O tema na obra
A compaixão é a palavra com que Liev Nikoláievitch Míchkin se define e a coisa que o romance mais põe à prova. Ele a pratica antes de nomeá-la, com Marie na aldeia suíça, cuja história conta na Primeira Parte; nomeia-a diante de Parfen Semeónovitch Rogójin, quando diz que ama Nastácia Filíppovna Barachkova não com amor, mas com pena; e faz dela, sozinho em Petersburgo, a lei principal da existência humana. O livro mostra o que essa lei faz com quem a recebe, e quase nunca é o que o príncipe espera. Marie morre quase feliz, mas se julgando culpada até o fim; Nastácia Filíppovna recusa a pena dele como altivez e foge; Hippolit Tieriêntiev chora no colo de quem se compadece e, por vergonha, transforma a lágrima em ódio; o general Ardalion Alieksándrovitch Ívolguin rompe com o príncipe porque não aceita sinais de compaixão que humilham. A caridade com dinheiro sai ainda pior: os dez mil rublos oferecidos em público a Burdóvski são recebidos como esmola e recusados em nome de um direito.
No capítulo VI da Primeira Parte, o príncipe conta às Iepántchin a história de Marie, a moça seduzida e abandonada que a aldeia inteira desprezava, e o que as crianças fizeram por ela depois que ele lhes contou a verdade.
Через них, уверяю вас, она умерла почти счастливая. Через них она забыла свою черную беду, как бы прощение от них приняла, потому что до самого конца считала себя великою преступницей, graças a elas, eu lhes asseguro, ela morreu quase feliz. Graças a elas esqueceu a sua desgraça negra, como se tivesse recebido delas o perdão, porque até o fim se considerou uma grande criminosa.
No capítulo XV da Primeira Parte, na festa, o príncipe pede Nastácia Filíppovna em casamento e funda a honra dela no que ela sofreu.
Я ничто, а вы страдали и из такого ада чистая вышли, а это много., eu não sou nada, e a senhora sofreu e saiu pura de um inferno desses, e isso é muito.
No capítulo III da Segunda Parte, na casa de Rogójin, ele dá ao sentimento o nome que vai segui-lo até o fim.
я ее «не любовью люблю, а жалостью», eu a amo não com amor, mas com pena.
Rogójin, no mesmo capítulo, se define pelo contrário.
Никакой такой во мне нет к ней жалости. Да и ненавидит она меня пуще всего, Em mim não existe pena nenhuma dela. E ela me odeia mais do que a tudo.
No capítulo V da Segunda Parte, horas depois, culpando-se por ter suspeitado do irmão de cruz, o príncipe chega à máxima.
Сострадание есть главнейший и, может быть, единственный закон бытия всего человечества, A compaixão é a lei principal e, talvez, a única da existência de toda a humanidade.
No capítulo VIII da Segunda Parte, depois de oferecer em voz alta dez mil rublos a Burdóvski e de dizer diante de todos que ele é doente como ele mesmo foi, o príncipe se julga.
Да, я идиот, истинный идиот!, Sim, sou um idiota, um verdadeiro idiota!
No capítulo X da Segunda Parte, Hippolit chora no colo de Ielisavieta Prokófievna Iepántchina e toca a lágrima dela.
Ипполит остановился почти пораженный, поднял руку, боязливо протянул ее и дотронулся до этой слезинки. Он улыбнулся какою-то детскою улыбкой, Hippolit parou quase atônito, ergueu a mão, estendeu-a com medo e tocou aquela lagrimazinha. Sorriu um sorriso de criança.
Minutos depois, no mesmo capítulo, ele se volta contra o príncipe.
если я кого-нибудь здесь ненавижу, [...] но вас, вас, иезуитская, паточная душонка, идиот, миллионер-благодетель, вас более всех и всего на свете! [...] Это вы теперь всё подвели! Это вы меня довели до припадка!, se eu odeio alguém aqui, [...] é ao senhor, ao senhor, alminha jesuítica, melosa, idiota, milionário benfeitor, ao senhor mais que a todos e a tudo no mundo! [...] Foi o senhor que armou tudo isso agora! Foi o senhor que me levou a este ataque!
