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Personagem

Lavínia

Quem é

Lavínia é a filha única do rei Latino e da rainha Amata, e a noiva em disputa na segunda metade da Eneida. Muitos a pretendem no Lácio e em toda a Ausônia, a mãe a quer casada com Turno, e o destino a reserva a Enéias. Ela quase não age e nunca fala: em todo o poema, Lavínia não tem uma só fala, e o que o poema mostra dela são gestos, um rubor, cabelos em chamas, a cabeça baixa. O papel dela é o de ser o que está em jogo. Quem casar com ela herda o reino de um rei sem filho homem, e é por isso que a guerra do Lácio gira em torno de uma moça cuja vontade o poema não registra.

Trajetória

No Livro I, o poema só anuncia a terra dela: Júpiter promete a Vênus que Enéias verá as muralhas de Lavínio, e o proêmio fala das costas de Lavínio que o herói alcança primeiro. Lavínia ainda não existe como pessoa, só como o nome de uma cidade que ele fundará.

Arma virumque cano Trojae qui primus ab oris / Italiam, fato profugus, Lavinaque venit / Littora, canto as armas e o homem que, fugitivo pelo destino, veio primeiro das praias de Troia à Itália e às costas de Lavínio.
Livro I: A tempestade e Cartago

No Livro VI, no desfile de futuros romanos, Anquises anuncia a Enéias que Sílvio nascerá tarde, quando ele já for velho, de Lavínia, sua esposa: ela é o ponto de passagem entre Troia e a linhagem de Alba e de Roma.

No Livro VII, ela entra em cena como o prêmio que todos querem. Turno é o pretendente mais forte, com a rainha a favor, mas prodígios travam as bodas, e um deles a envolve: quando Lavínia está ao lado do pai no altar, uma chama toma os longos cabelos, o ornamento, a coroa de pedras, e a envolve em fumaça sem queimá-la. Os adivinhos leem o sinal como fama para ela e guerra para o povo.

Multi illam magno e Latio totaque petebant / Ausonia. Petit ante alios pulcherrimus omnes / Turnus, avis atavisque potens; quem regia conjux / Adjungi generum miro properabat amore: / Sed variis portenta deum terroribus obstant, muitos a pretendiam, do grande Lácio e de toda a Ausônia. Pede-a antes de todos Turno, o mais belo, poderoso por avós e bisavós, e a rainha, sua esposa, apressava com extraordinário amor que ele lhe fosse unido como genro. Mas portentos dos deuses se opõem, com terrores variados.
Livro VII: A chegada ao Lácio

Depois o oráculo do avô Fauno manda Latino recusar genros latinos e esperar estrangeiros, e o rei conclui que Enéias é o genro. Juno, que já aceitou que Lavínia será mesmo a esposa de Enéias, muda de alvo: não impedirá o casamento, mas o fará custar sangue, e, num monólogo em que se dirige à moça sem que ela ouça, diz que será dotada com sangue troiano e rútulo.

Non dabitur regnis (esto) prohibere Latinis, / Atque immota manet fatis Lavinia conjux: / At trahere, atque moras tantis licet addere rebus; / At licet amborum populos exscindere regum. / Hac gener atque socer coeant mercede suorum. / Sanguine Trojano et Rutulo dotabere, virgo; / Et Bellona manet te pronuba, não me será dado impedi-los de reinar entre os latinos (seja), e Lavínia continua esposa certa pelos fados: mas posso arrastar e pôr demoras em tamanha empresa; posso exterminar os povos dos dois reis. Que genro e sogro se unam por esse preço, o dos seus. Com sangue troiano e rútulo serás dotada, virgem; e Belona te espera como madrinha das bodas.
Livro VII: A chegada ao Lácio

Lavínia é levada por Amata para os montes, a pretexto de um rito de Baco, para que Enéias não a leve. No Livro IX, Turno a chama de noiva que os troianos lhe tiraram e diz que os gregos não são os únicos que pegam em armas por uma esposa.

No Livro XI, as mães e viúvas de Laurento maldizem a guerra e o casamento de Turno com Lavínia, e a própria moça acompanha a mãe ao templo de Palas, de olhos baixos: o poema a chama de causa de tantos males, sem dizer que ela tenha feito alguma coisa para isso.

