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Personagem

Mezêncio

Quem é

Mezêncio é o rei etrusco de Agila, tirano expulso pelo próprio povo, e um dos aliados de Turno na guerra contra os troianos. O poema o apresenta como desprezador dos deuses e cruel a ponto de matar atando mortos a vivos. Foge para os rútulos com o filho, Lauso, e luta contra Enéias sem pedir nada a ninguém. O que ele quer é só sobreviver com o filho ao lado, e o poema o desmonta por esse único ponto: o pai que parecia sem piedade a tem inteira por Lauso. O papel dele é ser o inimigo que Enéias mata sem alívio e que o leitor, no fim, vê como pai de luto.

Trajetória

No Livro VII Mezêncio entra no catálogo dos chefes que se juntam a Turno, descrito como desprezador dos deuses e acompanhado de Lauso. Mais adiante recruta tropas e devasta campos, e o poema o deixa aí, sem mostrar o que ele fez para ser odiado.

Quem conta é Evandro, no Livro VIII: o povo de Agila expulsou o rei por causa das mortes cruéis, e um harúspice proibiu os etruscos de seguir chefe italiano, o que os joga nos braços de Enéias. Evandro lembra também que, se tivesse a força que já teve, o tirano vizinho não teria feito tantas viúvas na cidade dele.

Non ego nunc dulci amplexu divellerer usquam, / Nate, tuo; neque finitimo Mezentius unquam / Huic capiti insultans, tot ferro saeva dedisset / Funera, tam multis viduasset civibus urbem, eu agora não seria arrancado do teu doce abraço, filho; e Mezêncio, insultando esta cabeça tão vizinha, não teria feito tantas mortes a ferro nem deixado viúva de tantos cidadãos a cidade.
Livro VIII: O escudo

No Livro IX Mezêncio aparece no assalto geral ao acampamento troiano, atacando com fogo.

No Livro X, por ordem de Júpiter, ele ocupa o lugar de Turno no combate, e luta como rocha e como javali cercado. Enéias o fere na virilha, e Lauso se atira contra Enéias para dar tempo à fuga do pai. Enéias o avisa, com a mesma piedade que reconhece nele, e, tomado pela ira, o mata, e logo sente remorso e devolve armas e corpo.

Quo, moriture, ruis? majoraque viribus audes? / Fallit te incautum pietas tua, aonde corres, tu que vais morrer? Ousas mais do que tuas forças? Teu amor filial te engana, incauto.
Livro X: A batalha

Mezêncio estancava a ferida junto ao Tibre e entende pelo choro dos soldados que o filho morreu. Acusa-se de ter deixado o filho morrer por ele e de ter manchado o nome dele com o próprio crime.

Tantane me tenuit vivendi, nate, voluptas, / Ut pro me hostili paterer succedere dextrae / Quem genui? tuane haec genitor per vulnera servor, / Morte tua vivens? [...] Idem ego, nate, tuum maculavi crimine nomen, / Pulsus ob invidiam solio sceptrisque paternis, tanto me prendeu, filho, o prazer de viver, que deixei ir à mão inimiga, no meu lugar, quem eu gerei? Sou eu, pai, salvo por tuas feridas, vivendo da tua morte? [...] Eu mesmo, filho, manchei teu nome com meu crime, expulso do trono e do cetro de meus pais por ódio.
Livro X: A batalha

Monta o cavalo Rebo, chama Enéias três vezes e gira em volta dele atirando lanças, até que Enéias mata o cavalo. Antes do último combate, diz a Enéias que a única forma de abatê-lo já foi usada; preso sob o animal morto, pede só uma sepultura junto ao filho.

Quid me erepto, saevissime, nato / Terres? haec via sola fuit qua perdere posses. / Nec mortem horremus, nec divum parcimus ulli. / Desine: jam venio moriturus, por que me aterras, tu o mais feroz, depois de me tirar o filho? Esse era o único caminho por onde podias me destruir. Não tememos a morte, nem poupamos nenhum dos deuses. Basta: venho para morrer.
Livro X: A batalha

Enéias o mata. No Livro XI erguerá, num carvalho, as armas dele como troféu dedicado a Marte, e dirá aos chefes que o grande feito está cumprido.

Maxima res effecta, viri; timor omnis abesto, / Quod superest: haec sunt spolia et de rege superbo / Primitiae, manibusque meis Mezentius hic est., um grande feito está cumprido, homens; que todo temor se afaste do que resta: estes são os despojos e as primícias do rei soberbo, e aqui está Mezêncio, pelas minhas mãos.
Livro XI: Camila

Temas que encarna

Mezêncio é o outro lado de Dever: a piedade filial, que dá nome ao herói, vale também para o tirano, e o poema a mostra nele sem apagar o resto. Passa por ele a Guerra, pela crueldade que faz um povo se virar contra o rei, e Destino e livre-arbítrio, porque Júpiter o põe no lugar de Turno e o leva ao único combate em que Enéias o mata.

Lauso e Palante morrem jovens, Lauso pela fidelidade ao pai e Palante pela glória do duelo, e Enéias reage de modo oposto a cada um: devolve as armas de Lauso e, ao ver o talim de Palante no ombro de Turno, mata o rútulo. O poema põe o tirano pedindo sepultura junto ao filho e o herói vingando o filho do aliado, e deixa os dois pais, Mezêncio e Evandro, no mesmo luto.

Relações

  • Enéias: o inimigo que o fere, mata o filho dele e depois o mata.
  • Turno: o aliado cujo lugar no combate ele ocupa, por ordem de Júpiter, quando Juno afasta o rútulo do campo.
  • Evandro: o vizinho que sofria com a tirania dele e que conta ao herói por que os etruscos mudaram de lado.
  • Palante: o rapaz cuja morte espelha a de Lauso.