No capítulo II da Terceira Parte, ao ver Nastácia Filíppovna no vauxhall depois de mais de três meses, o príncipe sente o que sempre sentiu diante daquele rosto.
лицо это еще с портрета вызывало из его сердца целое страдание жалости; это впечатление сострадания и даже страдания за это существо не оставляло никогда его сердца, не оставило и теперь, esse rosto, já desde o retrato, arrancava do coração dele todo um sofrimento de pena; essa impressão de compaixão, e até de sofrimento por esse ser, nunca deixou o coração dele, e não o deixou agora.
No capítulo VIII da Terceira Parte, no banco verde, ele explica a Aglaia Ivánovna Iepántchina por que Nastácia Filíppovna foge dele.
Эта несчастная женщина глубоко убеждена, что она самое павшее, самое порочное существо из всех на свете [...] что она сама, первая, не верит себе и что она всею совестью своею верит, напротив, что она… сама виновна, Essa mulher infeliz está profundamente convencida de que é o ser mais caído, mais depravado de todos no mundo. [...] que ela é a primeira a não acreditar em si mesma, e que com toda a sua consciência moral acredita, ao contrário, que ela... que ela mesma é culpada.
E diz, com reticência, o que Nastácia Filíppovna adivinhou.
Что мне только жаль ее, а что я… уже не люблю ее, Que eu só tenho pena dela, e que eu... já não a amo.
No capítulo X da Quarta Parte, o narrador explica o que o príncipe sente por ela às vésperas do casamento.
и в любви его к ней заключалось действительно как бы влечение к какому-то жалкому и больному ребенку, которого трудно и даже невозможно оставить на свою волю., e no amor dele por ela havia de fato algo como a atração por uma criança digna de pena e doente, que é difícil e até impossível deixar entregue a si mesma.
No capítulo XI da Quarta Parte, na última noite, a compaixão já não tem palavras.
князь протягивал к нему тогда свою дрожащую руку и тихо дотрогивался до его головы, до его волос, гладил их и гладил его щеки… больше он ничего не мог сделать!, o príncipe estendia para ele, então, a mão trêmula e tocava de leve a cabeça dele, os cabelos, alisava-os e alisava as faces dele... nada mais podia fazer!
A compaixão do príncipe acerta no diagnóstico e falha no remédio. Ele vê que Marie, Nastácia Filíppovna e Hippolit se julgam culpados ou excluídos, e lhes oferece o juízo contrário; o que nenhum dos três consegue é aceitar um juízo que vem de quem não sofre o mesmo. Marie, no capítulo VI da Primeira Parte, morre quase feliz e ainda se julgando criminosa; Nastácia Filíppovna, no capítulo VIII da Terceira Parte, recusa a compaixão dele como altivez; Hippolit, no capítulo X da Segunda Parte, odeia quem previu a vergonha dele. O livro não diz que a compaixão é inútil: diz que ela não salva quem não acredita merecê-la.
Quem o encarna
O príncipe, antes de todos, e quase sempre diante de quem o humilha. No capítulo X da Primeira Parte, Gavrila Ardaliónovitch Ívolguin lhe dá uma bofetada porque ele segurou a mão que ia bater em Varvara Ardaliónovna Ívolguina, e ele vira o rosto para a parede.
О, как вы будете стыдиться своего поступка!, oh, como o senhor vai se envergonhar do que fez!
Lisavieta Prokófievna é a compaixão que se envergonha de si. No capítulo IX da Segunda Parte ela explode contra os rapazes que recusam a gratidão e vivem dela, e no capítulo X da Segunda Parte é ela quem segura a cabeça de Hippolit contra o peito. No capítulo XII da Quarta Parte, na Suíça, diante do príncipe que não a reconhece, chora de todo o coração.
Nina Alieksándrovna, a mãe de Gánia, é a que perdoa sem saber o quê. No capítulo VI da Quarta Parte, diante de Lukian Timofêievitch Liébediev, que chora junto do general doente e se acusa sem dizer de quê:
ну, бог с вами, ну, не плачьте, ну, бог вас простит!, ora, Deus esteja com o senhor, ora, não chore, ora, Deus há de perdoá-lo!
