Segundo o Epílogo, não: na prisão siberiana "ele não se arrependia de seu crime", e o que o adoece é o orgulho ferido; o que muda no fim é o amor por Sônia, não um veredicto sobre o assassinato, e o livro deixa abertas outras leituras.
A leitura de que ele não se arrepende tem muito apoio. Ao tribunal, diz que se entregou por arrependimento franco, mas o narrador observa que a resposta soou quase rude, e no capítulo seguinte afirma: "o orgulho dele estava muito ferido; foi de orgulho ferido que ele adoeceu". Pouco antes de se entregar, ele dissera à irmã: "Não penso nele e não penso em lavá-lo". Na prisão retoma a teoria e só reconhece culpa em não ter suportado o crime e em ter se entregado.
Mas o texto também sustenta o contrário. No momento do crime, o narrador diz que, com a cabeça clara, ele "largaria tudo e iria na mesma hora denunciar a si próprio", movido "só por horror e repulsa pelo que fez". Na praça, beija a terra "com deleite e felicidade". E, se ele explica por um instinto obtuso que não se tenha matado à beira do rio, o narrador sugere outra causa: um pressentimento, já ali, da falsidade das próprias convicções.
A virada, quando chega, não vem como arrependimento. À beira do rio, ele cai chorando aos pés de Sônia, e o narrador diz: "Em vez da dialética, chegou a vida". Pega o Evangelho dela sem abri-lo e se pergunta se as convicções dela não podem ser as suas, ao menos os sentimentos e as aspirações. A renovação é anunciada e remetida a outro relato: confiança de que a mudança está garantida, ou admissão de que o romance não segue a torção que o salvaria. Em nenhuma das duas leituras a teoria é refutada: ela fica para trás, substituída.