin, separa o assassino que sabe que errou do que se julga no direito de matar. No capítulo III da Terceira Parte, no banco do parque, divide com Rogójin a culpa da faca:
Мы тогда в одно слово почувствовали. Не подыми ты руку тогда на меня (которую бог отвел), чем бы я теперь пред тобой оказался? Ведь я ж тебя всё равно в этом подозревал, один наш грех, в одно слово!, Naquele dia nós sentimos a mesma coisa, numa só palavra. Se tu não tivesses levantado a mão contra mim (a mão que Deus desviou), o que eu seria agora diante de ti? Pois eu também te suspeitava disso, um pecado só, nosso, numa só palavra!
No capítulo VII da Terceira Parte, depois do tiro sem cápsula de Hippolit Tieriêntiev, reconhece na mosca da Explicação o próprio choro nas montanhas da Suíça:
один он ничего не знает, ничего не понимает, ни людей, ни звуков, всему чужой и выкидыш, só ele não sabe nada, não entende nada, nem as pessoas, nem os sons, estranho a tudo e um aborto.
No capítulo VIII da Terceira Parte, no banco verde, Aglaia o acusa de ter só a verdade, sem ternura, e ele responde à pergunta sobre Nastácia com a frase mais clara que dá sobre ela:
Что мне только жаль ее, а что я… уже не люблю ее, Que eu só tenho pena dela, e que eu... já não a amo.
No capítulo X da Terceira Parte, Nastácia se ajoelha na rua e pergunta se ele é feliz; ele não responde a ela, e minutos depois responde a Rogójin:
Нет, нет, нет! — воскликнул князь с беспредельною скорбью, Não, não, não!, exclamou o príncipe com uma aflição sem limites.
No capítulo IV da Quarta Parte escuta a história do general Ívolguin como pajem de Napoleão e, para não desmenti-lo, entrega ao velho o argumento de que ele precisava; no capítulo V da Quarta Parte diz diante da família de Aglaia que a pede em casamento. Na reunião solene do capítulo VII da Quarta Parte, convencido de estar entre amigos, ataca o catolicismo por causa de Pavlischov, quebra o vaso chinês que Aglaia o mandara quebrar e, antes do ataque, diz a frase mais feliz que tem no livro:
Знаете, я не понимаю, как можно проходить мимо дерева и не быть счастливым, что видишь его? Говорить с человеком и не быть счастливым, что любишь его! О, я только не умею высказать… а сколько вещей на каждом шагу таких прекрасных, которые даже самый потерявшийся человек находит прекрасными? Посмотрите на ребенка, посмотрите на божию зарю, посмотрите на травку, как она растет, посмотрите в глаза, которые на вас смотрят и вас любят…, Sabe, eu não entendo como se pode passar diante de uma árvore e não ser feliz por vê-la. Falar com uma pessoa e não ser feliz por amá-la! Oh, só que eu não sei dizer... e quantas coisas tão belas há a cada passo, que até o homem mais perdido acha belas? Olhem uma criança, olhem a aurora de Deus, olhem a grama, como cresce, olhem os olhos que olham para vocês e os amam...
No capítulo VIII da Quarta Parte, diante das duas mulheres que exigem que ele escolha, volta-se para Aglaia pedindo pena da outra:
Разве это возможно! ведь она… сумасшедшая!, Mas isso é possível? ela é... louca!
Fica afagando a cabeça de Nastácia como a de uma criança. No capítulo IX da Quarta Parte diz a Ievguiêni Pávlovitch Radomski por que vai se casar:
Счастье? О, нет! Я так только просто женюсь; она хочет; да и что в том, что я женюсь: я… Ну, да это всё равно! Только она непременно умерла бы., Felicidade? Oh, não! Eu caso assim, simplesmente; ela quer; e que importa que eu case: eu... Ora, tanto faz! Só que ela morreria, com certeza.
E confessa, no mesmo diálogo, o segredo que não disse nem a Aglaia:
я этого никому не говорил, никогда, даже Аглае, но я не могу лица Настасьи Филипповны выносить… [...] я смотрел на ее лицо! Я еще утром, на портрете, не мог его вынести… Вот у Веры, у Лебедевой, совсем другие глаза; я… я боюсь ее лица!, nunca disse isto a ninguém, nunca, nem a Aglaia, mas eu não consigo suportar o rosto de Nastácia Filíppovna... [...] eu olhava para o rosto dela! Já de manhã, no retrato, não consegui suportá-lo... Vera, a Liébedieva, tem olhos completamente diferentes; eu... eu tenho medo do rosto dela!
