Crime e Castigo diz que uma ideia, por mais bem calculada que pareça, não dá a ninguém o direito de tirar a vida de outra pessoa, e diz isso sem refutar a ideia em discurso: mostra o que acontece com quem a leva a sério. O romance não discute a teoria de Raskólnikov; faz o crime acontecer e acompanha o que sobra do homem depois.
A tese aparece com toda a força no começo, numa taberna: "Uma morte e cem vidas em troca, ora, isso é aritmética!" Raskólnikov ouve dita por um desconhecido a conta que acabava de nascer nele, e a executa. O que a conta deixa de fora entra na cena do crime: Lisavieta, a irmã mansa da velha, chega na hora errada, e o narrador a mostra com o braço esquerdo, que "ergueu um pouquinho", estendido devagar, como quem afasta o golpe.
Depois do ato, a teoria não cai por contra-argumento, cai pelo corpo e pela solidão. Logo no dia seguinte vem "uma sensação sombria de solidão atormentadora e sem fim". Ao confessar a Sônia, ele conclui: "Foi a velhota que eu matei? Foi a mim que matei, e não a velhota!" E Razumíkhin, que ignora o crime, já dissera o que o livro vai mostrar: "a alma viva não vai se submeter à mecânica".
O que ocupa o lugar da teoria são pessoas: Sônia, que o acompanha à Sibéria, Porfiri, que lhe diz que "no sofrimento há uma ideia", e a família. O Epílogo resume: "Em vez da dialética, chegou a vida". As leituras divergem sobre o que isso quer dizer. Para uns, é a resposta cristã de Dostoiévski, a de uma vida que refuta uma tese sem argumentar. Para outros, é o livro mostrando o custo do crime e remetendo a renovação a "uma nova história" que não conta, sem demonstrar que a mudança é possível.