Onde aparece
- Primeira Parte, capítulo VI: O príncipe conta como beijou Marie por pena e não por amor, e como as crianças, depois de ouvir a verdade, passaram a amá-la até ela morrer quase feliz.
- Primeira Parte, capítulo VII: Diante do retrato, o príncipe nota que o orgulho e a ingenuidade daquele rosto despertam compaixão, e diz à generala que nele há muito sofrimento.
- Primeira Parte, capítulo X: O príncipe segura a mão de Gánia, leva a bofetada destinada a Vária e diz que Gánia vai se envergonhar do que fez.
- Primeira Parte, capítulo XV: O príncipe diz a Nastácia Filíppovna que ela sofreu e saiu pura de um inferno, e a pede em casamento.
- Segunda Parte, capítulo III: O príncipe diz a Rogójin que ama a mulher que ambos disputam com pena, e não com amor, e Rogójin responde que nele não há pena nenhuma.
- Segunda Parte, capítulo V: Culpando-se por suspeitar de Rogójin, o príncipe conclui que a compaixão é a lei principal da existência humana.
- Segunda Parte, capítulo VIII: O príncipe oferece dez mil rublos a Burdóvski diante de testemunhas e se chama de idiota por ter feito a caridade em público.
- Segunda Parte, capítulo X: Hippolit chora no colo de Lisavieta Prokófievna, toca a lágrima dela e, minutos depois, grita que odeia o príncipe.
- Terceira Parte, capítulo II: Ao rever Nastácia Filíppovna no vauxhall, o príncipe sente a pena de sempre e, junto, o horror de vê-la louca.
- Terceira Parte, capítulo VIII: O príncipe diz a Aglaia que Nastácia Filíppovna se crê culpada, que recusou a compaixão dele como altivez, e que dela ele só tem pena.
- Quarta Parte, capítulo IV: O general Ívolguin diz ao príncipe que às vezes tem pena dele e, à noite, rompe com ele por não aceitar sinais de compaixão que humilham.
- Quarta Parte, capítulo VIII: Diante das duas mulheres, o príncipe pede a Aglaia pena de uma doente e fica com Nastácia Filíppovna, afagando-lhe a cabeça como a uma criança.
- Quarta Parte, capítulo IX: O príncipe diz a Ievguiêni Pávlovitch que não casa por felicidade, mas porque, sem ele, Nastácia Filíppovna morreria.
- Quarta Parte, capítulo X: O narrador diz que o amor do príncipe por ela é como a atração por uma criança doente que não se pode deixar entregue a si mesma.
- Quarta Parte, capítulo XI: Ao amanhecer, ao lado do corpo, o príncipe afaga os cabelos de Rogójin, e nada mais pode fazer.
Onde as leituras divergem
A compaixão do príncipe se lê como santidade ou como incapacidade de amar, e o livro dá voz às duas. No capítulo IX da Quarta Parte, Ievguiêni Pávlovitch Radomski conclui que ele nunca amou nenhuma das duas mulheres, e o príncipe não o contesta.
Аглая Ивановна любила как женщина, как человек, а не как… отвлеченный дух. Знаете ли что, бедный мой князь: вернее всего, что вы ни ту, ни другую никогда не любили!, Aglaia Ivánovna amava como mulher, como ser humano, e não como... um espírito abstrato. Sabe de uma coisa, meu pobre príncipe? O mais certo é que o senhor nunca tenha amado nem uma nem outra!
O gesto final do capítulo XI da Quarta Parte, a mão sobre a cabeça do assassino, é o mesmo do capítulo VIII da Quarta Parte, a mão sobre a cabeça de Nastácia Filíppovna depois que Aglaia sai. A compaixão do príncipe não escolhe entre vítima e algoz, e é isso que a faz parecer santidade a uns e derrota a outros: ela fica com quem mais sofre naquele instante, sem perguntar o que essa pessoa fez.