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Personagem

Latino

Quem é

Latino é o velho rei do Lácio, a terra onde os troianos chegam na segunda metade da Eneida, e o pai de Lavínia. Governa em paz há muito tempo e já não tem filho homem, porque o único rapaz que teve morreu jovem, e por isso o futuro do reino depende de quem casar com a filha. O que ele quer é a paz e um sucessor, e é um rei que lê bem os sinais mas não consegue agir sobre eles. O papel dele no poema é o do soberano que acolhe Enéias por reconhecer nele o genro anunciado pelo oráculo, e que depois, empurrado pela rainha Amata, por Turno e pelo povo, abre mão do poder e deixa a guerra correr: o homem de quem a guerra tira a morte tranquila que esperava, e que sabe disso.

Trajetória

No Livro VII, Latino é apresentado já velho, em paz, com muitos pretendentes à filha, entre eles Turno, e com Amata apressando as bodas. Prodígios travam o casamento: abelhas no loureiro sagrado do palácio, os cabelos de Lavínia em chamas num sacrifício. Inquieto, Latino consulta o oráculo do pai, Fauno, num bosque, e ouve uma voz que não nomeia ninguém: não deve casar a filha com um latino, porque virão genros estrangeiros que levarão ao céu o nome do povo.

Ne pete connubiis natam sociare Latinis, / O mea progenies, thalamis neu crede paratis. / Externi venient generi, qui sanguine nostrum / Nomen in astra ferent, quorumque ab stirpe nepotes / Omnia sub pedibus, qua Sol utrumque recurrens / Aspicit Oceanum, vertique regique videbunt, não procures unir tua filha em casamento a latinos, ó minha descendência, nem confies nos tálamos já preparados. Virão genros estrangeiros, que levarão ao céu o nosso nome com o seu sangue, e de cuja estirpe os netos verão tudo girar e ser regido sob seus pés, por onde o Sol, ao voltar, contempla um e outro Oceano.
Livro VII: A chegada ao Lácio

Quando Enéias envia embaixadores, Latino mal olha os presentes que Ilioneu oferece, porque o ocupa o casamento da filha: conclui por conta própria que Enéias é o genro de que Fauno falou, promete terra, convida Enéias a vir e manda cavalos aos embaixadores. Aplica o oráculo a um estrangeiro sem prova, o que pode ser leitura exata do sinal ou aposta de um rei que precisa de um sucessor.

O veneno que Alecto lança em Amata muda o jogo: ela lhe pergunta se dará a filha a exilados, e Latino não cede, mas a rainha foge para os montes com Lavínia. Quando o cervo manso de Sílvia desencadeia a primeira briga e os pastores levam os mortos ao palácio, Turno acusa os troianos e o povo exige guerra. Latino resiste como rochedo no mar, e então recua: diz que os fados o quebram, que Turno pagará o crime, que ele próprio tem o repouso garantido e é privado de uma morte feliz, e se recolhe em casa largando as rédeas do reino.

Frangimur, heu! fatis, inquit, ferimurque procella. / Ipsi has sacrilego pendetis sanguine poenas, / O miseri! te, Turne, nefas, te triste manebit / Supplicium; votisque deos venerabere seris. / Nam mihi parta quies, omnisque in limine portus; / Funere felici spolior, somos quebrados, ai, pelos fados, disse ele, e levados pela tempestade. Vós mesmos pagareis estas penas com sangue sacrílego, ó infelizes! A ti, Turno, o crime, a ti o triste suplício aguardará; e com votos tardios venerarás os deuses. Pois para mim o repouso está garantido, todo o porto à porta; sou privado de uma morte feliz.
Livro VII: A chegada ao Lácio

Cabia ao rei abrir as portas da Guerra, costume que Roma ainda observa quando o cônsul as abre. Latino se recusa a tocá-las, porque abrir seria assumir a guerra como decisão sua, e é a própria Juno quem desce do céu e empurra os batentes.

Tum regina deum, coelo delapsa, morantes / Impulit ipsa manu portas, et cardine verso / Belli ferratos rupit Saturnia postes, então a rainha dos deuses, descida do céu, empurrou ela mesma com a mão as portas que demoravam e, girado o gonzo, a Saturnina rompeu os batentes ferrados da guerra.
Livro VII: A chegada ao Lácio

No Livro VIII, Latino não aparece: são os chefes latinos que enviam Vênulo à cidade de Diomedes pedir auxílio, com o argumento de que os troianos chegaram, trazem os deuses vencidos, Enéias se diz chamado rei pelo destino e muitos povos se juntam a ele.

