Sônia lê a ressurreição de Lázaro porque Raskólnikov pede, e ele escolhe esse trecho do Evangelho de João sem dizer por quê: é o relato de um morto de quatro dias que sai do túmulo quando Jesus o chama, lido por uma mulher a um homem que acabou de dizer que talvez nem haja Deus.
A cena é da Quarta Parte, à noite, no quarto de Sônia. Raskólnikov a aperta sobre o destino das crianças da madrasta até ela repetir que Deus não permitirá o pior, e responde: "Pois é, talvez nem haja Deus nenhum." Depois beija o pé dela: "Não foi diante de você que me curvei, foi diante de todo o sofrimento humano que me curvei." Quando pergunta se ela reza muito, ouve: "E o que eu seria sem Deus?" Só então pede o Novo Testamento que Lisavieta trouxe a ela e o capítulo que Sônia lera a Lisavieta, a mulher que ele matou.
Sônia lê tremendo, e no auge imagina que ele, descrente como os judeus do relato, vai crer ali mesmo. Para na crença dos que viram o que Jesus fez, fecha o livro e diz só que é tudo sobre a ressurreição de Lázaro. Raskólnikov responde que largou a mãe e a irmã e propõe: "Juntos estamos amaldiçoados, e juntos iremos". Atrás da porta, Svidrigáilov ouve tudo.
O livro não diz o que ele esperava ouvir, e a cena admite duas leituras. Numa, Lázaro é Raskólnikov, o morto que sai porque alguém o chama, e quem chama é Sônia. Noutra, ele é um dos que veem e creem, e o milagre é o que ela faz ao ler, com a voz falhando, a um homem que não crê. No Epílogo, o Evangelho dela está sob o travesseiro dele, e ele ainda não o abriu: "O amor os ressuscitou", diz o narrador, e a leitura que fecharia a promessa não vem.