Clavis Libri

Tema em A Montanha Mágica

Morte

A morte e a mortalidade: o morrer, a consciência do próprio fim, o além, a morte violenta como acontecimento da obra.

O tema na obra

Hans Castorp conhece a morte antes de conhecer a montanha. No capítulo II, entre o quinto e o sétimo ano de vida, perde a mãe e o pai, e pouco depois o avô, o senador Hans Lorenz Castorp. No velório, o avô aparece vestido com a golilha espanhola do retrato, e o menino reconhece ali a forma verdadeira dele. Do terceiro enterro o narrador tira os dois aspectos da morte, um piedoso e solene, outro físico e material.

No capítulo V a morte deixa de ser lembrança e vira visão. Na radiografia, Hans Castorp olha a própria mão e compreende pela primeira vez que está destinado a morrer. O Dr. Behrens lhe diz que viver é morrer, Lodovico Settembrini ensina que a morte é complemento e condição da vida, e, depois de ver o corpo do aristocrata austríaco, Hans Castorp passa a visitar os moribundos da casa. Na Noite de Walpurgis, diz a Clawdia Chauchat, em francês, que o corpo, o amor e a morte são uma coisa só.

No capítulo VI Settembrini adverte que a morte, isolada como princípio, redime pelo mal, e que os pensamentos de Leo Naphta estão sob a proteção dela; na Neve, Hans Castorp decide não lhe conceder poder algum sobre os pensamentos. No fim do capítulo morre Joachim Ziemssen, no meio de uma frase sobre a licença. O capítulo VII acumula mortes: a de Pieter Peeperkorn, que se envenena; a de Naphta, que atira na própria cabeça depois de Settembrini atirar para o ar; a aparição de Joachim numa sessão do Dr. Krokowski; e a guerra, que o narrador chama de festa mundial da morte.

O romance trata a morte nos dois registros que o capítulo II separa, o solene e o físico, e nunca deixa um apagar o outro: o velório do avô tem a golilha do retrato e tem o boneco de cera que a morte pôs no lugar dele, a morte de Joachim tem a frase de Behrens sobre a honra e tem a injeção de cânfora. O que muda é a posição de Hans Castorp diante dela: o menino que se habitua, o rapaz que vê o próprio esqueleto, o homem que na neve quer negar a ela o domínio dos pensamentos e esquece a decisão na mesma noite.

Onde aparece

Passagens

Do terceiro enterro, o narrador tira o duplo rosto da morte.

Dessa terceira morte o narrador extrai a formulação com que resume o duplo rosto da morte no romance inteiro: a morte tinha dois aspectos, um piedoso, significativo, de melancólica beleza [...] e ao mesmo tempo tinha outro, absolutamente diverso e até mesmo oposto, um aspecto muito físico, bem material, que era impossível qualificar propriamente de belo, significativo, piedoso, nem sequer de triste.
Capítulo II: A pia batismal e as duas figuras do avô

Diante do anteparo, Hans Castorp vê o próprio túmulo.

Terminada a radioscopia de Joachim, Behrens permite a Hans Castorp contemplar a própria mão através do anteparo, e é aqui que o capítulo chega à sua cena mais forte. E Hans Castorp viu o que devia ter esperado, mas que, em realidade, não cabe ver ao homem, e que jamais teria crido poder ver: lançou um olhar para dentro do seu próprio túmulo. Viu, antecipado pela força dos raios, o futuro trabalho da decomposição; viu a carne em que vivia, solubilizada, aniquilada, reduzida a uma névoa inconsistente, em meio à qual se destacava o esqueleto minuciosamente plasmado da sua mão direita, e em torno da primeira falange do dedo anular pairava, preto e frouxo, o anel-sinete que o avô lhe legara [...]. Com os olhos daquela parenta da família Tienappel, contemplou uma parte familiar do seu corpo [...], e pela primeira vez na vida compreendeu que estava destinado a morrer.
Capítulo V: Humaniora, a análise e a Noite de Walpurgis

Joachim morre sem saber que morre, ocupado com a licença.

No instante da morte, Joachim, sem saber que morre, dá uma última ordem doméstica: o enfermo mencionou com certa pressa que devia imediatamente redigir e despachar um requerimento, solicitando a prorrogação de sua licença. No meio dessas palavras realizou-se o “trespasse imperceptível”.
Capítulo VI: Naphta, a Neve e a morte de Joachim

Atrás da canção de Schubert, o narrador nomeia o mundo do amor proibido.

O narrador declara, sem rodeios, qual é o mundo que a canção esconde atrás de si: Qual era o mundo que se abria atrás dela e que, segundo os pressentimentos íntimos de Hans Castorp, devia ser o mundo do amor proibido? Era a morte.
Capítulo VII: Peeperkorn, o grande tédio e o trovão