Clavis Libri

Tema em Eneida

Império e colonialismo

O domínio de um povo sobre outro: império, conquista, colônia.

O tema na obra

A Eneida promete o império antes de mostrá-lo. No Livro I, Júpiter diz a Vênus que aos romanos não põe limite de espaço nem de tempo, e a promessa aparece ao lado de um herói náufrago, Enéias, que chega a uma costa alheia, entra em Cartago coberto por uma névoa e inveja os que já levantam muralhas. A legitimidade do império vem da fraqueza do fundador, e a cidade rival é a primeira a lhe mostrar o que ele procura.

Cartago também é uma fundação de exilados. Dido fugiu de Tiro com o tesouro do irmão, comanda a empresa e acolhe os troianos porque conhece o exílio. Quando Enéias parte, no Livro IV, ela pede que não haja amor nem tratados entre os povos e invoca um vingador nascido dos seus ossos, que persiga os colonos dardânios: o poema dá à inimizade entre Roma e Cartago uma origem em verso, e a tradição lê o vingador sem nome como Aníbal.

É no Livro VI que o poema diz o que Roma deve fazer. Anquises mostra a Enéias a fila dos futuros romanos até Augusto e dita a missão: outros talharão melhor o bronze, falarão melhor e medirão os astros, e o romano reinará, imporá o costume da paz, poupará os submetidos e abaterá os soberbos. A fórmula serve de medida do bom domínio e de justificativa da conquista, e o poema não separa as duas coisas. No mesmo desfile aparecem o aviso contra a guerra civil de César e Pompeu e o jovem Marcelo, que os fados mostram à terra e levam cedo.

O Livro VIII mostra o outro lado: Roma começa pobre. Evandro aponta a Enéias o Capitólio coberto de mato, e o escudo forjado por Vulcano grava, mais adiante, Augusto em Ácio contra a rainha egípcia e o triunfo com trezentos templos. O Livro XII cobra o preço do acordo: vencida, Juno pede que os latinos conservem o nome, a fala e a roupa, e Júpiter concede que os troianos se misturem a eles e que todos falem uma só língua latina, de modo que Troia some dentro do povo em cuja terra desembarcou.

O poema sustenta duas vozes ao mesmo tempo. A de Anquises vê no império um serviço, reger e poupar, e a de Dido e de Turno vê, do lado de quem recebe o estrangeiro, os colonos que chegam e tomam a noiva. No Livro VII, o oráculo de Latino fala de genros estrangeiros que levarão o nome do povo ao céu; no Livro XII, Juturna diz aos rútulos que, vencidos, serão súditos. O troiano que jurou não querer reino é o mesmo que ameaça arrasar a cidade se ela não aceitar o freio.

Onde aparece

  • Livro I: Júpiter promete a Vênus que os romanos terão um império sem fim, e Enéias, coberto pela névoa, inveja os cartagineses cujas muralhas já se levantam.
  • Livro I: Dido, fugida de Tiro com o tesouro do irmão, comanda a empresa de fundar Cartago e acolhe os troianos.
  • Livro IV: Dido, ao ver as naus partirem, invoca um vingador nascido dos seus ossos e pede guerra entre os povos.
  • Livro VI: Anquises dita a missão de Roma: reger os povos, impor o costume da paz, poupar os submetidos e abater os soberbos.
  • Livro VIII: Evandro mostra a Enéias o Capitólio coberto de mato, e o escudo de Vulcano traz Augusto em Ácio e os trezentos templos do triunfo.
  • Livro XII: Juno pede que os latinos conservem o nome, e Júpiter promete que os troianos se misturarão a eles e que todos falarão uma só língua.
  • Livro VII: O oráculo de Fauno manda Latino dar a filha a um genro estrangeiro, cuja descendência levará o nome latino até os astros.

Passagens

Júpiter promete aos romanos um poder sem fronteira.

His ego nec metas rerum nec tempora pono: / Imperium sine fine dedi., a estes não ponho limite de espaço nem de tempo: dei-lhes um império sem fim.
Livro I: A tempestade e Cartago

Dido pede um vingador que nasça dos seus ossos.

Tum vos, o Tyrii, stirpem et genus omne futurum / Exercete odiis, cinerique haec mittite nostro / Munera: nullus amor populis nec foedera sunto. / Exoriare aliquis nostris ex ossibus ultor, / Qui face Dardanios ferroque sequare colonos. / Nunc, olim, quocumque dabunt se tempore vires, / Littora littoribus contraria, fluctibus undas / Imprecor, arma armis: pugnent ipsique nepotes, e vós, ó tírios, atormentai com ódios a sua estirpe e toda a raça futura, e enviai isto às minhas cinzas como oferta: que não haja amor nem tratados entre os povos. Que surja de meus ossos algum vingador, que persiga com tocha e ferro os colonos dardânios, agora, depois, em qualquer tempo em que as forças se ofereçam: peço em praga praias contrárias às praias, ondas contra ondas, armas contra armas: que lutem também os netos.
Livro IV: Dido

Anquises dita a missão de Roma.

Tu regere imperio populos, Romane, memento; / Hae tibi erunt artes, pacisque imponere morem, / Parcere subjectis, et debellare superbos, tu, romano, lembra-te de reger os povos com o teu poder; estas serão as tuas artes: impor o costume da paz, poupar os submetidos e abater os soberbos
Livro VI: A descida ao mundo dos mortos

O desfile dos futuros romanos termina com o preço dito em verso.

Heu, miserande puer! si qua fata aspera rumpas, / Tu Marcellus eris. Manibus date lilia plenis: / Purpureos spargam flores, animamque nepotis / His saltem accumulem donis, et fungar inani / Munere, ai, menino digno de pena! Se acaso rompesses os duros fados, tu serias Marcelo. Dai lírios a mãos cheias: espalharei flores purpúreas e ao menos cumularei a alma do neto com estes dons, e cumprirei um dever inútil
Livro VI: A descida ao mundo dos mortos

O escudo de Enéias termina em Roma, com trezentos templos.

At Caesar, triplici invectus Romana triumpho / Moenia, dis Italis votum immortale sacrabat, / Maxima ter centum totam delubra per urbem, mas César, entrado nas muralhas romanas em triplo triunfo, consagrava aos deuses itálicos um voto imortal: trezentos grandes templos por toda a cidade.
Livro VIII: O escudo

Júpiter concede a Juno que os troianos desapareçam como nome.

Sermonem Ausonii patrium moresque tenebunt; / Utque est, nomen erit: commixti corpore tanto / Subsident Teucri: morem ritusque sacrorum / Adjiciam, faciamque omnes uno ore Latinos, os ausônios manterão a fala dos pais e os costumes; o nome será como é: os teucros, misturados num corpo tão grande, se assentarão; acrescentarei o costume e os ritos sagrados, e farei todos latinos de uma só boca.
Livro XII: Turno