O tema na obra
Na Ilíada todo mundo sabe que morre, e o poema mostra o que cada um faz com esse saber. No Canto I, Aquiles diz à mãe que, já que nasceu para viver pouco, devia receber ao menos honra, e Tétis confirma que a vida dele é breve e que agora, além de morrer cedo, ele é o mais infeliz de todos. No Canto IX, ele conta o que ela lhe disse sobre os dois destinos de morte e pesa a vida contra tudo o que Ílion possuía: bois e trípodes se obtêm, e a vida de um homem não volta depois de passar a barreira dos dentes.
A morte dos outros aparece em corpos nomeados e em famílias. No Canto IV, o jovem Simoísio cai como um choupo derrubado, sem pagar aos pais o preço da criação, e o canto fecha com mortos de ambos os lados, uns ao lado dos outros, na poeira. No Canto V, Diomedes mata os filhos de um velho que não tinha outro herdeiro, e Dione diz à filha ferida que não vive muito quem luta contra os imortais. No Canto X, Dolão oferece resgate e pede para ser amarrado, e Diomedes o mata quando ele ia tocar o queixo, a cabeça rolando ainda a falar.
Os guerreiros medem a própria morte pelo corpo que ficará. No Canto XI, Odisseu mata Soco pelas costas e diz que as aves o arrastarão sem que pai e mãe lhe fechem os olhos, enquanto a ele, se morrer, os aqueus darão sepultura. No Canto XII, Sarpédon diz que, se fugir da guerra os tornasse imortais, ele não lutaria na frente, mas as Queres da morte estão sobre os dois, incontáveis, e resta dar ou receber glória. No Canto XIII, Eucenor embarca sabendo, pelo adivinho Polído, que morrerá doente em casa ou pelos troianos, e vai ao encontro da segunda morte.
As mortes de Pátroclo e de Heitor ligam as profecias. No Canto XVI, Pátroclo, ferido, diz que a Moira, Apolo e Euforbo o mataram, deixando a Heitor o terceiro lugar, e profetiza que Heitor logo cairá pelas mãos de Aquiles. No Canto XVIII, Aquiles pede para morrer já, porque não socorreu o companheiro, e aceita a conta da mãe: a morte dele vem logo depois da de Heitor. No Canto XIX, o cavalo Xanto lhe avisa que o dia da ruína está perto, e ele responde que já sabe. No Canto XX, quando os deuses entram na luta, Hades salta do trono com medo de que Poseidon rasgue a terra e mostre a casa dos mortos.
No Canto XXI, Aquiles responde a Licáone que Pátroclo, muito melhor que ele, também morreu, e inclui a si na mesma lei. No Canto XXII, Heitor, com a garganta atravessada, avisa que Páris e Apolo destruirão Aquiles às Portas Ceias, e Aquiles responde que receberá a sua Quere quando Zeus e os outros deuses quiserem. O poema não narra essa morte, e deixa a profecia na boca de quem ouve. No Canto XXIII, a alma de Pátroclo pede o enterro e a mão, e foge como fumaça quando Aquiles tenta abraçá-la. No Canto XXIV, Andrômaca chora o marido morto jovem e prevê o destino do filho.
A morte, no poema, não é segredo: quem a vê vir a descreve com precisão. Sarpédon fala das Queres incontáveis, Aquiles das duas partes de vida, Heitor da queda de Troia. A diferença entre os personagens está no que fazem com o saber: Sarpédon o transforma em dever de glória, Aquiles em escolha da fama, Heitor em modo de morrer, Dolão em tentativa de resgate, e o poema não escolhe entre as respostas. Dois moribundos profetizam a morte de quem os mata, Pátroclo no Canto XVI e Heitor no Canto XXII, e a cadeia de mortes sai da boca dos mortos. Heitor responde a Pátroclo com a dúvida, quem sabe se não será Aquiles o primeiro a cair, e Aquiles responde a Heitor com aceitação, receberá a sua Quere quando os deuses quiserem: as duas respostas dão a cada um o seu tom.
Onde aparece
- Canto I: Tétis confirma a Aquiles que a parte de vida dele é breve e que agora, além de morrer cedo, ele é o mais infeliz de todos, e a honra vira questão de vida.
- Canto IV: O canto fecha com um olhar sobre a batalha em que muitos troianos e aqueus jazem de bruços na poeira, uns ao lado dos outros, sem vencedor.
