O tema na obra
No capítulo I, Brás Cubas abre as memórias pelo fim e se apresenta como defunto autor, para quem a campa foi outro berço. No capítulo VII, a figura que se diz Natureza ou Pandora lhe nega mais anos e lhe mostra o desfile dos séculos (ver Pandora e o delírio).
A morte vista de perto vem no capítulo XXIII, na agonia da mãe, e a dos outros atravessa o livro: o pai no capítulo XLIV, o velho Viegas no capítulo LXXXIX, Dona Plácida no capítulo CXLIV, Nhã-loló no capítulo CXXVI e Quincas Borba no capítulo CLIX.
Os outros mortos do livro chegam de fora. No capítulo XIX, a mulher tísica do capitão morre a bordo e é lançada ao mar, e Brás, que pensara em se matar por Marcela, confessa que não ousou fitar a morte quando ela veio ter com ele. No capítulo XLV, o enterro do pai se reduz a uma só frase com o pranto, a casa armada, o caixão, as rezas e o coche fúnebre, notas de um capítulo triste e vulgar que Brás diz não escrever. No capítulo LXXXIX, o velho Viegas regateia até o fim a venda de uma casa e morre quando o comprador chega a trinta e oito contos, depois de ter exigido quarenta.
Depois da partida de Virgília, a morte passa quase sem abalo. No capítulo CXVI, morrem o tio cônego e dois primos de Brás, e ele os leva ao cemitério como quem leva cartas ao correio. No capítulo CXXVI, Nhã-loló morre na primeira entrada da febre amarela, e Brás, que a acompanha ao jazigo sem lágrimas, conclui que talvez não a amasse deveras. No capítulo CL, quando o jornal dele morre, morre também Lobo Neves, que ia ser ministro, e Brás admite o alívio e vê Virgília chorar de verdade no enterro.
No capítulo CLX, o defunto fecha as contas dizendo que não transmitiu a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.
A morte entra no livro por três portas: o lugar de onde Brás fala, a lei da Natureza que o delírio expõe e a cena que ele conta de longe, quando não é a dele. Na agonia da mãe a leveza falha, e nos outros enterros (o pai, os primos, Plácida, Lobo Neves) ela volta, de modo que o texto deixa duas leituras abertas: conforto de quem já atravessou a morte, ou pose de quem faz do luto assunto de estilo.
Onde aparece
- Capítulo I: Brás Cubas abre as memórias pela própria morte, numa sexta-feira de agosto de 1869, aos sessenta e quatro anos, e se apresenta como defunto autor, para quem a campa foi outro berço.
- Capítulo VII: No delírio, Brás Cubas encontra uma figura imensa que se diz Natureza ou Pandora, mãe e inimiga, a qual lhe nega mais anos e, do alto de uma montanha, lhe mostra o desfile dos séculos.
- Capítulo XIX: A mulher tísica do capitão morre a bordo e é lançada ao mar, e Brás, que pensara em se matar por Marcela, confessa que não ousou fitar a morte quando ela veio ter com ele.
- Capítulo XXIII: Brás assiste, mudo e sem chorar, à longa agonia da mãe, devorada por um cancro no estômago, e conta que foi a primeira vez que pôde encarar a morte de uma pessoa amada.
- Capítulo XLIV: O pai de Brás morre numa manhã de maio, quatro meses depois de ver desfeitos os castelos que engenhara, e Brás escreve que lhe parece que ele não morreu de outra coisa.
- Capítulo XLV: Brás enumera numa só frase o pranto, a casa armada, o caixão, as rezas e o coche fúnebre do enterro do pai e diz que são notas de um capítulo triste e vulgar que não escreve.
- Capítulo LXXXIX: O velho Viegas regateia até o fim a venda de uma casa, exige quarenta contos e morre quando o comprador chega a trinta e oito.
- Capítulo XCV: Brás perde o embrião com quem conversava em pensamento e escreve que ele se foi naquele ponto em que não se distingue Laplace de uma tartaruga.
- Capítulo CXVI: Depois da partida de Virgília, morrem o tio cônego e dois primos de Brás, e ele os leva ao cemitério como quem leva cartas ao correio, sem se dar por abalado.
- Capítulo CXXVI: Nhã-loló morre na primeira entrada da febre amarela, e Brás, que a acompanha ao jazigo sem lágrimas, conclui que talvez não a amasse deveras.
- Capítulo CXLIV: Brás manda Dona Plácida à Misericórdia por cortesia, ela amanhece morta, e ele conclui que a vida dela serviu aos seus amores com Virgília.
- Capítulo CL: Quando o jornal de Brás morre, morre também Lobo Neves, que ia ser ministro, e Brás admite o alívio e vê Virgília chorar de verdade no enterro.
- Capítulo CLIX: Quincas Borba volta de Minas demente, sabendo que está louco, e morre em casa de Brás, repetindo que a dor é uma ilusão.
- Capítulo CLX: Brás faz o balanço do que não foi nem teve e encerra as memórias dizendo que não teve filhos e que não transmitiu a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.
Passagens
Brás diz de onde fala.
eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço
A Natureza do delírio se apresenta com dois nomes e duas relações.
Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga
A morte da mãe é a primeira que Brás encara sem aparelho de retórica.
Mas esse duelo do ser e do não ser, a morte em ação, dolorida, contraída, convulsa, sem aparelho político ou filosófico, a morte de uma pessoa amada, essa foi a primeira vez que a pude encarar
O defunto faz a conta do que a morte lhe tirou.
Esta é a grande vantagem da morte, que, se não deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar
Brás responde ao crítico sobre o tempo do livro.
A morte não envelhece