No capítulo X da Quarta Parte a noiva foge com Rogójin no adro, e ele lê a fuga pelo estado dela, sem pensar em si. No capítulo XI da Quarta Parte encontra o corpo na casa da Gorókhovaia, passa a noite deitado ao lado do assassino e, ao amanhecer, faz o único gesto que lhe resta:
князь протягивал к нему тогда свою дрожащую руку и тихо дотрогивался до его головы, до его волос, гладил их и гладил его щеки… больше он ничего не мог сделать!, o príncipe estendia para ele, então, a mão trêmula e tocava de leve a cabeça dele, os cabelos, alisava-os e alisava as faces dele... nada mais podia fazer!
Quando arrombam a porta, já não reconhece ninguém, e o livro fecha a história dele com a palavra do título:
И если бы сам Шнейдер явился теперь из Швейцарии взглянуть на своего бывшего ученика и пациента, то и он, припомнив то состояние, в котором бывал иногда князь в первый год лечения своего в Швейцарии, махнул бы теперь рукой и сказал бы, как тогда: «Идиот!», E se o próprio Schneider viesse agora da Suíça ver o seu antigo aluno e paciente, também ele, lembrando o estado em que o príncipe às vezes ficava no primeiro ano de tratamento na Suíça, faria agora um gesto de desânimo e diria, como naquele tempo: "Idiota!"
No capítulo XII da Quarta Parte, por empenho de Radomski, volta ao sanatório de Schneider, onde a família Iepántchin o visita e ele não a reconhece.
Temas que encarna
O príncipe é a compaixão posta à prova do começo ao fim, e o livro não a deixa ficar abstrata: ela tem um método, ler no rosto o sofrimento antes da culpa, que ele aplica a Marie (capítulo VI da Primeira Parte), ao retrato de Nastácia (capítulo III da Primeira Parte), a Gánia depois da bofetada (capítulo XI da Primeira Parte) e ao general que mente (capítulo XII da Primeira Parte). Por isso é ao mesmo tempo o que desarma (Nastácia diz que pela primeira vez viu um ser humano, no capítulo XVI da Primeira Parte) e o que humilha (Hippolit o odeia por ter previsto a sua vergonha, no capítulo X da Segunda Parte; o general rompe com ele por não aceitar sinais de compaixão, no capítulo IV da Quarta Parte). O tema que ele carrega é o de Compaixão e caridade, e o romance o mede contra a Beleza e a Loucura.
O que ele não sabe é querer para si. Nos dois momentos em que o livro lhe pede uma escolha (Nastácia no capítulo XIV da Primeira Parte, as duas mulheres no capítulo VIII da Quarta Parte) ele responde pelo outro, pelo que a outra pessoa precisa, e nunca pelo que deseja; o casamento final é decidido por ela, porque sem ele ela morreria (capítulo IX da Quarta Parte). A distinção entre pena e amor que ele faz a Rogójin (capítulo III da Segunda Parte) e repete a Aglaia (capítulo VIII da Terceira Parte) é exata sobre o que ele sente e cega sobre o que os outros recebem: para Nastácia a pena é a prova de que ela é olhada de cima, para Aglaia é a prova de que ele fica sempre com quem sofre mais.
A doença trabalha a favor e contra ele na mesma cena. A luz que precede o ataque é o instante em que tudo lhe parece harmonia, e ele sabe que vem da doença e não consegue negar o que sentiu:
Если в ту секунду, [...] ему случалось успевать ясно и сознательно сказать себе: «Да, за этот момент можно отдать всю жизнь!», — то, конечно, этот момент сам по себе и стоил всей жизни, Se naquele segundo [...] lhe acontecia ter tempo de dizer a si mesmo, com clareza e consciência: Sim, por este momento se pode dar a vida inteira!, então, é claro, esse momento por si só valia a vida inteira.
O ataque que o salva da faca na escada (capítulo V da Segunda Parte) é o mesmo que o derruba diante da sociedade no capítulo VII da Quarta Parte, e a confiança que o faz falar no salão é a mesma que o faz acreditar em Rogójin até ver a lâmina.
Leituras divergentes
O próprio livro põe na boca de quem o observa as duas leituras opostas, e nenhuma é desmentida. Doktorenko, no caso Burdovski, formula a dúvida que atravessa o romance:
Это или уж слишком невинно, или уж слишком ловко, Isso ou é inocente demais, ou é hábil demais.
Aglaia, no banco verde, defende-o pela distinção de duas inteligências, a principal e a não principal:
я вас считаю за самого честного и за самого правдивого человека, всех честнее и правдивее [...] то зато главный ум у вас лучше, чем у них у всех, такой даже, какой им и не снился, потому что есть два ума: главный и неглавный, eu o considero o homem mais honesto e mais verdadeiro, mais honesto e verdadeiro que todos [...] em compensação, no senhor a inteligência principal é melhor do que a de todos eles, uma tal que eles nem sonharam, porque há duas inteligências: a principal e a não principal.