No Livro XI, durante a trégua, Diomedes recusa nova aliança e aconselha paz com Enéias. Latino diz então que devia ter decidido antes e propõe ceder terra junto ao Tibre ou construir navios aos troianos. Drances acrescenta que o rei dê a filha a Enéias e desafia Turno a lutar sozinho, e a notícia do avanço troiano interrompe o conselho antes de qualquer proposta fechar: Latino se culpa por não ter acolhido Enéias.

No Livro XII, Latino tenta dissuadir Turno de lutar. Oferece o reino do pai dele e outras noivas e confessa por que cedeu: vencido pelo amor que lhe tem, pelo parentesco e pelas lágrimas da esposa, rompeu todos os laços, tirou a filha prometida ao genro e pegou em armas ímpias. Confessa, na prática, que quebrou um oráculo e uma promessa a Enéias por pressão do afeto.

Victus amore tui, cognato sanguine victus, / Conjugis et moestae lacrymis, vincla omnia rupi, / Promissam eripui genero, arma impia sumpsi, vencido pelo amor que te tenho, vencido pelo parentesco e pelas lágrimas da esposa aflita, rompi todos os laços, tirei a filha prometida ao genro e peguei em armas ímpias.
Livro XII: Turno

Antes do duelo, jura o pacto diante dos exércitos pelo cetro que tem na mão, comparando a paz a um galho cortado do tronco, que não reverdece. O tratado dura poucos versos: Juturna, por ordem de Juno, o rompe, e Latino foge levando os deuses. Mais tarde vê o fogo e a morte de Amata, rasga as vestes e se culpa por não ter aceitado Enéias como genro.

Ut sceptrum hoc (dextra sceptrum nam forte gerebat) / Nunquam fronde levi fundet virgulta nec umbras, / Cum semel in silvis imo de stirpe recisum / Matre caret posuitque comas et brachia ferro, como este cetro (pois por acaso o tinha na mão) nunca soltará folhagem leve nem sombra, depois que, cortado uma vez no bosque rente à raiz, ficou sem mãe e depôs as folhas e os ramos sob o ferro.
Livro XII: Turno

Um acordo maior que o dele decide o fim: Júpiter promete a Juno que os ausônios manterão a fala dos pais e os costumes, e que o nome ficará como é. É a promessa que preserva o que Latino representa, o nome e a língua latina, na mistura que o poema anuncia.

Sermonem Ausonii patrium moresque tenebunt; / Utque est, nomen erit: commixti corpore tanto / Subsident Teucri: morem ritusque sacrorum / Adjiciam, faciamque omnes uno ore Latinos, os ausônios manterão a fala dos pais e os costumes; o nome será como é: os teucros, misturados num corpo tão grande, se assentarão; acrescentarei o costume e os ritos sagrados, e farei todos latinos de uma só boca.
Livro XII: Turno

Temas que encarna

Latino encarna o Dever do soberano diante do que não consegue conter: abre a terra aos exilados, mas não sustenta a decisão contra a pressão da rainha, de Turno e do povo. Encarna Destino e livre-arbítrio porque é o homem que recebe do oráculo uma resposta sem nome e a aplica ao estrangeiro, e que depois diz que o destino o quebra. Encarna a Guerra como a que ele não quer e não consegue parar, e o Império e colonialismo pelo lado de quem recebe: o Lácio é a terra que o poema transforma em origem de Roma, mas conserva o nome e a língua latina como sobrevivência de quem acolheu. E encarna Lar, exílio e retorno por ser o rei que oferece terra a um povo exilado e que deixa de ser dono da casa que ofereceu.

O Livro VII admite duas leituras de Latino, e o resto do poema não escolhe entre elas. Pode-se ver nele o rei lúcido, que prevê o castigo de Turno e se retira para não ser cúmplice, ou o rei que abdica quando as rédeas pesam. No Livro XII o poema o põe a confessar o que fez, o que reforça a segunda leitura sem eliminar a primeira: ele diz ter rompido tudo por afeto, e a única decisão que o texto lhe atribui sem pressão é a de acolher Enéias.

Relações

  • Lavínia: a filha única, de cujo casamento depende o reino.
  • Amata: a esposa, que quer Turno por genro e cujas lágrimas o fazem ceder.
  • Turno: o pretendente que ele chega a prometer à filha e a quem depois tenta demover do duelo.
  • Enéias: o estrangeiro que ele reconhece como genro do oráculo e a quem depois deve a guerra.
  • Juno: a deusa que abre as portas da Guerra que ele se recusa a tocar.