O tema na obra
O romance começa pela morte vista de dentro de quem vai morrer e termina numa noite ao lado de uma morta. Na antessala do general, a primeira coisa séria que Liev Nikoláievitch Míchkin diz é sobre a guilhotina que viu em Lyon: o pior não é o golpe, é a certeza da hora. No mesmo dia ele descreve às moças Iepántchin um homem perdoado diante do pelotão, com o mesmo destino que o próprio Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski viveu em 1849, e propõe como tema de quadro o rosto do condenado um minuto antes da lâmina. O livro faz dessa certeza a condição de Hippolit Tieriêntiev, o rapaz tísico a quem disseram que tem semanas de vida e que lê em voz alta as razões por que decidiu se matar ao nascer do sol. E põe no centro a imagem que nega o consolo, o Cristo morto do quadro de Rogójin, um cadáver em que a natureza venceu até aquele que a vencia. A morte que fecha o livro não é anunciada por ninguém: é mostrada por um pé de mármore e uma mosca.
No capítulo II da Primeira Parte, ao criado que comenta que ao menos a dor é pouca quando a cabeça cai de uma vez, o príncipe responde.
А ведь главная, самая сильная боль, может, не в ранах, а вот, что вот знаешь наверно, что вот через час, потом через десять минут, потом через полминуты, потом теперь, вот сейчас — душа из тела вылетит, и что человеком уж больше не будешь, и что это уж наверно; главное то, что наверно., mas a dor principal, a mais forte, talvez não esteja nas feridas, e sim nisto: em saber com certeza que daqui a uma hora, depois daqui a dez minutos, depois daqui a meio minuto, depois agora, já, a alma vai voar do corpo, e que você não vai mais ser um homem, e que isso é certo; o principal é que é certo.
No capítulo V da Primeira Parte, o condenado perdoado só vê o tempo como riqueza quando o vê acabar.
Что если бы не умирать! Что если бы воротить жизнь, — какая бесконечность! И всё это было бы мое! Я бы тогда каждую минуту в целый век обратил, ничего бы не потерял, каждую бы минуту счетом отсчитывал, уж ничего бы даром не истратил!, e se eu não morresse! E se a vida me fosse devolvida, que infinito! E tudo isso seria meu! Eu então transformaria cada minuto num século inteiro, não perderia nada, contaria cada minuto, não gastaria nada à toa!
Ainda no capítulo V da Primeira Parte, ao descrever o último dia de um condenado à guilhotina, o príncipe o imagina espalhando o tempo pelas ruas do caminho.
Еще долго, еще жить три улицы остается; вот эту проеду, потом еще та останется, потом еще та, где булочник направо… еще когда-то доедем до булочника!, ainda falta muito, ainda restam três ruas de vida; esta aqui eu atravesso, depois ainda resta aquela, depois aquela outra, onde tem um padeiro à direita... quando é que vamos chegar ao padeiro!
No capítulo II da Segunda Parte, Lukian Timofêievitch Liébediev conta a morte da condessa Du Barry, que pedia ao carrasco mais um minutinho, e diz por que reza por ela.
И вот за эту-то минуточку ей, может, господь и простит, ибо дальше этакого мизера с человеческою душой вообразить невозможно, E por esse minutinho, quem sabe, o Senhor a perdoe, porque não se pode imaginar miséria maior para uma alma humana.
No capítulo V da Terceira Parte, Hippolit tira a sorte com uma moeda para ler a Explicação, e o resultado o atinge como sentença.
как будто раздавленный решением судьбы; он не побледнел бы более, если б ему прочли смертный приговор, como que esmagado pela decisão do destino; não teria empalidecido mais se lhe tivessem lido a sentença de morte.
No capítulo VI da Terceira Parte, diante do quadro, a natureza lhe aparece como máquina.
Природа мерещится при взгляде на эту картину в виде какого-то огромного, неумолимого и немого зверя [...] в виде какой-нибудь громадной машины новейшего устройства, которая бессмысленно захватила, раздробила и поглотила в себя [...] великое и бесценное существо — такое существо, которое одно стоило всей природы и всех законов ее, всей земли, Olhando esse quadro, a natureza assoma na forma de uma fera enorme, implacável e muda [...] na forma de uma máquina gigantesca, de fabricação moderníssima, que sem sentido agarrou, triturou e engoliu [...] um ser grande e inestimável, um ser que sozinho valia toda a natureza e todas as suas leis, a terra inteira.
No capítulo VII da Terceira Parte, ele reivindica o direito às semanas que a doença lhe deixou.
кому, во имя какого права, во имя какого побуждения вздумалось бы оспаривать теперь у меня мое право на эти две-три недели моего срока?, a quem, em nome de que direito, em nome de que motivo, ocorreria agora contestar-me o meu direito a essas duas ou três semanas do meu prazo?
Ainda no capítulo VII da Terceira Parte, ao nascer do sol, Hippolit encosta a pistola na têmpora e puxa o gatilho; ouve-se só o estalo do cão, porque não havia cápsula, e o susto vira riso.
No capítulo V da Quarta Parte, no parque, Hippolit pergunta ao príncipe como seria melhor morrer, e ele responde pedindo ao moribundo o perdão dos vivos.
Пройдите мимо нас и простите нам наше счастье!, Passe por nós e perdoe-nos a nossa felicidade!
No capítulo XI da Quarta Parte, Parfen Semeónovitch Rogójin leva o príncipe até a cama atrás da cortina.