Radomski, no fim, dá o veredito do homem do mundo, que mede o amor pelo desejo de posse:
Аглая Ивановна любила как женщина, как человек, а не как… отвлеченный дух. Знаете ли что, бедный мой князь: вернее всего, что вы ни ту, ни другую никогда не любили!, Aglaia Ivánovna amava como mulher, como ser humano, e não como... um espírito abstrato. Sabe de uma coisa, meu pobre príncipe? O mais certo é que o senhor nunca tenha amado nem uma nem outra!
Uma leitura vê Míchkin e Rogójin como um duplo, o polo espiritual e o polo material de uma só alma, que se encontram no trem e terminam abraçados sobre o corpo de Nastácia; e a crise epiléptica da escada é lida como janela, não só como patologia.
As leituras divergem sobre o que conta como fracasso. Quem cobra do príncipe posicionamento, limites postos ao mal em volta, lê o desfecho como prova de que a compaixão sozinha não basta, e o livro dá razão a isso: ninguém se salva pela mão dele (capítulo XII da Quarta Parte). Quem lê pela chave do duplo ou da janela vê no gesto final, a mão sobre a cabeça do assassino (capítulo XI da Quarta Parte), algo que o mundo não sabe nomear senão com a palavra do título. Contra a primeira leitura vale lembrar que ele se posiciona quando importa (segura o braço de Gánia, não aceita a bofetada como ofensa sua, não abandona Rogójin nem depois da faca); contra a segunda, que o livro nunca mostra a compaixão dele mudando o destino de quem a recebe, só o modo como esse destino é vivido.
Relações
- Nastácia Filíppovna Barachkova: ele a lê pelo retrato antes de conhecê-la (capítulo III da Primeira Parte), pede-a em casamento na noite do aniversário (capítulo XV da Primeira Parte), diz a Aglaia que já não a ama e só tem pena (capítulo VIII da Terceira Parte), aceita casar porque sem ele ela morreria (capítulo IX da Quarta Parte) e vela o corpo dela (capítulo XI da Quarta Parte).
- Parfen Semeónovitch Rogójin: o companheiro do trem (capítulo I da Primeira Parte), irmão de cruz (capítulo IV da Segunda Parte), quase assassino na escada (capítulo V da Segunda Parte), perdoado no banco do parque (capítulo III da Terceira Parte) e afagado na noite ao lado do corpo (capítulo XI da Quarta Parte).
- Aglaia Ivánovna Iepántchina: recebe dele o bilhete de irmão (capítulo I da Segunda Parte), declama para ele a balada com as letras trocadas (capítulo VII da Segunda Parte), propõe-lhe a fuga no banco verde (capítulo VIII da Terceira Parte), pergunta em público se ele a pede em casamento (capítulo V da Quarta Parte) e foge quando ele hesita diante da rival (capítulo VIII da Quarta Parte).
- Ielisavieta Prokófievna Iepántchina: a parente distante a quem ele vem se apresentar (capítulo II da Primeira Parte), que o diz enviado por Deus como amigo e irmão (capítulo XII da Segunda Parte) e que chora por ele na Suíça (capítulo XII da Quarta Parte).
- Gavrila Ardaliónovitch Ívolguin: dá-lhe a bofetada destinada à irmã (capítulo X da Primeira Parte), confessa-se a ele no mesmo dia (capítulo XI da Primeira Parte) e é o homem de quem o príncipe diz saber que o engana, e que sabe que ele sabe (capítulo XII da Segunda Parte).
- Hippolit Tieriêntiev: chora no colo de Lisavieta Prokófievna e passa a odiar o príncipe por ter previsto a sua vergonha (capítulo X da Segunda Parte); lê a Explicação na festa de aniversário dele (capítulo V da Terceira Parte).
- Lukian Timofêievitch Liébediev: o senhorio da datcha de Pávlovsk; o príncipe percebe desde a porta que ele o engana e aluga a datcha assim mesmo (capítulo II da Segunda Parte), ouve dele que a mentira e a verdade andam juntas dentro dele (capítulo XI da Segunda Parte) e é alvo da tentativa dele de pô-lo sob curatela antes do casamento (capítulo X da Quarta Parte).
- Ardalion Alieksándrovitch Ívolguin: o general cuja mentira ele acompanha sem desmentir na porta de Kulakov (capítulo XII da Primeira Parte) e cuja fantasia de pajem de Napoleão ele alimenta por delicadeza (capítulo IV da Quarta Parte).
- Nikolai Ardaliónovitch Ívolguin: Kólia, que o abraça depois da bofetada (capítulo X da Primeira Parte), o leva ferido para a casa de Liébediev (capítulo V da Segunda Parte) e, no fim, procura Radomski para levá-lo de volta à Suíça (capítulo XII da Quarta Parte).