- Canto V: Dione consola Afrodite ferida dizendo que não vive muito quem luta contra os imortais, e Diomedes, advertido por Apolo, recua diante do deus.
- Canto VI: Heitor diz a Andrômaca que nenhum homem o mandará ao Hades contra o que lhe cabe e que ninguém, bom ou mau, escapou da sorte depois de nascer.
- Canto IX: Aquiles diz que nada vale tanto quanto a vida, que bois se roubam e trípodes se adquirem, mas a vida de um homem não volta depois de passar a barreira dos dentes.
- Canto X: Dolão oferece resgate e pede para ser amarrado, mas Diomedes o mata quando ele ia tocar-lhe o queixo, e a cabeça cai ainda falando.
- Canto XI: Odisseu mata Soco pelas costas e diz que as aves o arrastarão sem que pai ou mãe lhe fechem os olhos, enquanto a ele, se morrer, os aqueus darão sepultura.
- Canto XII: Sarpédon diz a Glauco que, se fugir da guerra os tornasse imortais, não lutaria na frente, mas as Queres da morte estão sobre os dois, incontáveis.
- Canto XIII: Eucenor embarca sabendo que morrerá doente em casa ou pelos troianos e escolhe ir ao encontro da segunda morte, atingido por Páris sob a mandíbula.
- Canto XVI: Pátroclo, ferido, diz que a Moira funesta o matou, com Apolo e Euforbo, e profetiza que Heitor morrerá logo pelas mãos de Aquiles, e a alma voa para o Hades chorando.
- Canto XVIII: Aquiles, sabendo por Tétis que morrerá logo depois de Heitor, pede para morrer já, porque não socorreu o companheiro que precisava dele.
- Canto XIX: O cavalo Xanto, a quem Hera dá voz, anuncia a Aquiles que o dia da ruína está perto, e Aquiles responde que já sabe que morrerá longe do pai e da mãe.
- Canto XX: Quando os deuses entram na luta, Hades salta do trono com medo de que Poseidon rasgue a terra e mostre a casa dos mortos aos mortais e aos imortais.
- Canto XXI: Aquiles responde a Licáone que Pátroclo, muito melhor que ele, também morreu, e que sobre ele mesmo estão a morte e a sorte poderosa, ao amanhecer, à tarde ou ao meio-dia.
- Canto XXII: Heitor, com a garganta atravessada, avisa Aquiles de que Páris e Apolo o destruirão às Portas Ceias, e Aquiles responde que receberá a sua Quere quando Zeus quiser.
- Canto XXIII: A alma de Pátroclo aparece em sonho a Aquiles, pede o enterro e a mão, e foge como fumaça quando ele tenta abraçá-la.
- Canto XXIV: Andrômaca diz que o marido morreu jovem e prevê que o filho será levado como servo ou lançado de uma torre por um aqueu a quem Heitor tirou um parente.
Passagens
Tétis confirma a Aquiles que a vida dele será curta.
ἐπεί νύ τοι αἶσα μίνυνθά περ οὔ τι μάλα δήν· / νῦν δʼ ἅμα τʼ ὠκύμορος καὶ ὀϊζυρὸς περὶ πάντων / ἔπλεο·(1.416-418), pois a tua parte de vida é breve, nada longa; e agora és ao mesmo tempo de morte rápida e o mais infeliz de todos.
Odisseu mede a própria morte contra a de Soco pelo destino do corpo.
ἆ δείλʼ οὐ μὲν σοί γε πατὴρ καὶ πότνια μήτηρ / ὄσσε καθαιρήσουσι θανόντι περ, ἀλλʼ οἰωνοὶ / ὠμησταὶ ἐρύουσι, περὶ πτερὰ πυκνὰ βαλόντες. / αὐτὰρ ἔμʼ, εἴ κε θάνω, κτεριοῦσί γε δῖοι Ἀχαιοί.(11.452-455), ah, infeliz! Teu pai e tua mãe veneranda não fecharão teus olhos na morte; as aves carniceiras te arrastarão, batendo as asas em torno. Mas a mim, se eu morrer, os divinos aqueus me darão sepultura.
Sarpédon diz a Glauco que a glória é o que se faz com uma morte que ninguém evita.