В ногах, сбиты были в комок какие-то кружева, и на белевших кружевах, выглядывая из-под простыни, обозначался кончик обнаженной ноги; он казался как бы выточенным из мрамора и ужасно был неподвижен. Князь глядел и чувствовал, что чем больше он глядит, тем еще мертвее и тише становится в комнате. Вдруг зажужжала проснувшаяся муха, пронеслась над кроватью и затихла у изголовья., Aos pés, umas rendas estavam embaladas num bolo, e sobre a renda branca, despontando do lençol, desenhava-se a ponta de um pé nu; parecia talhado em mármore e estava terrivelmente imóvel. O príncipe olhava e sentia que, quanto mais olhava, mais morto e silencioso ficava o quarto. De repente, uma mosca que despertara zumbiu, passou por cima da cama e se calou junto à cabeceira.
O livro opõe duas mortes: a anunciada, que o príncipe descreve no capítulo II da Primeira Parte como a pior de todas por tirar a última esperança, e a que ninguém diz em voz alta. Hippolit tem a sua marcada pelo médico e fracassa ao querer antecipá-la no capítulo VII da Terceira Parte; Nastácia Filíppovna Barachkova, que no capítulo X da Terceira Parte escreve que Rogójin vai matá-la, morre sem que ninguém pronuncie a palavra no capítulo XI da Quarta Parte. A certeza que o príncipe chamava de tormento maior é, para ela, uma coisa que ela escolhe.
Quem o encarna
Hippolit, que vive o livro inteiro como condenado. No capítulo VII da Terceira Parte, ele recusa o louvor que lhe pedem.
Неужто нельзя меня просто съесть, не требуя от меня похвал тому, что меня съело?, Será que não podem simplesmente me devorar, sem exigir de mim louvores àquilo que me devorou?
Nastácia Filíppovna, que vê a própria morte com clareza e vai ao encontro dela. No capítulo X da Terceira Parte, numa carta a Aglaia Ivánovna Iepántchina:
но я знаю их тайну [...] Я уверена, что у него в ящике спрятана бритва, обмотанная шелком, как и у того московского убийцы [...] Я бы его убила со страху… Но он меня убьет прежде…, mas eu sei o segredo deles. [...] Tenho certeza de que ele tem na gaveta uma navalha escondida, enrolada em seda, como aquele assassino de Moscou [...] Eu o mataria de medo... Mas ele vai me matar antes...
E Rogójin, que no capítulo XI da Quarta Parte fala do golpe como de um mistério.
совсем нож как бы на полтора… али даже на два вершка прошел… под самую левую грудь… а крови всего этак с пол-ложки столовой на рубашку вытекло; больше не было…, a faca entrou um vierchok e meio... ou até dois vierchoks... bem embaixo do seio esquerdo... e sangue só escorreu na camisola coisa de meia colher de sopa; mais não houve...
Onde aparece
- Primeira Parte, capítulo II: O príncipe diz ao criado do general que a dor principal da guilhotina é saber com certeza a hora em que a alma vai sair do corpo.
- Primeira Parte, capítulo V: O príncipe conta de um condenado perdoado vinte minutos depois de subir ao cadafalso e descreve o último dia de um condenado à guilhotina.
- Primeira Parte, capítulo XIV: O general Iepántchin conta como pior ato da vida ter insultado uma velha que morria enquanto ele gritava.
- Segunda Parte, capítulo II: Liébediev conta a morte da condessa Du Barry, que pedia ao carrasco mais um minutinho, e diz que reza por ela.
- Segunda Parte, capítulo X: Hippolit diz que morrerá em duas semanas, convida todos ao seu enterro e diz que veio para ver as árvores.
- Terceira Parte, capítulo V: Hippolit tira a sorte para ler a Explicação e empalidece como se lhe lessem a sentença de morte.
- Terceira Parte, capítulo VI: Hippolit descreve o Cristo morto do quadro de Rogójin e pergunta como os discípulos puderam acreditar na ressurreição.
- Terceira Parte, capítulo VII: Hippolit reivindica o direito de dispor das semanas que lhe restam e puxa o gatilho de uma pistola sem cápsula.
- Quarta Parte, capítulo V: Hippolit fala da morte de Stepan Glébov, empalado no tempo de Pedro, e pergunta ao príncipe como seria melhor morrer.
- Quarta Parte, capítulo X: O general Ívolguin morre de um segundo ataque, e Nastácia Filíppovna grita que Rogójin está no jardim para matá-la.
- Quarta Parte, capítulo XI: O príncipe vê o corpo de Nastácia Filíppovna atrás da cortina, e Rogójin conta como a faca entrou sob o seio esquerdo.
- Quarta Parte, capítulo XII: Hippolit morre umas duas semanas depois de Nastácia Filíppovna, e Rogójin é condenado a quinze anos de trabalhos forçados.
Onde as leituras divergem
O tiro sem cápsula do capítulo VII da Terceira Parte se lê de dois modos, e o texto não decide: esquecimento sincero de um rapaz em febre, ou encenação de quem queria ser detido e admirado ao mesmo tempo. Keller ameaça quem duvidar, Liébediev e Ievguiêni Pávlovitch Radomski duvidam, e mais tarde o príncipe dirá a Aglaia que não houve fraude.
A resposta do príncipe a Hippolit no capítulo V da Quarta Parte, o pedido de perdão pela felicidade dos vivos, pode ser lida como a única resposta que o livro dá à Explicação, ou como mais uma frase bela que o moribundo ouve com desprezo. Hippolit ri e diz que esperava algo assim; o texto deixa ver que a frase o tocou e o ofendeu, e ele morre, no capítulo XII da Quarta Parte, antes do que esperava, sem que o livro diga com qual das duas coisas.