No Livro XII, Turno exige o duelo e ao propor o duelo põe Lavínia como prêmio: ou ele manda ao Tártaro o desertor da Ásia, ou o troiano tem os vencidos e Lavínia lhe seja cedida como esposa. Ela cora ao ouvir o choro de Amata e o rubor acende Turno ainda mais. É o primeiro momento em que o poema a mostra reagir a algo, e o gesto não tem palavra.

Nulla mora in Turno; nihil est quod dicta retractent / Ignavi Aeneadae, nec quae pepigere recusent. / Congredior; fer sacra, pater, et concipe foedus. / Aut hac Dardanium dextra sub Tartara mittam / Desertorem Asiae (sedeant spectentque Latini) / Et solus ferro crimen commune refellam; / Aut habeat victos, cedat Lavinia conjux, em Turno não há demora; os enéadas covardes não têm por que retirar o que disseram nem recusar o que pactuaram. Eu me apresento: traz os sacrifícios, pai, e dita o tratado. Ou com esta mão mando ao Tártaro o desertor da Ásia (sentem-se os latinos e olhem) e sozinho refuto com o ferro a acusação comum; ou que ele tenha os vencidos, e Lavínia lhe seja cedida como esposa.
Livro XII: Turno

Antes do duelo, Enéias jura que, se vencer, os dois povos terão leis iguais, Latino comandará e a cidade troiana levará o nome de Lavínia. Na morte de Amata, Lavínia rasga os cabelos e as faces. Quando Turno, rendido, estende as palmas, é ele quem diz que Lavínia é de Enéias: o poema termina sem que ela apareça de novo, nem num casamento, nem num luto.

Equidem merui, nec deprecor, inquit; / Utere sorte tua. Miseri te si qua parentis / Tangere cura potest, oro (fuit et tibi talis / Anchises genitor), Dauni miserere senectae; / Et me, seu corpus spoliatum lumine mavis, / Redde meis. Vicisti, et victum tendere palmas / Ausonii videre: tua est Lavinia conjux; / Ulterius ne tende odiis, mereci, e não peço que me poupem; usa a tua sorte. Se algum cuidado de um pai infeliz pode te tocar, peço (também tu tiveste um pai assim, Anquises), tem pena da velhice de Dauno; e a mim, se preferes o corpo despojado de luz, devolve aos meus. Venceste, e os ausônios viram o vencido estender as palmas: Lavínia é tua esposa; não leves mais longe o ódio.
Livro XII: Turno

Temas que encarna

Lavínia encarna Destino e livre-arbítrio pelo avesso: é a figura cujo destino é decidido por todos os outros, o oráculo, a mãe, o pai, Turno, Juno, e cuja vontade o poema nunca registra. Encarna o Império e colonialismo no sentido mais literal, porque o casamento com ela é o título pelo qual um estrangeiro herda um reino, e a cidade que Enéias fundará leva o nome dela. Encarna a Guerra como o que a motiva e o que nunca lhe pergunta nada: é a causa de tantos males sem ter agido. E encarna Lar, exílio e retorno porque, para Enéias, a Itália que ele procura chega até ele na figura de uma noiva.

O silêncio de Lavínia é a ausência mais discutida do poema. O texto não diz o que ela quer, e o que se vê nela, o rubor diante de Turno, o choro pela mãe, a cabeça baixa no templo, aponta para ao menos três sentimentos diferentes: pudor, afeto filial, vergonha de ser a causa. Dido, na primeira metade, fala e decide; Lavínia, na segunda, é decidida. A comparação mostra o quanto Virgílio dá voz às vítimas da fundação e ainda assim deixa uma sem nenhuma.

Relações

  • Latino: o pai, que a promete a Enéias por leitura do oráculo e depois a trata como parte do pacto.
  • Amata: a mãe, que a quer casada com Turno e a leva para os montes para escondê-la dos troianos.
  • Turno: o noivo prometido, que a pede de volta pelas armas e se perturba de amor ao vê-la corar diante de todos.
  • Enéias: o noivo que o destino lhe dá e cujo casamento com ela dará nome a uma cidade.
  • Juno: a deusa que aceita o casamento e o faz custar sangue.