ὦ πέπον εἰ μὲν γὰρ πόλεμον περὶ τόνδε φυγόντε / αἰεὶ δὴ μέλλοιμεν ἀγήρω τʼ ἀθανάτω τε / ἔσσεσθʼ, οὔτέ κεν αὐτὸς ἐνὶ πρώτοισι μαχοίμην / οὔτέ κε σὲ στέλλοιμι μάχην ἐς κυδιάνειραν· / νῦν δʼ ἔμπης γὰρ κῆρες ἐφεστᾶσιν θανάτοιο / μυρίαι, ἃς οὐκ ἔστι φυγεῖν βροτὸν οὐδʼ ὑπαλύξαι, / ἴομεν ἠέ τῳ εὖχος ὀρέξομεν ἠέ τις ἡμῖν.(12.322-328), meu caro, se, fugindo desta guerra, devêssemos ser para sempre sem velhice e imortais, eu mesmo não lutaria entre os primeiros nem te mandaria ao combate que dá glória aos homens; mas agora, de qualquer modo, as Queres da morte estão sobre nós, incontáveis, e nenhum mortal pode fugir delas ou escapar. Vamos, ou daremos glória a alguém, ou alguém a nós.
Pátroclo, morrendo, diz a Heitor quem o matará.
ἄλλο δέ τοι ἐρέω, σὺ δʼ ἐνὶ φρεσὶ βάλλεο σῇσιν· / οὔ θην οὐδʼ αὐτὸς δηρὸν βέῃ, ἀλλά τοι ἤδη / ἄγχι παρέστηκεν θάνατος καὶ μοῖρα κραταιὴ / χερσὶ δαμέντʼ Ἀχιλῆος ἀμύμονος Αἰακίδαο.(16.851-854), direi ainda outra coisa, e guarda-a no teu espírito: tu mesmo não viverás muito tempo; já se acha perto de ti a morte e o destino poderoso, que te dominará pelas mãos de Aquiles, o irrepreensível Eácida.
Aquiles pede para morrer já, por não ter socorrido o companheiro.
αὐτίκα τεθναίην, ἐπεὶ οὐκ ἄρʼ ἔμελλον ἑταίρῳ / κτεινομένῳ ἐπαμῦναι· ὃ μὲν μάλα τηλόθι πάτρης / ἔφθιτʼ, ἐμεῖο δὲ δῆσεν ἀρῆς ἀλκτῆρα γενέσθαι(18.98-100), Que eu morra já, pois afinal eu não ia socorrer o companheiro que estava sendo morto; ele pereceu muito longe da pátria, e precisou de mim para ser o defensor contra a ruína.
Aquiles diz a Licáone que a mesma lei vale também para ele.
ἀλλʼ ἔπι τοι καὶ ἐμοὶ θάνατος καὶ μοῖρα κραταιή· / ἔσσεται ἢ ἠὼς ἢ δείλη ἢ μέσον ἦμαρ(21.110-111), Mas também sobre mim estão a morte e a sorte poderosa: haverá uma aurora, ou uma tarde, ou um meio-dia,
Heitor, morrendo, diz onde Aquiles cairá.
ἤματι τῷ ὅτε κέν σε Πάρις καὶ Φοῖβος Ἀπόλλων / ἐσθλὸν ἐόντʼ ὀλέσωσιν ἐνὶ Σκαιῇσι πύλῃσιν.(22.359-360), no dia em que Páris e Febo Apolo te destruírem, bravo como és, junto às Portas Ceias.
Aquiles responde sem contestar.
τέθναθι· κῆρα δʼ ἐγὼ τότε δέξομαι ὁππότε κεν δὴ / Ζεὺς ἐθέλῃ τελέσαι ἠδʼ ἀθάνατοι θεοὶ ἄλλοι.(22.365-366), morre; quanto à minha Quere, eu a receberei quando Zeus e os outros deuses imortais quiserem realizá-la.
Aquiles conclui, ao ver a imagem do amigo fugir, que há alma no Hades, mas sem mente.
ὢ πόποι ἦ ῥά τίς ἐστι καὶ εἰν Ἀΐδαο δόμοισι / ψυχὴ καὶ εἴδωλον, ἀτὰρ φρένες οὐκ ἔνι πάμπαν·(23.103-104), ai de mim, existe então, mesmo na casa de Hades, alma e imagem, mas nelas não há entendimento algum.