Raskólnikov mata a penhorista Aliena Ivánovna para descobrir se é um homem extraordinário, com direito de transpor a lei, mas o livro põe outras razões ao lado dessa e deixa em aberto qual pesa mais.
Uma é o dinheiro de que a família precisa: a mãe e a irmã se sacrificam por ele, e a carta que anuncia o noivado de Dúnia com Lújin o empurra. Outra é uma conta que ele ouve numa taberna, em que um estudante diz que a velha, rica e dura com a irmã, não merece viver: "Uma morte e cem vidas em troca, ora, isso é aritmética!" Quando o oficial com quem ele fala lhe pergunta se ele mesmo mataria a velha, o estudante responde que não, e Raskólnikov ouve dita por um desconhecido a ideia que acabava de nascer nele.
Quando confessa a Sônia, ele oferece várias razões e desmente cada uma: Napoleão, a mãe e a irmã sem recursos, o piolho. Ficam duas frases: "Eu simplesmente matei; matei para mim, para mim somente." e "eu precisava saber então, e saber depressa: sou um piolho, como todos, ou um homem?" A velha seria a prova de uma pergunta sobre ele mesmo.
Há ainda o modo como o ato acontece. Depois do sonho com a égua, ele desiste; ouve por acaso a hora em que Lisavieta sairá e sente que a escolha lhe foi tirada. O narrador diz que era "como se tivesse prendido um pedaço da roupa na roda de uma máquina, e ela começasse a puxá-lo para dentro". O texto admite duas leituras: o colapso real da vontade, ou o uso do acaso para transferir a responsabilidade.