O que é
Uma mosca comum, que o romance põe em três momentos de morte. Ela zumbe na história que o general Iepántchin conta no jogo das confissões, enquanto uma velha morre sem que ele perceba; zumbe num raio de sol na Explicação de Hippolit Tieriêntiev, como a criatura mínima que tem lugar no banquete do mundo de que ele se sente excluído; e zumbe, por fim, sobre a cama em que está o corpo de Nastácia Filíppovna Barachkova, na noite em que Liev Nikoláievitch Míchkin entra na casa de Rogójin. Entre as duas últimas, o príncipe reconhece na mosca de Hippolit o próprio choro na Suíça.
Onde aparece
No capítulo XIV da Primeira Parte, Ivan Fiódorovitch Iepántchin conta como pior ato da vida a visita em que voltou para insultar uma velha viúva de oitenta anos por causa de uma tigela; ela morria enquanto ele gritava, e o detalhe que ele guarda é este.
Я постоял в нерешимости; мухи жужжат, солнце закатывается, тишина; в совершенном смущении я, наконец, ухожу, fiquei parado, indeciso; as moscas zumbem, o sol se põe, silêncio; completamente confuso, enfim, vou embora.
No capítulo V da Terceira Parte, no começo da Explicação, Hippolit diz que poderia ter se enfurecido com a sorte cega e surda que decidiu esmagá-lo como uma mosca, sem saber por quê, e pergunta por que, então, começou a viver sabendo que já não podia começar.
No capítulo VII da Terceira Parte, perto do fim da leitura, a mosca volta, agora viva e feliz.
Что мне во всей этой красоте, когда я каждую минуту, каждую секунду должен и принужден теперь знать, что вот даже эта крошечная мушка, которая жужжит теперь около меня в солнечном луче, и та даже во всем этом пире и хоре участница, место знает свое, любит его и счастлива, а я один выкидыш, De que me serve toda essa beleza, quando a cada minuto, a cada segundo, eu devo e sou obrigado a saber que até essa mosquinha minúscula, que zumbe agora perto de mim num raio de sol, até ela toma parte em todo esse banquete e nesse coro, conhece o seu lugar, ama-o e é feliz, e só eu sou um aborto.
Ainda no capítulo VII da Terceira Parte, depois das três da manhã, sentado no banco verde, o príncipe se lembra da frase e entende por que ela o ferira: no primeiro ano de tratamento na Suíça, diante do lago e das montanhas, ele chorou por se sentir excluído da festa sem fim do mundo.
один он ничего не знает, ничего не понимает, ни людей, ни звуков, всему чужой и выкидыш, só ele não sabe nada, não entende nada, nem as pessoas, nem os sons, estranho a tudo e um aborto.
No capítulo XI da Quarta Parte, no escritório escuro da rua Gorókhovaia, Parfen Semeónovitch Rogójin leva o príncipe até a cama atrás da cortina verde.
В ногах, сбиты были в комок какие-то кружева, и на белевших кружевах, выглядывая из-под простыни, обозначался кончик обнаженной ноги; он казался как бы выточенным из мрамора и ужасно был неподвижен. Князь глядел и чувствовал, что чем больше он глядит, тем еще мертвее и тише становится в комнате. Вдруг зажужжала проснувшаяся муха, пронеслась над кроватью и затихла у изголовья., Aos pés, umas rendas estavam embaladas num bolo, e sobre a renda branca, despontando do lençol, desenhava-se a ponta de um pé nu; parecia talhado em mármore e estava terrivelmente imóvel. O príncipe olhava e sentia que, quanto mais olhava, mais morto e silencioso ficava o quarto. De repente, uma mosca que despertara zumbiu, passou por cima da cama e se calou junto à cabeceira.
O que significa
A mosca é o bicho que assiste a quem morre e que a morte não toca. Na história do general ela marca o instante que ele não entendeu; na Explicação ela é a prova de que a beleza do mundo tem lugar para tudo, menos para Hippolit; na casa de Rogójin ela é o único movimento num quarto em que ninguém diz que há uma morta. O livro a mostra sem comentário nas três vezes e deixa ao leitor a ligação: a mosca que Hippolit invejava zumbe agora sobre o corpo da mulher que o príncipe quis salvar.
O príncipe e Hippolit têm a mesma mosca e fazem dela coisas opostas. No capítulo VII da Terceira Parte Hippolit a vê feliz no seu lugar e conclui que é um aborto; o príncipe, na mesma noite, lembra que sentiu exatamente isso na Suíça, e o texto não diz o que o tirou dali. No capítulo XI da Quarta Parte, diante do corpo, é ele quem ouve a mosca, e o zumbido é o primeiro sinal de que entendeu. Duas leituras. Numa, a mosca é a natureza indiferente da Explicação, que continua viva onde a pessoa acabou, e o fim do livro dá razão a Hippolit; na outra, ela é só o que há de vivo no quarto, e o príncipe, que um dia chorou por não ter lugar na festa, fica até o amanhecer ao lado de quem também não tem.
Relações
- Temas-padrão: Morte, Beleza.
- Temas da obra: Morte, Beleza.
- Personagens: Hippolit Tieriêntiev, Nastácia Filíppovna Barachkova, Liev Nikoláievitch Míchkin, Ivan Fiódorovitch Iepántchin, Parfen Semeónovitch Rogójin.
- Símbolos vizinhos: o quadro de Holbein, diante do qual nasce a natureza indiferente da Explicação, e a faca, o outro objeto da última noite.