Uma boa escolha em português é a tradução de Crime e Castigo de Paulo Bezerra, publicada pela Editora 34, feita diretamente do russo. Não existe ranking oficial de tradutores, mas a tradução direta é o critério mais seguro para escolher.
Por que a tradução direta importa: durante muito tempo, romances russos chegaram ao português em segunda mão, passando pelo francês ou por outras línguas, e cada passagem de uma língua a outra perde palavras e arrisca mudar o que o autor quis dizer. Em Crime e Castigo isso pesa mais do que em outros livros, porque a teoria de Raskólnikov depende de palavras exatas: piolho, transpor, ordinário e extraordinário, criatura trêmula. O próprio título gira em torno disso. A palavra russa para crime, prestuplenie, vem de um verbo que significa ultrapassar, pisar além, e é o verbo que o livro repete quando Raskólnikov pergunta: "Vou conseguir transpor ou não vou!" Uma tradução que passa por uma terceira língua tende a perder esse fio, e o leitor não percebe. Na tradução de Bezerra, o verbo aparece como ultrapassar, e a criatura trêmula, como besta trêmula.
A edição da Editora 34 também traz notas explicativas com a história do texto, como a suspensão do folhetim depois do atentado de Karakózov contra o tsar Alexandre II, em 1866, e a escrita da parte final sob o impacto do processo.
Uma ressalva: mesmo entre traduções diretas, o mesmo termo russo ganha palavras diferentes em português, e a escolha de cada tradutor é uma leitura. "Melhor" depende também do gosto de prosa. Para conferir uma edição, olhe a ficha catalográfica e procure a indicação de que o texto foi traduzido do russo.